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Amigos para Sempre – Não tão intocável!

Amigos Para Sempre aprofunda clichês do original e evita riscos

Em 2011, a comédia-dramática francesa Intocáveis, escrita e dirigida por Olivier Nakache e Éric Toledano, conquistou plateias do mundo todo com a história real da improvável amizade entre um bilionário tetraplégico e seu cuidador, um homem sem preparo algum e vindo de uma classe social muito inferior. O filme se tornou a terceira maior bilheteria da história da França e o mais rentável de todos os tempos naquele país, além de destaque entre os indicados em premiações dentro e fora da Europa. Longe de ser uma obra-prima, a estética e a linguagem mais palatável ao público norte-americano conseguiram uma repercussão acima da média nos EUA, onde predomina uma tradicional resistência a filmes em língua não inglesa.  A trama, com doses de preconceito de classe, ascensão pessoal, emotividade, comédia e aconselhamento de autoajuda, parecia sob medida para o mercado hollywoodiano, em permanente crise de criatividade. Nada surpreendente aparecer uma refilmagem mais “tradicional” da produção: Amigos para Sempre (The Upside).

Crítica de Amigos Para Sempre

A história saiu de Paris e foi para Nova York. O desiludido Phill (Bryan Cranston, de Breaking Bad, Trumbo e Tinha Que Ser Ele?), um bilionário viúvo que perdeu os movimentos do pescoço para baixo após um acidente, aceita contratar o recém saído da prisão Dell (Kevin Hart), como seu cuidador em tempo integral. O problema é que Dell não faz a menor questão do emprego e não tem o menor talento na função, para o desespero da secretária super eficiente Yvone (Nicole Kidman, vista há pouco em Aquaman), que tenta a todo custo convencer o patrão a escolher um ajudante mais qualificado. Mas parece que Phill procura justamente alguém com o perfil de Dell.

O filme tenta não repetir o erro de Inseparáveis, outro remake vindo da Argentina. A versão sul americana é apenas uma cópia sem qualquer rastro de originalidade ou o carisma dos atores originais. Amigos para Sempre é mais objetivo. Há bem menos coadjuvantes que no original, permitindo um maior enfoque nos protagonistas. No entanto, quem mais ganha nesta situação é Yvone, que agora é uma mescla de todos os outros empregados da mansão francesa. Talvez este seja um recurso para valorizar a presença de uma estrela do porte de Nicole Kidman no posto que, infelizmente, está muito aquém da sua capacidade. É até estranho ver a oscarizada atriz em um papel tão secundário e sem brilho, mas que ela ainda consegue trazer alguma luz e carisma. O filme elimina e desnecessária personagem da filha de Phill no original e reestrutura a família de Dell, sem abrir mão desse pano de fundo, tão importante para o personagem.

Crítica de Amigos Para Sempre

Por outro lado, essas mudanças aprofundaram os clichês que em Intocáveis eram apenas uma tintura. À parte o problema médico, Phill e Dell são duas caricaturas de suas classes sociais. O bilionário é fã de ópera, literatura, artes, sem qualquer tino para relações interpessoais e mergulhado num mundo tedioso de luxo e serviçais. Dell, é o clássico jovem negro de periferia de Nova York já visto em centenas de filmes e séries, cheio de problemas, bem-humorado, com boas sacadas, boca-suja, paquerador e sempre pronto a resolver tudo no braço ou no papo-furado. Yvone não fica atrás, como a secretária metódica, com dedicação cega ao patrão e sempre pronta a resolver tudo e que entra em choque com as atitudes do novo colega de trabalho. Também não falta uma personagem feminina sensual para atiçar Dell e um ricaço esnobe para ser feito de tolo.

A trama é conduzida sob a premissa que você já deduz ao ler a sinopse: um mostrará ao outro uma nova forma de ver a vida. Phill, que passa as horas esperando pela morte, aprenderá com Dell que existe algo além de sua cadeira, enquanto que o cuidador aprenderá um novo conceito de amor que mudará a forma como se relaciona com o filho e a ex-mulher. O problema é que tudo isso é feito sem surpresas, mesmo para quem nunca assistiu a versão francesa. O roteiro de Amigos para Sempre é quase tão piegas quanto o título brasileiro faz parecer.

Elenco salvador

O filme é dirigido de forma mecânica e sem ousadia por Neil Burger, diretor responsável por trabalhos de gêneros e qualidades tão díspares como a série juvenil Divergente e o suspense Sem Limites. Burger tem a seu favor um bom resultado de fotografia e trilha sonora, além de atores defendendo bem seus papeis. Kevin Hart não tem o mesmo carisma do ótimo Osmar Sy (Jurassic World), mas não tenta se espelhar no ator francês para compor seu Dell. Hart deixa no personagem a sua própria marca, aquela tão conhecida de seus fãs e que o consagrou como comediante. Bryan Cranston, por sua vez, busca um Phill menos frio que a versão de François Cluzet e mais hábil em conquistar a simpatia do público. Os dois têm uma química entre si tão boa ou até melhor que os pares europeus.

Crítica de Amigos Para Sempre

O roteiro de Amigos para Sempre se preocupa em explicar e justificar situações com mais afinco que na versão original, algo esperado para um filme norte-americano.  O personagem de Dell é o principal objeto dessa complementação, com a trajetória recebendo diversos enxertos, na maioria deles, bem-vindos. O roteiro também acrescenta soluções novas (não entenda por ousadas ou criativas) para alguns desdobramentos do original, cria novos fatos, elimina outros e troca a ordem de alguns acontecimentos, com o objetivo de tornar o filme mais dinâmico e emocionalmente adequado. Algumas mudanças podem irritar os fãs mais intransigentes de Intocáveis, mas, com certeza, agradarão a parte significativa da plateia não muito disposta a sair da zona de conforto.

Amigos para Sempre pode ser um filme morno e sem criatividade, mas não é, nem de longe, ruim em absoluto. Com uma história terna e bom elenco, pode ser uma ótima diversão familiar. O que pesa contra ele é a inevitável comparação com o original francês, que ganhou muita repercussão e gerou refilmagens pelo mundo afora.  Soa como oportunista, no entanto, cumpre o papel de adaptar a história para a realidade dos EUA e, consequentemente, criar um produto tipo exportação com embalagem mais amigável ao público brasileiro. Infelizmente, como um filme desnecessário, será logo esquecido, ao contrário de Intocáveis, que para o bem ou para mal, entrou para a história da cinematografia mundial.

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