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A Noite Devorou o Mundo – Zumbis franceses!

A Noite Devorou o Mundo e os ecos de Romero e Matheson

A moda de zumbis não acaba. Pode enfraquecer, mas continua por aí por motivos que valem um estudo aprofundado. O tema vem sendo explorado há muitos anos, mas, vez por outra, algum exemplar do segmento surpreende. É o caso do excelente sul-coreano Invasão Zumbi e do interessante Maggie. A França agora investiu neste sub-gênero do terror com A Noite Devorou o Mundo (La Nuit a Dévoré Le Monde), com uma inspiração que vai além de George A. Romero.

Crítica de A Noite Devorou o Mundo

O filme dirigido por Dominic Rocher, em seu primeiro longa, coloca o protagonista Sam (o norueguês Anders Danielsen Lie, de Rodin e Personal Shopper) isolado em meio a uma epidemia zumbi. Em uma sequência de abertura que, sabiamente, entrega apenas o essencial sem rodeios, vemos Sam chegando ao apartamento de Fanny, onde acontece uma festa. Claramente ressentido pelo rompimento com a moça, ele está lá apenas pelas coisas que deixou quando se mudou. Caindo no sono sozinho em um dos cômodos, na manhã seguinte ele descobre que existe uma praga já em estágio avançado.

Crítica de A Noite Devorou o Mundo

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Com zumbis velozes como os de Extermínio, A Noite Devorou o Mundo segue uma tendência comum. Não há motivo para explicar as causas do incidente, já que esse pano de fundo serve de metáfora para discutir questões humanas. Normalmente, é a propensão do homem para a barbárie quando a sociedade entra em colapso, algo popularizado pelo anteriormente citado Romero, já no final da década de 1960. No filme de Rocher, co roteirizado pelo cineasta a partir do livro de Pit Agarmen, o isolamento é o ponto central desta construção narrativa.

Neste sentido, o diretor mostra uma qualidade essencial para a função. Ele prova que sabia exatamente o que queria, evidenciando o enfoque na solidão desde a apresentação do protagonista. A própria época em que se passa a trama, pré-internet, ajuda nesta construção. O clima de incerteza sobre outros não-infectados, mais o cerco de zumbis em volta do prédio, traz à tona outra influência. O espectador mais versado em literatura fantástica vai certamente lembrar-se de Eu Sou A Lenda, de Richard Matheson.

Realização técnica competente

Fugindo dos clichês comuns aos filmes de terror (os mais recentes, principalmente), o visual também evita alguns vícios. A fotografia de Jordane Chouzenoux é sóbria, sem forçar nenhum recurso estilístico. A iluminação fraca dos ambientes adaptados por Sam e a paleta de cores esmaecidas se encadeiam perfeitamente com a proposta do filme. Também dialoga muito bem com a parte sonora, importantíssima em uma narrativa com pouquíssimos diálogos.

Ainda no quesito de sonorização, A Noite Devorou o Mundo acerta no contraste entre sua abertura barulhenta na festa e os eventos subsequentes. Mais um ponto a favor de Dominic Rocher, que evita alongar demais a situação e encerra seu filme em uma hora e meia. Duração aceitável, sem forçar a paciência do espectador, mas não evita que o tédio apareça em algum momento.

O filme é eficiente na construção de seu discurso, sem truncar ou criar subjetividades inúteis. Porém, a única ressalva fica por conta de uma mensagem repetitiva, o que cria a expectativa por uma reviravolta. Ainda que possa ser uma opção consciente, isso acaba comprometendo o ritmo por volta de sua metade, trazendo um questionamento pertinente sobre a montagem. Alguns minutos a menos poderiam ter evitado essa sensação e tornado o filme mais enxuto? É provável que sim.

Crítica de A Noite Devorou o Mundo

O lugar comum da história de apocalipse zumbi também não ajuda para que o filme se destaque, diminuindo muito seu impacto. Isso também acaba provocando a comparação com outros exemplares bem superiores, citados neste texto, inclusive. A semelhança com o livro de Matheson também pode incomodar um ou outro espectador, mas isso é um tanto relativo.

Pesando tudo, inclusive a inexperiência de seu diretor, A Noite Devorou o Mundo é uma experiência bem sucedida. Independente do grau de interesse em zumbis no cinema, a curiosidade que qualquer cinéfilo possa ter em conferir este exemplar francês é bem recompensada. Não revoluciona o conceito, evidentemente, mas é seguro sobre a ideia que quer passar às plateias.

Já merece nossa atenção só por isso.

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