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Com Os Punhos Cerrados – Amadorismo técnico e inocuidade intelectual!

A pobreza cinematográfica de Com Os Punhos Cerrados

O princípio da câmera na mão e uma ideia na cabeça, muito fomentado por movimentos cinematográficos como o Neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague francesa e, no Brasil, o Cinema Novo, é um caminho de duas vias: ao mesmo tempo que abre portas para cineastas talentosos que não teriam oportunidades pelos meios mais convencionais, dá voz a sujeitos que não têm nada a dizer. Os brasileiros Pedro Diógenes, Luiz e Ricardo Pretti, diretores do filme Com Os Punhos Cerrados, pelo visto, parecem se encaixar nessa segunda categoria de cineastas.

O nacional Com os Punhos Cerrados é uma produção amadora e sem conteúdo.

Com os Punhos Cerrados

Roteirizada e também protagonizada pelos diretores, a obra conta a história de três jovens anarquistas e revolucionários – os seus nomes não são fornecidos. Para transmitirem a sua mensagem política, eles criam uma estação de rádio pirata que interfere na frequência de outras e difunde o conteúdo de suas palavras por toda a cidade. Após chamarem atenção das autoridades e dos sujeitos que estão perdendo dinheiro por causa de sua interferência, é colocada uma recompensa para aqueles que souberem do paradeiro de cada um deles. Isso acaba por exilá-los no meio do deserto, onde, lutando pela sobrevivência, continuam tentando espalhar as suas ideias.

Amador e produzido com um orçamento baixíssimo, Com Os Punhos Cerrados é um daqueles típicos filmes feitos por estudantes de Cinema que se embebedaram com os longas de Jean-Luc Godard e a retórica de esquerda tão característica das universidades brasileiras: há, no filme, o misto de imagens, música e poesia que fez da obra do famoso cineasta francês uma das mais veneradas de todos os tempos e a temática ideológica e revolucionária exaustivamente ensinada por nossos “professores” universitários. No entanto, curiosamente, este não é o filme de conclusão de curso dos diretores e sim o quarto longa de suas carreiras (o quinto de Ricardo Pretti).

Portanto, não há desculpas para o fato de nenhum dos três cineastas não ter percebido a falta de significado da maioria dos planos concebidos (os jump-cuts – mais uma referência ao cinema de Godard – da única atriz do filme é um dos momentos mais vazios e vergonhosos de toda a obra); ou ter considerado aceitável as inúmeras músicas que tocam ao longo da projeção (não me pergunte o porquê de algumas delas serem em espanhol, pois não saberia dizer) e que, em um dos recursos mais risíveis que existe, possuem letras que descrevem a situação atual dos personagens; ou até mesmo ter deixado passar as próprias atuações sem vida e a montagem desastrosa de Clarissa Campolina, que, perdendo o timing dramático na maior parte das vezes, deixa os planos se estenderem demasiadamente.

O nacional Com os Punhos Cerrados é uma produção amadora e sem conteúdo.

Embora algumas pessoas possam – e garanto que irão – afirmar que esse amadorismo é proposital e que, de alguma maneira, ele reflete a situação marginal e precária em que os personagens se encontram, ainda assim, desde quando a ruindade, mesmo que seja deliberada – o que, convenhamos, é uma desculpa excelente para aqueles que não têm talento algum – , se transformou em padrão estético aceitável ou, por incrível que pareça, possível de ser elogiado? No entanto, se o restante do mundo enlouqueceu, eu me recuso a abraçar essa insanidade. Com Os Punhos Cerrados é um filme tecnicamente desastroso, chegando a ser pior que vídeos amadores postados diariamente no Youtube.

O vazio intelectual

Já no que diz respeito à temática e ao conteúdo intelectual da obra, Pedro Diógenes, Luiz e Ricardo Pretti conseguem atingir o mesmo padrão de amadorismo e ignorância. Aliás, se existe algo que pode ser comparado – num mesmo nível de igualdade – com a pobreza técnica de Com Os Punhos Cerrados é o seu conteúdo. Para entender qual é o tipo de miolo intelectual que lhe aguarda, peço ao leitor que faça o seguinte exercício: tente lembrar, pois sei que já teve contato com uma delas em um determinado momento da vida, de alguma poesia cujos versos fossem herméticos e não fizessem sentido algum, ou seja, que mascarava a sua ausência de significado através de palavras difíceis e desconexas do todo.

Uma vez feito esse exercício, lhe garanto que saberá de antemão a totalidade dos cansativos e inúmeros discursos feitos pelos personagens ao longo da narrativa. E, quando uso o termo “discursos”, estou sendo literal, afinal, no filme, as pessoas não conversam normalmente umas com as outras. Tudo o que elas fazem é sentar na frente de um microfone e vomitar as palavras mais absurdas possíveis. E o fato de os diretores/roteiristas/atores acharem que esses instantes são ricos e profundos (vejam a quantidade de minutos que eles desperdiçam ouvindo as lamúrias e os versos risíveis de um poeta que concede uma entrevista aos personagens) revela a sua imensa incapacidade de reconhecer não só o que é cinematograficamente ineficaz, como aquilo que é poeticamente pobre.

O nacional Com os Punhos Cerrados é uma produção amadora e sem conteúdo.

Enervantes e subjetivamente infindáveis (o filme parece nunca acabar), cada segundo de Com Os Punhos Cerrados é um indicativo de que os realizadores trabalharam com um orçamento muito reduzido. A sua aparência é a de um filme amador, em todo sentido técnico possível. No entanto, isso não deve servir como desculpa para a precariedade cinematográfica e intelectual de um projeto. Tenho certeza que muitos elogiarão o filme pela sua “ousadia” e “coragem”, mas, novamente, recursos paupérrimos não justificam a pobreza geral de uma obra. Afinal de contas, qual é o propósito de lutar contra todas as dificuldades financeiras e técnicas imagináveis se for para lançar algo que beira o insuportável?

(Se você gosta de bons filmes brasileiros, assista aos recentes Redemoinho e La Vingança)

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