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Inferno – Por que voltaste, Langdon?

Inferno

Em 2006, foi adaptado para os cinemas o best seller O Código Da Vinci, escrito pelo norte-americano Dan Brown. O conceituado Tom Hanks foi escolhido para viver o protagonista, o professor Robert Langdon, com Ron Howard como diretor do projeto. Mesmo com uma recepção muito negativa por parte da crítica, o filme foi um sucesso de público, com mais de 700 milhões de dólares em bilheteria, e esses números deram sinal verde para o estúdio fazer uma continuação.  Em 2009, é lançado Anjos e Demônios com Hanks e Howard de volta ao projeto. Mesmo com uma aceitação melhor da crítica, o longa rendeu menos que o anterior e o projeto de adaptar os livros com Robert Langdon ficou esquecido. Como o último livro do autor, Inferno, teve um bom de números de vendas e certa parcela do público aceitou bem Hanks como o professor, os produtores decidiram adaptar esse livro e com isso veio esse terceiro longa homônimo que é, de longe, o pior da franquia.

Inferno

Em sua nova aventura, o protagonista precisa correr para descobrir onde está escondido um terrível vírus com potencial de destruir a humanidade, chamado Inferno, criado por um bilionário sinistro (Ben Foster). A principal pista do simbolista está na obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia.

Resumi a trama para fazer o oposto que o longa faz. Um dos grandes problemas do filme está no roteiro, que se acha uma texto brilhante, mas no fim é só um roteiro idiota com furos de trama e de lógica que podem insultar qualquer espectador com o mínimo de inteligência. Ele usa uma estrutura esquemática (o filme começa com o protagonista acordando sem memória dos últimos acontecimentos) que não tem propósito narrativo, junto com excesso de informações e de personagens que acabam, no fim, se atropelando. Em menos de trinta minutos de projeção fica difícil entender quem é quem e o que está acontecendo, mesmo o protagonista tendo certa noção da situação. É de se espantar que esse roteiro tenha sido escrito por David Koepp (Homem-Aranha, O Pagamento Final, Jurassic Park). Não parece de alguém competente e experiente como Koepp, pois a impressão que passa é que foi escrito às pressa por um amador. Como se não bastasse a trama ser mal estruturada, também é muito mal orquestrada. Os plot twists – as reviravoltas bruscas que Hollywwod adora – da “história” tentam mais enganar o espectador do que realmente surpreender.

Inferno

Se o roteiro já é ruim, a caótica direção de Ron Howard consegue piorar as coisas. Não é difícil entender qual foi a estratégia de Howard para Inferno: pegar os enigmas de O Código Da Vinci e  juntar com o sentido de urgência de Anjo e Demônios. No fim nada funciona, pois os dois estilos se sabotam. Por conta do sentido de urgência da trama, não dá para entender direito as resoluções dos enigmas, pois é tudo muito rápido, mesmo com o diretor fazendo o mesmo truque do primeiro filme, usando a montagem para tentar ilustrar o raciocínio de Langdon. No caso do segundo exemplar da franquia, o cineasta não se importava em mostrar qual era o raciocínio do personagem para decifrar o enigma, o que ajudava a narrativa a ficar mais coesa, enquanto no primeiro filme atrapalhava o ritmo.

No caso atual, não só atrapalha essa ilustração da linha de raciocínio, como também parece que Howard está convicto que a trama é brilhante e fica gritando: “Olha, preste atenção nesse detalhe! E nessa pintura! E nessa data!”. Soa mais como se ele estivesse chamando o espectador de idiota, ainda por cima falhando em criar tensão ou emoção em qualquer cena, já que peca pelo excesso de cortes muito rápidos, sacrificando a clareza da localização geográfica dos personagens. Lembrando que a maioria das sequências de ação são perseguições. É um dos piores trabalhos na carreira de Ron Howard.

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O elenco faz o possível para se salvar, mas como os personagens são mal desenvolvidos e com motivações ruins, fica difícil pra qualquer ator. O veterano Tom Hanks está ligado no piloto automático; a bela e talentosa Felicity Jones pouco pode fazer, mas muito por conta da sua personagem limitada; o ótimo Omar Sy está com um papel muito ingrato; Irrfan Khan interpreta um personagem que consegue ser mais estúpido do que o indiano fez em Jurassic World; Ben Forster traz outra atuação exagerada e parece que o ator esqueceu o significado da palavra “sutileza”;  a dinamarquesa Sidse Babett Knudsen acaba se saindo melhor que seus colegas.

A trilha sonora do ótimo Hans Zimmer ajudou os outros filmes, em especial o tema que foi composto para Robert Langdon. Pena que aqui o compositor criou uma das suas piores trilhas sonoras, que, além de ser uma bagunça como música, ela pouco adiciona para o filme. No fim, ela não só é chata como atrapalha a narrativa. Aliás, toda a parte técnica do filme é fraca. A fotografia é inconstante; a montagem é muito ruim; a direção de arte só serve pra mostrar os locais aonde Lagndon vai, não tem sentido narrativo; o som é muito alto e a mixagem é problemática. Filme desse tamanho ter esses problemas técnicos é muito feio.

Inferno tem a ilusão de ter muita coisa a dizer, mas, na verdade, ele não diz absolutamente nada. É só um filme muito mal escrito e pessimamente dirigido que se acha brilhante. Depois disso, se tivermos mais um longo hiato até o próximo filme com as aventuras de Robert Langdon, não vou reclamar. Sinto que é melhor deixá-lo nos livros mesmo.

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