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A Assassina – A beleza sutil da Morte!

A Assassina

No início dos anos 2000, Ang Lee nos entregou a que talvez seja – até hoje – a obra mais bela e celebrada do gênero wuxia do cinema – O Tigre e o Dragão. Um exercício de estética inovadora e narrativa poética, mas sem desagradar ao grande público, encenando fantásticas e frenéticas sequências de ação, onde o diretor parecia ter definido o gênero. Eis que, dois anos depois, Zhang Yimou nos trouxe Herói, outro wuxia, uma obra prima estética e poeticamente ainda mais ousada que o filme de Lee, uma onírica sequência de cores e pinturas em movimento, que transformava espadas em pincéis e guerreiros em poetas.

A todos, parecia que esse gênero de filmes estava vendo uma aurora comparável ao cinema japonês pós-segunda guerra. Explorando sua própria cultura e tradição como fundamento dessas obras, a China agora teria diretores e filmes à altura de Ozu, Mizoguchi ou mesmo – porque não? – Kurosawa. As expectativas eram grandes no período, mas as coisas esfriaram e o gênero se conteve ao âmbito nacional chinês, produzindo obras que até agradam ao público local, mas muito aquém das expectativas que Lee e Yimou despertaram em nós no início do século XXI. Por que fazer esse retrospecto histórico? Porque o diretor taiwanês Hou Hsiao-Hsien pode ter despertado em nós a esperança sobre os wuxia novamente.

A Assassina

Em A Assassina (Nie yin niang), Hsiao-Hsien usa, a exemplo de O Tigre e o Dragão, uma antiga fábula chinesa para criar uma obra prima estética, que prima pelo exercício do cinema enquanto a arte do movimento e do som. A história do filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes no ano passado, se passa no século VII, durante a dinastia Tang. Nie Yinniang – interpretada pela austeramente belíssima Qi Shu – é a assassina do título. Uma matadora infalível e silenciosa, levada quando criança, contra a sua vontade, por uma monja assassina para ser treinada nas montanhas da China. Quando ela falha em executar uma de suas missões ao poupar a vida de seu alvo pelo fato de seu filho estar presente, sua impiedosa “benfeitora” a manda para uma missão ainda mais difícil – matar o homem para quem um dia ela foi prometida e havia sido seu primeiro amor – o bom Chang Chen, mais conhecido do grande público pela sua participação em filmes de Ang Lee e Wong Kar-Wai. Agora ele é o governador de sua província, e ela precisa escolher entre o seu caminho como artista marcial e assassina e seu antigo amado – entre sua vida pregressa e seu presente.

A Assassina

Embora estejamos citando continuamente o clássico de Ang Lee, devemos alertar que se o amigo leitor espera qualquer coisa parecida, pare e pense suas vezes antes de ir ao cinema. O Tigre e o Dragão, como dissemos acima, tinha a preocupação de encontrar um equilíbrio entre arte e entretenimento. A Assassina não poderia ligar menos para o segundo. Para o espectador mais contemporâneo, o filme poderia ser comparado a O Regresso, de Alejandro Iñárritu, um filme de época baseado em um fiapo de narrativa, que se consolida sobre a colagem progressiva de imagens que são – literalmente – pinturas em movimento. Entretanto, o filme do mexicano é uma exceção ao cinema hollywoodiano, impressionando tanto talvez por isso.

A Assassina

Para o cinema oriental, é uma excelente exploração da sua própria tradição. Kurosawa, talvez o maior e mais influente cineasta da história, era conhecido por pintar as cenas de seus filmes antes de executá-las. Esse resgate estético já havia sido feito parcialmente no Herói de Yimou, mas Hsiao-Hsien leva esse momentum do cinema asiático a um nível artístico só visto anteriormente, talvez, em Ran. O uso das cores, principalmente na transição da breve introdução em branco e preto para o uso ostensivo de cores, característicos da estética chinesa, diz muito mais no filme do que os diálogos. Longas tomadas fixas apenas na expressão dos atores que precisam dizer sem falar – expressar sem comunicar. Quando não há nada há ser dito, mas muito a ser contemplado, o diretor nos presenteia com belíssimas tomadas ricamente detalhas – naturais ou não – privilegiando o uso da iluminação natural dos ambientes (outro tópico em que a película poderia ser comparada, em algum momento, ao filme de Iñarritu).

A Assassina

Não estamos dizendo que o filme seja impecável. É preciso uma imensa disposição para encarar duas horas de um filme de ação – afinal, é um wuxia – cuja ideia não é estimular um ritmo frenético ou intenso, mas sim cadenciar e desacelerar o espectador, despertando um estado contemplativo que beira uma experiência de meditação, algo muito comum no antigo cinema japonês que o diretor tanto admira. Somente e tão somente assim o amigo leitor que for ao cinema pode desfrutar dessa belíssima poesia em cores e movimento. Caso contrário, o filme parecerá apenas brutalmente chato, e ninguém irá culpá-lo por dormir no meio da sessão. O filme, de fato, explica tão pouco sobre si mesmo, que um espectador mais desavisado, ou não muito familiarizado com a cultura chinesa, pode achar estranho, ou até mesmo caricato, a maneira tão natural como o filme usa por exemplo elementos de magia negra, feitiçaria e outros aspectos sobrenaturais. Novamente, se não estiver disposto a interpretar uma obra de arte complexa, dificilmente o amigo leitor irá desfrutar dela.

A Assassina é uma obra coerente com sua protagonista – sutil, que se realiza aos poucos e, quando menos se espera, concluiu seu trabalho com maestria. Hou Hsiao-Hsien, afastado das telas há quatro anos, retorna para nos dar o que pode ser a ressurreição em escala global de um dos gêneros mais belos do cinema asiático e, de quebra, ainda nos permite admirar duas horas da escultura viva que é Shu Qi. Ademais, para aqueles que realmente acharem que o filme não é bom por ser lento demais, uma dica: desacelere. Preste mais atenção ao mundo e a natureza à sua volta.

A morte – como Yinniang – pode chegar de repente.

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