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Lamen Shop – Alimento para o coração!

Embora são surpreenda, Lamen Shop comove na medida certa

Um bom prato não alimenta apenas o corpo, mas também, dependendo do que você estiver comendo, a alma. Desde que o mundo é mundo, às vezes uma mesa de jantar pode não ser apenas a hora de se alimentar; pode ser a hora de celebrar uma grande conquista, perdoar enormes ofensas ou reunir aqueles que são distantes. Por isso, é bom não subestimar um prato bem feito. Ele pode mudar o curso de uma ou muitas vidas. Essa é a lição transmitida pelo belo Lamen Shop (Ramen, 2018), do cineasta Eric Khoo.

lamen shop

A filosofia de uma boa refeição é representada aqui na figura de Masato (Takumi Saitoh) um jovem cozinheiro que trabalha junto com seu pai em um restaurante de lamen, um dos pratos mais populares do Japão. O pai de Masato, Kazuo (o sempre ótimo Tsuyoshi Ihara) é um homem amargo e distante, que passa seus dias mergulhado em memórias do passado distante, quando sua esposa e mãe de Masato ainda era viva. Parece não haver muita possibilidade de redenção para o relacionamento entre os dois – e tal distância torna-se impossível quando o pai subitamente falece.

A partir daí, Masato começa ele próprio a revirar memórias. Quando descobre um baú guardado por seu pai, com antigos álbuns de fotografias de sua infância e um diário de sua falecida mãe, Masato começa a perceber que talvez a dor de seu pai não fosse tão superficial, escondendo escaras profundas e sacrifícios pessoais. O jovem cozinheiro decide refazer os passos de alguns dos momentos mais felizes de sua infância, quando ainda morava em Singapura – terra natal de sua mãe – viajando para o país do sudeste asiático, para tentar entender o que aconteceu com seus pais.

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O roteiro não esconde grandes segredos ou sofisticações. É uma jornada de reconciliação de um jovem com seu passado e o de seus pais, antes que o tempo passe e seja tarde demais para se sentir parte de uma família. O elemento distintivo da película está justamente no seu tema – tudo gira em torno da comida. O universo de Masato é representado pela sua especialidade – o lamen – enquanto o universo de sua mãe é representado por um prato típico de Singapura, chamado bah khu teh, especialidade da família de sua mãe, e a receita que fez com que Kazuo se envolvesse com a então futura mãe de Masato, Mei Lian (Jeanette Aw-Ee Ping).

E, embora tecnicamente o filme deixe a desejar, não deixa de haver uma certa afeição universal pela trajetória de um jovem cosmopolita que supera as adversidades e barreiras históricas e culturais através de uma das poucas coisas que todos os seres humanos indistintamente fazem: comer. Masato acredita piamente que sua habilidade na cozinha pode ser a solução para uma cisão da qual ele poderia ser apenas um herdeiro alienado, mas que ele toma para si como missão resolver – pois assim, pode redefinir a si mesmo e o seu relacionamento com sua família.

Simples, mas saboroso

Como dissemos acima, o filme não é nenhum primor técnico. Khoo faz um trabalho pragmático, quando não primário; seus takes são, no geral, bastante simplistas, e há uma superexposição de planos fechados e closes sobre os pratos que figuram no filme e a maneira como são feitos. Se você tem curiosidade sobre o assunto e/ou habilidade na cozinha – não é o caso deste colunista – recomendamos até levar um bloquinho de notas, porque Lamen Shop chega a ser demasiadamente didático sobre algumas das peripécias culinárias apresentadas. De fato, em alguns momentos, a alternância entre os elementos dramáticos da trama e a confecção de alguns pratos faz com que a narrativa engasgue, levando os espectadores a questionarem se a trama de fato vai para algum lugar.

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Mas, felizmente, o último ato do filme acaba, assim como a jornada de Masato, redimindo-o. Quando alguns laços familiares específicos são estreitados, temos alguns belos momentos dramáticos proporcionados por uma guinada de qualidade na interpretação – impulsionada principalmente pela figura de Beatrice Chien, a avó de Masato e ponto de inflexão mais interessante da trama. Assim como um prato exótico, talvez alguns sabores e texturas do filme não agradem tanto, mas a impressão latente na boca agrada. Talvez não tanto quanto os deliciosos lamen que pipocam na tela, mas ainda assim, bem gostoso.

Com bons ingredientes – uma história comovente de premissa universal, capitaneada por bons atores – Eric Khoo coloca um bom prato à mesa; o balanço final de Lamen Shop na hora de pagar a conta é satisfatório. Talvez um pouco pela memória afetiva que todos nós temos em relação a algum momento em que estivemos à mesa, mas ainda assim satisfatório. Se há realmente um lado negativo do filme, é o fato inevitável de que você sairá dele com fome.

E se me permitem, vou dar um pulo ali no bairro da Liberdade, porque Lamen Shop atiçou minhas lombrigas.

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