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A Economia do Amor – A tristeza de um casamento em ruínas!

A Economia do Amor

A Economia do Amor

Não existe nada mais deprimente do que um casamento em ruínas. É uma areia movediça – se você está nele, toda vez que você tenta se mexer por qualquer motivo, só se vê mais afundado e, por consequência, mais próximo do total sufocamento. Se você não está nele, mas se mete no assunto, acaba dragado para dentro e tão prejudicado quanto os que já estavam ali. Como diria o grande filósofo James Hetfield, it’s sad, but true. Em A Economia do Amor (L’économie du couple) o diretor Joachim Lafosse, de maneira quase mórbida, nos coloca à beira desse poço de areia movediça para contemplar o casal Boris (Cédric Kahn) e Marie (Bérénice Bejo) se afundando mais e mais em sua própria ruína. E não é nada bonito.

O motivo para esse relacionamento já aparecer na tela desde o início em frangalhos não poderia ser mais contundente – e, ao mesmo tempo, realista: dinheiro. Daí o nome original do filme – A Economia do Casal (apesar da infeliz escolha da tradução brasileira lembrar o conceito da economista Hazel Henderson, não é o caso aqui). A infame ironia reside justamente no fato de que ambos são péssimos administradores – seja do dinheiro, seja da vida.  Pior para eles, essa característica os levou a uma situação insustentável: Marie comprou a casa onde vivem (com uma suntuosa ajuda de dinheiro dos pais), mas Boris a reformou por completo (para pagar o valor cujo dinheiro ele não possuía).

Assim, quando decidem se separar, eles se veem presos um ao outro. Marie quer vender a casa, mas Boris não aceita os valores e os termos, ficando ambos empacados em um local e uma situação que rapidamente degringola em uma espiral descendente – tudo, literalmente tudo, é motivo para briga. Como se desgraça pouca fosse bobagem, Boris e Marie ainda tem um casal de gêmeas, as fofíssimas Jade e Margaux, que testemunham em primeira mão os conflitos de seus pais. Quem vai precisar de anos de terapia no futuro levanta a mãozinha.

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É interessante notar que, no fundo, apesar de a disputa entre ambos aparentemente girar em torno da questão financeira, com o passar da narrativa percebe-se que essa é apenas uma desculpa mesquinha para problemas que são mais profundos. Toda vez que Marie se auto-afirma dizendo que trabalhou para ter o que conquistou – ao que Boris faz questão de deixar claro que tudo lhe foi dado e que ela nunca conheceu a pobreza como ele conheceu – o que se percebe é que ambos possuem frustrações mais profundas em relação um ao outro. Boris nunca esteve à altura do homem que Marie desejava que ele fosse, ao que Marie sempre decepcionou Boris não abraçando a vida da maneira como ele a entende. Aqui, como na imensa maioria dos relacionamentos, não existe “certo” ou “errado” – existe aquilo que é e aquilo que se gostaria que fosse.

Os filmes de Lafosse são conhecidos por serem difíceis de digerir e esse não é diferente. Assistir Boris e Marie se engalfinharem minuto após minuto, com apenas alguns pequenos intervalos entre as brigas – como lutadores tomando fôlego para voltar ao centro do ringue – provoca uma profunda sensação de pena, mas acompanhada daquele típico constrangimento e vergonha alheia, característicos de quem acompanha in loco uma briga de dois amigos queridos. E isso não acontece simplesmente pela proposta do sufocante roteiro do próprio Lafosse, assistido por Mazarine Pingeot e Fanny Burdino.

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Acontece também – e principalmente – pela ótima proposta de câmera de Lafosse, contrastando planos e contra-planos dentro de ambientes fechados, valorizando os espaços fechados dentro da casa. Aquele espaço, que deveria ser o porto seguro dos membros da família, se torna tenso e ameaçador, sempre sob a sombra de uma nova, intensa e verborrágica disputa de culpa entre o casal. Ele constrói uma espécie de “prisão” usando apenas os cenários interiores do lar – que, incidentalmente, é bastante iluminada e arejada, um contraste irônico que só reforça o bom trabalho do diretor.

Não obstante, outra parte dos méritos vai para os ótimos Kahn e Bejo. A interpretação de ambos é de uma excelência ímpar. A todo instante, suas expressões escancaram os seus sentimentos, tornando vívido o desconforto de seus personagens com a situação e consigo mesmos. O que é ótimo para o diretor, que a todo momento nos prende em closes e não nos permite evadir daquele tempo e espaço, como se não apenas fossemos obrigados a testemunhar a ruína desse casal, mas, de certa forma, também estivéssemos no lugar dele. Cada palavra jogada ao vento com raiva, cada expressão dura que nos permite enxergar cada ruga de tristeza nos personagens, é um tijolo a mais nesse muro construído entre os personagens e com o público. É quase como se Lafosse, Kahn e Bejo fizessem questão de nos lembrar para que a expressão “quarta parede” serve.

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Talvez a única ressalva que se possa fazer é em relação a extensão do filme e sua narrativa. Apesar de ser um tema intenso, o filme se estende por 100 minutos tratando basicamente do fato de Boris e Marie não se suportarem mais. Não existe muito desenvolvimento além disso, com algumas consequências óbvias em relação ao núcleo familiar, mas é basicamente isso. Alguns amigos leitores podem achar um tanto cansativo devido a isso, mas, se permitem a esse insípido colunista opinar, tentem assistir ao filme como alguém que observa por uma janela. É menos uma narrativa, e mais uma situação.

Todos nós já passamos por essa situação – assistir a um casal de amigos simplesmente se afastar até o ponto de não existir mais nada entre ambos a não ser ressentimento. Lafosse, Kahn e Bejo capturaram com perfeição – e algum sadismo – este patético, ainda que trágico, momento da vida de um casal. E, como dissemos, não é sempre uma questão de certo e errado. A vida – assim como o amor – é assim: às vezes dá certo, às vezes não dá. E, para quem observa, só resta lamentar e torcer pelo melhor.

Porque é aquela velha história: em briga de marido e mulher…

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