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A Livraria – Cinema com aroma de chá e bolo!

A Livraria proporciona uma experiência leve e agradável ao seu espectador

Baseado no romance homônimo de Penelope Fitzgerald, A Livraria (The Bookshop) é uma co-produção espanhola, alemã e britânica. Escrito e dirigido por Isabel Coixet, o filme se passa no final dos anos 1950, numa pequena cidade costeira inglesa chamada Hardborough e venceu o Goya deste ano nas categorias de melhor filme, roteiro adaptado e direção.

Crítica do filme A Livraria

A Livraria

A história se foca em Florence Green (Emily Mortimer da série do HBO The Newsroom), uma viúva da guerra que resolve abrir uma livraria numa cidade profundamente atrasada, onde as pessoas não leem. O conflito se encontra no local que ela escolhe para instalar seu negócio: um casarão antigo e folclórico que passou muito tempo abandonado, chamado The Old House.

O local era considerado assombrado até a aquisição pela viúva, mas sua reabertura trouxe a atenção da parte aristocrática da cidade, mais especificamente da senhora Violet Gamart (Patricia Clarkson, da trilogia Maze Runner e House of Cards), uma rica esposa de um general acostumada a dar festas suntuosas, com planos de usar a antiga casa como um dos seus projetos pessoais, um centro de artes.

O sucesso inesperado da livraria e o apoio de um misterioso ricaço que se esconde nas montanhas, conhecido como Sr. Brundish (Bill Nighy, de Piratas do Caribe: O Baú da Morte), seu primeiro cliente, transformam Florence em um obstáculo para os planos da Sra. Gamart e inicia-se uma batalha para tentar salvar a pequena loja de livros.

Crítica do filme A Livraria

A Livraria é um pequeno libelo sobre o poder. Por trás de uma história bastante simples se encontra um manifesto sobre o assédio que os poderosos exercem sobre os menos afortunados. É a conhecida trama do homem contra o establishment (a sociedade, o estado, as instituições).

A Senhora Gamart, é uma vilã daquelas que se percebe apenas pelo olhar. Ela não foi construída para apresentar diversas camadas e sua motivação é exclusivamente humana: soberba. Mas, apesar de maniqueísta, isso não torna sua personagem rasa. As camadas são acrescentadas pela atuação de Clarkson e sua química com o restante do ótimo elenco. Seu relacionamento com o ambicioso Milo North (James Lance, comediante britânico), um preguiçoso funcionário da BBC, mostra como ela sabe manipular as peças como se fosse uma partida de xadrez jogada durante o chá da tarde.

Mas nos lembremos de que, apesar de todo o peso da personagem, ela não é a protagonista de A Livraria. A história contada é a de Florence. E aqui o melodrama ganha a leveza de Emily Mortimer. A atriz tem um jeito espontâneo e desajeitado, que gera um certo alívio cômico ao drama da sua personagem. Clarkson e Mortimer já estiveram juntas ano passado na comédia A Festa, de Sally Potter.

Uma produção que encontrou seu tom

Intencionalmente colocada entre grandes atores com um ar mais teatral, austero e pesado, como Clarkson e Nighy, Mortimer se destaca por ser o contrário. Suas cenas com Nighy, onde um clima romântico parece ser forçado entre um homem recluso e idoso e uma viúva ainda jovial, deveriam ser improváveis, mas as atuações e a direção sensível de Coixet subvertem a expectativa.

Um pequeno adendo. O cinema está resgatando grandes atores de mais idade e isso é ótimo. A cena entre Patrícia Clarkson e Bill Nighy tem um poder que só a experiência e o talento são capazes de dar.

O roteiro, cheio de simbolismos, usa a narração da jovem e impetuosa assistente Christine Gipping (Honor Kneafsey, de Crooked House, filme de 2017 baseado no livro A Casa Torta, de Agatha Christie, ainda não lançado no Brasil) como guia e se concentra tanto no melodrama, na construção do “poder intangível” da Sra. Gamart, assim como na admiração pela doçura (e passividade) de Florence. A visão da pré-adolescente dá ao filme um aspecto mais lúdico, que lembra bastante o clima de Desventuras em Série, livro de Daniel Handler que se transformou em filme e série.

Crítica do filme A Livraria

Estruturalmente bem construído, existem pequenos trechos que poderiam ser mais rápidos, mas a escolha por uma narrativa mais lenta tem a ver com o clima britânico, bucólico e literário que a diretora espanhola criou. Aliás, prepare-se para terminar a sessão com sotaque do Reino Unido.

A fotografia tem uma influência clara do clima britânico, como se tudo fosse enevoado apesar de claro. Tecnicamente, existem alguns planos que não acrescentam muito à narrativa, mas não chegam a estragar a experiência. A trilha musical clássica e em tons menores, além do som característico de cidades costeiras, são presentes e acrescentam ao melodrama. Uma imersão sutil.

A Livraria é um filme bastante agradável, daqueles que combinam com um bom chá servido com bolo e um livro numa tarde chuvosa.

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