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Aos Teus Olhos – Cinema sem dúvida!

O Cinema Nacional dá um passo adiante com Aos Teus Olhos

O premiado filme de Carolina Jabor, Aos teus Olhos é mais uma prova da evolução narrativa do cinema nacional. E, mais do que isso, mostra que é possível se posicionar através do debate de ideias.

Baseado na peça espanhola O Princípio de Arquimedes, o filme conta a jornada de Rubens, vivido por Daniel de Oliveira, professor de natação de um clube dirigido por Ana (Malu Galli). Quando, após uma competição, surge uma reclamação de um dos pais de uma das crianças, Davi (Marco Ricca), sobre um suposto beijo do professor no aluno, uma torrente de acusações e opiniões transforma Rubens em culpado sem, ao menos, o direito da presunção da inocência.

Crítica de Aos Teus Olhos

No período de 24 horas, vemos um professor de educação física ter sua reputação toda arruinada por conta de uma incerteza: teria ele abusado do “carinho” com um de seus alunos? Esse é o tema principal do filme: frente a pressão da opinião popular, é possível evitar que uma dúvida se torne um julgamento?

A incrível sincronia com o momento político e jurídico atual põe em debate, de maneira elegantemente cinematográfica, a tendência que a sociedade tem, principalmente em tempos de redes sociais, ao linchamento virtual. O competente roteiro de Lucas Paraizo apresenta diversas visões da questão principal, pois apenas o professor e a criança sabem a verdade. E a postura de Rubens diante da acusação nunca se torna clara, o que nos coloca numa posição parecida com as de Ana e Davi.

Cada um deles tenta lidar com a pressão e a delicadeza da situação da maneira que pode, mesmo que a dúvida e o eminente assassinato de reputação façam com que eles alternem entre a culpa (por acusar sem ter certeza) e a procura por um culpado.

O acusador Davi, pai do garoto, é um personagem denso e cheio de camadas que são totalmente justificáveis, pois ele sofre pressões externas para ser o pai protetor e, ao mesmo tempo, compensar sua postura opressora e ausente. A atuação de Marco Ricca, que vem se especializando no papel de “pai” (como em As Duas Irenes), é empática e nos deixa em dúvida sobre o seu antagonismo.

Crítica de Aos Teus Olhos

A incerteza aumenta nosso interesse

Ana, a diretora do clube, tenta desesperadamente manter seu raciocínio equilibrado em meio à tantas perguntas, que Rubens insiste em não responder. Não sabemos se ele é culpado das acusações, mas, com certeza, é o responsável por suas decisões ao longo do filme.

A direção de Carolina Jabor é extremamente sutil. Ela sabe deixar que a imagem conte a história e tem um bom domínio da linguagem de cinema. A forma com que compõe o quadro dá a perfeita compleição da opressão que os personagens provocam ou sofrem. Além disso ela consegue extrair atuações muito boas do trio de atores principal: Daniel, Ricca e Malu.

Comparado ao filme dinamarquês, A Caça, de 2012, onde existe uma situação parecida, Aos Teus Olhos é menos maniqueísta e mais interessante, pois nos coloca na posição de júri, mas não nos alimenta com certezas. Mas é possível ver que Paraizo e Jabor bebem da fonte de filmes como A Onda, por exemplo, onde a manipulação midiática ou por interesses pode tomar vantagem da desinformação e o preconceito.

Em tempos de “Fake News” e julgamentos questionados no Brasil, o filme faz seu papel de cinema: o de colocar o assunto à mesa e deixar que seu público possa debater e aprender mais. E vestir um pouco a carapuça.

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