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Aliados – O amor em tempos de cólera!

Guerra, suspense, amor e Zemeckis fazem de Aliados diversão certeira

Robert Zemeckis é daqueles diretores amados até por quem nunca ouviu falar dele. Afinal, mesmo sem ligar para os créditos, quem não para e assiste pela milésima vez as aventuras de Marty McFly pelo tempo em De Volta para o Futuro, viaja mas histórias Forrest Gump ou se aperta de nostalgia em Uma Cilada pra Roger Rabbit enquanto dá aquela zapeada pelos canais? O nome é uma espécie de grife da Sessão da Tarde e um dos atrativos (mas nem de longe o único) de Aliados (Allied), obra com um pé no passado e outro bem firme no presente.

Aliados filme com Brad Pitt e Marion Cotillard

Aliados

Aliados é uma trama de espionagem na Segunda Guerra Mundial e também uma história de amor em tempos de insensatez, com os temperos da narrativa fluida e saborosa que Zemeckis sabe aplicar tão bem. O tenente coronel franco canadense Max Vatan (Brad Pitt, de Corações de Ferro), durante uma missão no Marrocos no começo da década de 1940, conhece a bela e misteriosa Marianne Beauséjour (a sempre ótima Marion Cotillard, da recente adaptação de Macbeth e o desastroso Assassin’s Creed), que o ajuda no plano de matar uma autoridade nazista. A situação extrema estreita a relação entre os dois e acabam se casando e construindo uma família juntos. Mas tudo vem abaixo quando uma terrível suspeita de coloca sobre o casal.

Logo em seu primeiro ato, Aliados apresenta uma série de acontecimentos que servem tanto para prender o espectador em um capítulo de trama redonda e bem construída com começo, meio e fim – uma espécie de filme dentro do filme –  quanto para discorrer sobre as facetas psicológicas dos personagens, algo que vai se revelar importante para a absorção da trama conforme planejado pelo diretor.

Aliados filme com Brad Pitt e Marion Cotillard

Logo nessa primeira etapa, somos apresentados à cenas memoráveis, como a do momento em que o carro do casal é envolto em uma tempestade de areia enquanto se entregam ao amor pela primeira vez. Uma sacada de simbolismo genial ao ser um resumo imagético das turbulências que essa relação enfrentaria dali para frente. O clímax, na festa do embaixador, ocorre após toda uma preparação do público para o clima de tensão e suspense que permeia o ar. O trabalho melhora ainda mais com a perfeita atuação de Marion Cotillard, que mescla em sua Marianne um destemor audaz e uma tocante sensibilidade sobre a crueza da situação.

No segundo momento, quando Aliados recomeça no romance e na vida feliz do casal, vemos a rápida transformação da felicidade em um drama de suspeita e medo. O suspense cresce gradativamente, empurrando para cima a angústia da plateia, que nessa altura torce para que tudo não passe de um triste mal-entendido. Em seu segmento final, o filme ganha ritmo e ação, se distancia do suspense e se transforma em um drama de autodescoberta em que os personagens refletem sobre o que realmente são e sentem.

Brad e Marion

Aliados é um filme que exige muito do seu elenco e nesse aspecto temos um pequeno desequilíbrio. Marion Cotillard é um monstro em cena, roubando para si todas as luzes em cada um dos momentos em que aparece. Marianne Beauséjour exalta mistério, sedução, amor, amizade, força e fragilidade nas medidas corretas da coerência, tornando-se uma personagem angustiantemente cativante. Cada gesto, cada olhar, cada movimento de corpo contribui para que Marianne se torne tão humana e real a ponto de sentirmos próximos a ela.

Aliados filme com Brad Pitt e Marion Cotillard

O mesmo não se pode dizer de Brad Pitt e Max Vattan. Apesar de nem de longe fazer feio em cena, Pitt já demonstra envelhecimento e certo cansaço mortal para o ator tão associado aos personagens envoltos de auras de sedução masculina. Sua atuação, frente a de Cottilard, soa técnica e protocolar, fria às vezes, tornando o filme um pouco menos profundo do que deveria ser, mas não chega a estragar o resultado final. Max cumpre o que promete, mas ao lado do grande talento francês, fica um sentimento de que um pouco mais de entrega e humanidade não faria mal ao protagonista.

O casal, no entanto, tem química em cena. Juntos, convencem tanto nos momentos de amor, quanto nos de combate e suspeita. O entrosamento dos dois é fundamental para a história tocante e sensível que se desenrola, sem pieguices ou clichês do gênero. São, em suma, uma dupla interessante e muito bem conduzida pelo diretor.

Aliados filme com Brad Pitt e Marion Cotillard

Roteiro nem tão aliado

É um filme plasticamente belo. Fotografia, direção de arte e figurino são pontos de destaque para tornar cada enquadramento um segundo de beleza ímpar. Os cuidados dos detalhes da reconstituição de época são evidentes e nos prendem em um trabalho difícil de desviar o olhar. As três categorias poderiam concorrer ao Oscar 2017, mas apenas figurino garantiu a indicação.

Infelizmente, o maior pecado de Aliados está naquele que também oferece grandes atrativos. O roteiro, apesar de garantir uma trama leve e dinâmica na maior parte do tempo, mesmo sob a densidade do argumento, apresenta buracos que precisam ser ignorados pelo espectador para que a trama seja mais bem digerida. Essas falhas se concentram ao redor da personagem de Marianne, visto a necessidade de se manter a névoa de mistério e justificar os fatos com a jovem. A narrativa também perde fôlego entre o primeiro e o segundo ato, exigindo certa paciência do espectador, felizmente por pouco tempo.

Aliados não será um filme inesquecível, mas é uma obra agradável e divertida. Permite reflexão e diversão, marca registrada de Robert Zemeckis, um dos poucos diretores da atualidade que coleciona fãs que podem até não saber seu nome, mas que raramente são decepcionados. Só posso deixar um conselho final: filmes com Zemeckis e Cottilard nos créditos sempre merecerão uma conferida mais atenciosa.

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