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Aspirantes- Um estudo sobre a iniciação à vida!

Primeiro longa de Ives Rosenfeld, Aspirantes é naturalista e surpreendente

Ambientado no universo das peneiras de futebol, Aspirantes, primeiro longa-metragem de Ives Rosenfeld, flerta com o melodrama, mas com tanta sinceridade que não chega a atrapalhar o aproveitamento da obra. Junior (Ariclenes Barroso) é um jovem jogador de futebol de um time amador na pequena cidade de Saquarema, no interior do Rio de Janeiro. Ele busca se profissionalizar, mas a notícia das futuras responsabilidades que virão, fruto da gravidez de sua namorada, não o abalam. Ele não reclama de morar com o tio em um casebre e quando a eletricidade é cortada por falta de pagamento ele pede a conta para pagar.

Crítica de Aspirantes

Com uma brasilidade forte, (esse é o primeiro filme em que esse resenhista escuta um bem-te-vi cantando em surround), o pano de fundo das peneiras de futebol serve como âncora de um roteiro sobre sonhos e otimismo juvenil perante a vida. “Tudo vai dar certo”, diz Junior para sua namorada, Karen (Julia Bernat), quando ela lhe pergunta como ele irá criar seu filho sem um emprego fixo, apenas com os bicos de carregar e descarregar caminhões de hortifruti. Ele acredita nesta certeza, não tem opção a não ser acreditar.

Apesar de começar com alegria, ao longo do filme o protagonista torna-se cada vez mais calado. Quando seu melhor amigo, Bento (Sérgio Malheiros), começa a ser cortejado para entrar em um time profissional, Junior parece começar a sentir o peso das responsabilidades na sua vida, lidando com pressões externas e emoções internas conflituosas. Contendo sua frustração e raiva, Junior precisa aprender a lidar com elas antes que transbordem e tomem conta de suas ações. 

Aspirantes retrata as suas personagens com o carinho de um pai orgulhoso, que acredita no potencial de seus filhos, sempre mostrando a camaradagem e a realidade da juventude das peneiras. Tanto a figura paterna do treinador do time quanto comentários entre os jovens atletas (como “bota um saco na cabeça se for muito feia” e um “cara, te amo pra caralho”) têm a mesma honesta intensidade. Os rapazes falam um em cima do outro, uma cacofonia de vozes jovens buscando seu espaço. Karen espreme seu cabelo molhado em Junior quando ele reclama que ela está fria ao sair do mar.

Crítica de Aspirantes

A vida como ela é

Cinco minutos acima de um média-metragem, os longos takes contemplativos do filme passam devagar e permitem uma degustação completa de cada cena. Junior foge de uma peneira importante para olhar a construção de um estádio e não consegue conter sua mágoa, chorando no ônibus ao voltar para casa. A cena não tem diálogos, mas a dor do protagonista é sentida. O simples ato de dobrar roupas com sua namorada pode ter emoções dissecadas pelo espectador.

O roteiro de Ives Rosenfeld e Pedro Freire é simples e direto, deixando as cenas nas competentes atuações do elenco. Através de um naturalismo bem-dirigido, todos entregam um filme tocante. A fotografia de Pedro Faerstein mostra interesse nas ações cotidianas, detalhes de canto de parede, rejuntes inacabados e teias de aranha penduradas no teto da casa simples do tio alcoólatra de Junior.

Na primeira metade da obra, os protagonistas são retratados quase sempre de costas ou de lado, protegendo as atuações e criando uma cumplicidade da qual o espectador não é convidado a participar. Resta apenas observar, estudar e ter empatia enquanto os personagens enfrentam seus obstáculos. Na segunda metade, as cenas adquirem mais movimento, tanto nas focadas no futebol quanto em uma conversa cotidiana.

Crítica de Aspirantes

Um café-da-manhã memorável

Uma cena específica que chama a atenção é um longo take dentro de uma cozinha. Junior está sentado no sofá da sala, em foco, enquanto toda a ação acontece dentro da cozinha, ao fundo. Sua namorada está sendo cobrada pela mãe para comer de maneira mais saudável, agora que está grávida. “Mas esta maçã parece podre” ela reclama, recebendo outra em troca. O namorado da mãe, que Karen já protestou anteriormente ser muito velho para ela, entra sonolento na cozinha para tomar café e começa a conversar abertamente com Junior, oferecendo-lhe um contato para um possível emprego.Junior não consegue nem responder, sua namorada interfere em seu favor : “ele é jogador de futebol”. Uma palavra atravessada aqui e ali e começa uma briga com o casal que rapidamente perde a proporção.

O que começou como um agradável e preguiçoso café da manhã se torna uma briga familiar completamente plausível, em uma progressão naturalista e convincente. A cena ocorre toda fora de foco, ficando somente na reação de Junior, que sofre em silêncio no sofá. Cenas estáticas são comuns em filmes nacionais, como uma forma de conter custos. Menos movimento significa menos takes e menos tempo gasto para filmar. A direção de Rosenfeld nessa cena, contudo, mostra que não é necessário ter uma ampla cobertura de planos e contra planos. Para uma cena tão complexa, basta uma visão de direção e ensaio para criar algo único, especial.

Com um final surpreendente, Aspirantes tem um elenco muito bem escolhido e a direção de atores é impecável, trazendo um diferencial enorme para o filme em relação a produções com o mesmo orçamento ou temas similares. Rodando festivais desde 2015, a obra finalmente encontrou distribuição e terá uma última rodada no cinema.

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