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Além do Homem – O país das maravilhas não é aqui!

Além do Homem e sua intenção ambiciosa

O diretor Willy Biondani tinha uma proposta ousada para seu Além do Homem: ser um filme de exageros e absurdos. Referências exageradas, atuações exageradas, experimentalismo exagerado.

O filme estrelado por Sergio Guizé faz um resgate do Brasil retratado na década de 1970 em filmes regados a folclore e misticismo. Coalhado de referências – tanto de obras do cinema nacional, como Macunaíma, Como era Gostoso Meu Francês e Bye, bye Brasil, quanto de obras literárias como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. e Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare -, o filme retoma um país fantasioso, selvagem e farsesco, que parece não ter evoluído com o tempo.

Crítica de Além do Homem

A narrativa, escrita pelo próprio diretor em conjunto com Eliseo Altunaga e Daniel Tavares, conta a história de Alberto Luppo, um escritor brasileiro radicado em Paris que é levado a retornar a contragosto para o Brasil para investigar e escrever sobre o antropólogo francês Ms. Lefavre (Pierre Richard). Supostamente, o mesmo teria sido canibalizado por mulheres brasileiras em algum lugar de Minas Gerais. Vindo da publicidade, o próprio diretor também foi radicado na cidade luz por um tempo.

Em Além do Homem, o personagem de Sergio Guizé, em seu primeiro papel principal no cinema, é levado, por uma série de acontecimentos – às vezes fantásticos – a tentar se readaptar ao país que ele odeia (ou não). É uma busca pelas raízes que já havia sido retratada em filmes como O Cidadão Ilustre, onde explora-se a inadequação de um personagem que não pertence ao lugar de onde veio, mas nem onde vive.

A falha fica no fato do protagonista estar perdido não só no país, mas também numa história que não traz um arco bem definido e muito menos apresenta uma unidade narrativa. O personagem é quase sempre bipolar, e não conclui qualquer função narrativa, já que o filme parece um remendo de referências sem muita liga. Ele não age, não se decide e, além de perdido, parece totalmente desnecessário. Sua jornada narrativa é confusa e sem objetividade.

Crítica de Além do Homem

Elenco desperdiçado

Fabrício Boliveira, de Tropa de Elite 2 e Faroeste Caboclo, é Tião, o guia de Alberto na jornada pelo estranho mundo em que o protagonista se mete. Um matuto que age de maneira andrógina, misturando Macunaíma com o Gato de Alice. Seus trejeitos são ambíguos, por vezes, exagerados e tentam emular o personagem do saudoso Grande Otelo.

Sergio Guizé alterna humores entre cenas irregulares. O elenco brasileiro, que tem alguns nomes conhecidos como Otávio Augusto (com alguns diálogos totalmente sem sentido) e Débora Nascimento (que é pouquíssimo aproveitada como a enigmática Bethânia), parece estar representando uma peça teatral experimental. Ao mesmo tempo em que o elenco francês, com Pierre Richard, de Um Perfil para Dois (2017) e Stephan Wojtowicz, parece ter sido colocado apenas para internacionalizar o filme e são apenas burocráticos.

Os exageros das performances saltam ainda mais aos olhos por causa dos diálogos soltos e da direção circense.
As intenções de Willy são claras, mas a execução não entrega algo tão elaborado. Mesmo com a fotografia do veterano Walter Carvalho o filme é irregular e apresenta momentos desconcertantes. A intenção de resgatar um país mais caboclo, as vezes parece algo até preconceituoso e raso.

Será que era realmente necessário mexer nesse passado que ficou tão datado, ainda mais de uma maneira tão ambiciosa? Infelizmente o filme não conseguiu dar um sentido ao teatro do absurdo que o autor propôs. Mais uma vez o cinema brasileiro tenta dar um passo maior que a perna.

(Confira nosso vídeo com uma seleção de filmes nacionais que valem a pena)

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