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A Morte De Luís XIV – A História diante de nossos olhos!

Solenidade e decadência em A Morte De Luís XIV

Em 1599, na tragédia Júlio César, William Shakespeare fez Calpúrnia proferir as seguintes palavras: “Quando morrem mendigos não se veem surgir cometas, mas o céu se incumbe de iluminar a morte dos monarcas”. Mais do que um aparente preconceito social, essa fala ilustra a grandeza dos reis, cuja magnitude resplandece nos céus até mesmo na hora da sua morte. Se isso realmente acontece, não tenho como dizer, no entanto, mal sabiam Shakespeare e Calpúrnia que, em 1715, Luís XIV morreria decrépito, com uma perna gangrenada e sem cometas no céu iluminando o seu falecimento, contrariando completamente a fala idealizada pelo bardo inglês.

A Morte de Luís XIV, de Albert Serra

A Morte de Luís XIV

É bem provável imaginarmos que o passamento do monarca francês tenha sido um evento solene, condizente com a posição que exerceu a vida toda dentro da sociedade. Afinal, além de viver em um castelo luxuoso, ele tinha à disposição um grupo numeroso de pessoas cuja única função era servi-lo da melhor maneira possível. Porém, infelizmente, a morte não perdoa ninguém e nem mesmo todo o luxo do mundo é capaz de evitá-la. Sendo assim, como vem para todos nós, ela veio para Luís XIV. Além disso, transformou os últimos dias do idoso rei em um misto de dor, decrepitude e humilhação. E é justamente essa oposição entre a riqueza da vida monárquica e a decadência irresoluta da morte que compõe o escopo narrativo de A Morte De Luís XIV (La Mort De Louis XIV), o novo longa metragem do cineasta espanhol Albert Serra.

Auxiliados pela própria História, que, por si só, tratou de revelar a presença dessa dicotomia na morte de quase todos os nobres que participaram ativamente de um reinado no desenrolar dos milênios, Thierry Lounas e o próprio Serra, os roteiristas, ressaltam a todo momento essa oposição. Seja em momentos tragicômicos, como a imagem faustosa dos familiares aplaudindo a primeira refeição em dias do monarca, seja em instantes assumidamente humorísticos, como a saudação que o rei faz da própria poltrona – da qual não consegue levantar – aos convidados que compareceram à festa, ou a cena na qual Luís XIV, depois de acordar com falta de ar e pedir água, repreende o servo que a trouxe por não tê-la colocado numa taça de cristal, os roteiristas sempre encontram maneiras criativas e distintas de pontuar esses dois lados opostos ao longo da narrativa.

A Morte de Luís XIV, de Albert Serra

Quem também ressaltará com veemência essas diferenças são Nina Avramovic, a figurinista, e Sebastián Vogler, o diretor de arte. Além de reconstruírem com exuberante competência a época na qual o filme se passa, os dois preenchem os ambientes com elementos que corroboram essa oposição. Para simbolizar a dificuldade de Luís XIV em abandonar a solenidade da vida monárquica e aceitar o momento de vulnerabilidade que é obrigado a enfrentar, Avramovic faz o protagonista usar uma peruca enorme e roupas suntuosas mesmo nos momentos de dor.

Vogler, por outro lado, desenha a cama que o acolhe durante a doença (Luís XIV fica deitado na maior parte do filme) e os acessórios que a acompanham com o mesmo luxo e elegância que poderiam ser vistos num trono. Ademais, o fato de os dois adotarem o preto e o vermelho como as cores preponderantes serve para ilustrar a morte inevitável e o afã com o qual as pessoas ao redor tentam preveni-la, respectivamente.

