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Festa da Salsicha – Caverna de Platão com humor juvenil!

Festa da Salsicha

Se alguns conceitos viram moda na cultura de massa por conta de alguma necessidade psicológica do público, é a hora de alguém pesquisar sobre a frequência com a qual o mito da Caverna de Platão tem recebido novas roupagens no cinema. Em 2016, já tivemos O Quarto de Jack, Meu Amigo, O Dragão – produções de tons bem diferentes – e agora temos mais um exemplar, que usa o humor escrachado como embalagem. Festa da Salsicha (Sausage Party) foi concebido pelas mentes galhofeiras de Seth Rogen e Evan Goldberg, produtores e roteiristas de comédias de sucesso como Superbad: É Hoje e Segurando as Pontas, que também dirigiram o polêmico A Entrevista, em 2014, com o próprio Rogen em um dos papeis principais.

Festa da Salsicha

O cartaz já adverte que não é uma animação para crianças. Não é mesmo, porém, para classificá-lo como “adulto”, teríamos que entender esse adjetivo como “repleto de piadas envolvendo falos e orifícios corporais”. A premissa surtada é interessante, mostrando a rotina alegre das comidas em um supermercado, cujas atividades, misteriosamente, não podem ser vistas pelos humanos. A vida dos gêneros alimentícios só tem sentido graças à esperança de serem escolhidos e levados embora por qualquer cliente, que eles acham tratar-se de deuses que os levarão ao Paraíso.

Ignorando o verdadeiro destino dos alimentos, a salsicha Frank (voz de Seth Rogen na versão original) e seus companheiros de embalagem sonham com o momento em que serão escolhidos e vão preencher os pães de cachorro-quente, que incorporam personalidades femininas e têm bocas que lembram vaginas. Entre as garotas do pacote de pão, Brenda (Kristen Wiig) é a paixão correspondida de Frank, e todos acabam no mesmo carrinho graças ao dia da Independência. A aventura começa quando se perdem no próprio supermercado, depois de ouvirem um traumatizado pote de mostarda devolvido, o que abala a fé de Frank e o faz ir atrás da verdade.

Festa da Salsicha

A partir daí, dá-lhe tiradas de duplo sentido e envolvendo as origens étnicas de determinados alimentos. A versão dublada, com texto adaptado pela equipe do Porta dos Fundos, capricha na torrente de palavrões, o que não é surpresa, mas a direção de Conrad Vernon (Madagascar 3) e Greg Tiernan (que dirigiu dúzias de episódios da série infantil Thomas e Seus Amigos) não consegue evitar um defeito grave neste tipo de produção. Festa da Salsicha parece procurar afirmar-se como adulto, mas através das insinuações sexuais e do linguajar, algo que deve divertir mais aos adolescentes do que qualquer outro público, o que faz o filme falhar no objetivo primordial do humor, se você já passou desta fase.

Como alegoria sobre a alienação religiosa, o filme atrai a atenção em seu primeiro terço, aproveitando a variedade de alimentos presentes para alfinetar certos comportamentos de etnias que vivem em conflito. Talvez, apenas a busca pela verdade de Frank e seus eventuais companheiros já segurasse um longa com um texto melhor trabalhado, sem a necessidade de um vilão definido, como é o caso da vingativa ducha íntima. Provavelmente, pensou-se apenas no potencial das piadas envolvendo a introdução do objeto em algo ou alguém.

Festa da Salsicha

Mesmo devendo no humor como um todo, há momentos criativos que chamam atenção, como uma hilária referência a Stephen Hawking, mas é chato que uma animação com esse grau de liberdade e a apresentando-se como “adulta” fique apenas em cima do muro na hora H. Não que os realizadores sejam obrigados a serem profundos, mas, se em um primeiro momento parecia vir uma crítica ácida e divertida, acabou como uma mensagem óbvia e piegas, acomodada em uma zona de conforto e tentando agradar a todos. Além de tudo, esta também acaba prejudicada e perdida no meio do ápice da obsessão sexual do filme.

Sem novidades no visual, Festa da Salsicha serve, no máximo, como uma diversão esquecível.  No entanto, mesmo com a ingenuidade travestida de ousadia, levando em conta o potencial dele para irritar alguns patrulheiros politicamente corretos e/ou conservadores chatos, até que merece um crédito.

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