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A Valsa de Waldheim – Um cidadão acima de qualquer suspeita! (MOSTRA SP)

Produção austríaca, A Valsa de Waldheim aborda a revelação do passado nazista do ex-secretário-geral da ONU

(A Valsa de Waldheim ainda não tem previsão de estreia em circuito comercial, mas está na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)

Até que ponto um segredo pode ser guardado? Há quem diga que há muitos deles enterrados juntos com seus donos. Mas e quando se é uma pessoa pública, com todos os holofotes voltados para seus mais discretos gestos e escolhas?As dificuldades para manter embaixo do tapete a sujeira do passado torna-se ainda maior. O diplomata austríaco Kurt Waldheim assumiu o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972 com a fama de ser um cidadão acima de qualquer suspeita. Mas haviam mais que migalhas escondidas nos cantos de sua vida todas elas estão em A Valsa de Waldheim.

Crítica A Valsa de Waldheim

A documentarista Ruth Beckermann era uma estudante de jornalismo quando Waldheim viajava dezenas de países e ouvia com atenção diversos líderes políticos e religiosos. Seu rosto era constante nos noticiários e o orgulho de muitos austríacos. O documentário realizado por Ruth tem como base apenas material de arquivo, e é narrado pela própria diretora, que mescla em suas falas as esperanças de juventude com as assustadoras revelações que acompanhava pelos jornais e programas de televisão.

Um suspense de dois parágrafos para alguns leitores tem motivo: A Valsa de Waldheim faz questão da surpresa para os espectadores mais jovens, que desconhecem o momento de maior visibilidade, e também de conflito, protagonizado pelo protagonista. Em 1982, já em seu segundo mandato na ONU, Waldheim viu seu nome associado a juventude nazista nas páginas do The New York Times. Fotos e documentos mostravam seu envolvimento e apreço ao Terceiro Reich e uma passagem pela Segunda Guerra que só foi interrompida por um ferimento grave.

(Confira críticas sobre outros filmes da Mostra: Túmulos Sem Nome e Deslembro)

Um homem com um cargo ligado à paz tem a veracidade de seu trabalho colocada em jogo. O que austríacos e americanos esperavam era um pedido de desculpas. Afinal, Waldheim poderia estar arrependido de ter colaborado com o nazismo. Eis a revelação: Kurt Waldheim negou veementemente todas as acusações. Mais de uma vez.

Crítica A Valsa de Waldheim

A negação e o poder

As críticas vieram com a mesmas força da negação dos fatos. Ruth Beckermann seleciona as falas mais fortes de Waldheim e também a opinião das pessoas pelas ruas de Viena. Alguém com poder que não admite uma relação que está mais do que provada. Era o que faltava para que o ódio passasse a fazer parte do discurso dos defensores de Waldheim, alegando que judeus estavam se valendo do coitadismo para acusar um homem com uma carreira irretocável.

Não, caro leitor, você não está tendo um déjà-vu. O público brasileiro com certeza terá o seu minuto de identificação ao perceber que está diante da história de um homem que deu apoio à atrocidades e acabou conquistando a simpatia de seus conterrâneos. Simpatia essa que parece ter imperado, já que, em 1986, Waldheim se candidatou à presidência e fez sua campanha baseada em sua passagem pela ONU e se valendo de sorrisos que, para quem está assistindo o documentário, soam assustadores. Há falsidade e ódio por trás daqueles dentes e A Valsa de Waldheim não esconde isso.

Ouvir os pedidos de jornalistas, judeus, governadores e até mesmo sobreviventes da Segunda Guerra, para que o ex-secretário-geral saia de seu mundo mágico, onde sua passagem pelo nazismo foi apagada com a facilidade com que se passa a borracha em um papel, toca o coração, mas também provoca suspiros cansados. Kurt Waldheim virou presidente ao mesmo tempo em que ganhou o título de persona non grata em vários países. Continuou levando a vida como se parte de seu passado jamais tivessem existido.

Entre as muitas imagens impactantes mostradas em A Valsa de Waldheim, talvez a que mais faz pensar é a que mostra cartazes carregados em manifestações contra o protagonista. Elas perguntam se o povo gostaria de ser comandado por um homem de memória curta. Quantos são os políticos que simplesmente ignoram erros pregressos e insistem em ressaltar valores como honestidade e ética? Waldheim era defendido por muitos de seus eleitores por ser católico. Mas sabemos que ir à missa não impede ninguém de ir para a trincheira em nome de Deus.

Bom seria se A Valsa de Waldheim fosse apenas um registro histórico sobre um homem enganando um povo. Em tempos como os nossos, ele é mais um alerta sobre como os erros da humanidade podem ser cíclicos e ter como heróis homens acima de qualquer suspeita.

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