Riquíssimas referências às Artes

Aliás, é essa paleta de cores adotada pela figurinista e o diretor de arte, aliada à iluminação à vela e escura da fotografia de Jonathan Ricquebourg, que dão à Albert Serra os elementos necessários para a construção da lógica visual do filme. Ao longo de toda obra, há uma alternância constante entre planos americanos e primeiros planos. Isso não só é vital para refletir a claustrofobia sentida Luís XIV nos últimos dias de vida, como oferece ao diretor a possibilidade de compor enquadramentos muito similares às pinturas de Caravaggio e aos retratos pessoais e de grupo de Rembrandt. Nesse sentido, o filme é tão pitoresco que, ao término da projeção, faz o espectador sair da sala com a ótima impressão de ter saído de um museu.

No entanto, em nenhum momento essas referências às pinturas desses dois mestres soam forçadas ou arbitrárias. Pelo contrário, pois, além de terem vivido na mesma época (Rembrandt foi contemporâneo de Luís XIV), Caravaggio é conhecido em parte por retratar prostitutas e mendigos, e Rembrandt, por pinturas sacras, o que reforça simbolicamente a oposição entre decadência e solenidade tão cara ao filme.

A Morte de Luís XIV, de Albert Serra

Também encontrando tempo para reverenciar outras artes, Albert Serra realiza duas lindas homenagens à Música e ao Cinema. Em certo momento, em um daqueles instantes frugais em que o sujeito enfim entende a inevitabilidade das provações que lhe abatem, há um plano longo mostrando o rosto de Luís XIV, similar a um retrato e que passa a ser acompanhado pelo som comovente de uma Missa de Réquiem. Reverente, emotiva e justificada dentro da narrativa, a homenagem engrandece o filme e proporciona à história uma daquelas cenas que apenas um diretor sensível é capaz de realizar.

Já o Cinema, por sua vez, é reverenciado na escalação de Jean-Pierre Léaud para interpretar o protagonista. Rosto da Nouvelle Vague francesa, nada mais inteligente do que escalá-lo para representar a máscara mortuária de um dos maiores monarcas da história da França. Vê-lo com a respiração pesada, acima do peso e idoso, porém, ainda brilhante como ator, é uma experiência agridoce para qualquer cinéfilo.

Também sobre a evolução da Medicina

No entanto, as ambições artísticas e históricas de Albert Serra não param por aqui. A Morte De Luís XIV também é um filme sobre a evolução da Medicina. Isso fica claro através da importância que é dada ao personagem Fagon, médico pessoal do monarca (Patrick d’Assumçao). Tão presente no filme quanto o protagonista, ele e as suas recomendações médicas são acompanhadas de perto pelo diretor. No fim, ficamos tristes tanto com a morte do protagonista quanto pela sensação de fracasso que o médico sente por não conseguir salvá-lo. Outro momento em que isso se torna evidente é no embate que tem de um lado Fagon e os médicos da Sorbonne e de outro um curandeiro charlatão.

A Morte de Luís XIV, de Albert Serra

Devidamente diferenciados pela ótima caracterização (os médicos adotam tons sóbrios e o curandeiro usa uma peruca e maquiagem pesada), esses personagens realizam diálogos deliciosamente cômicos e que mostram com perfeição a evolução da Medicina, de uma arte mágica e supersticiosa para uma ciência racional e fundamentada. Além disso, o filme faz questão de terminar com a cena de uma autópsia, o que, por sua vez, também funciona como referência ao quadro A Aula de Anatomia do Dr. Tulp, ilustre pintura de Rembrandt.

Comovente, perfeitamente realizado, pitoresco e consciente artística e historicamente, A Morte De Luís XIV usa um breve evento como o falecimento do monarca francês para refletir sobre a divisão entre solenidade e decadência, prestar homenagem aos mais diferentes tipo de arte e retratar um período importante para o desenvolvimento da Medicina.

Assistir ao filme de Albert Serra é o equivalente a ver uma mostra de pinturas, abrir um livro de história ou folhear as páginas de uma obra dedicada à evolução das artes médicas. Profundo e intelectualmente recompensador, A Morte De Luís XIV está destinado a entrar para a História que tanto faz questão de ilustrar e reverenciar.

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