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A Lei da Noite – Muita coisa para um só cara…

A Lei da Noite traz Affleck de volta ao mundo de Lehane

Quem conhece o trabalho de Ben Affleck como diretor deve ter se animado com o anúncio de A Lei da Noite (Live By Night), afinal, é um roteiro adaptado de um livro de Dennis Lehane.  Mesmo caso da estreia de Affleck como diretor com Medo da Verdade (2007), seu melhor filme.  Atração Perigosa (2010) e Argo (2012) são muito bons, sem dúvida, mas o primeiro é superior, o que talvez explique-se pelo fato dele não atuar no mesmo.

A Lei da Noite - Ben Affleck

A Lei da Noite

Nem entremos nos méritos de suas capacidades interpretativas, mas – evidentemente – um diretor que não protagoniza o próprio filme pode focar melhor sua energia em DIRIGIR. É justamente o acúmulo de tarefas que parece ter prejudicado este último trabalho, já que Ben Affleck ocupou as funções de diretor, protagonista, roteirista (sozinho) e produtor, o que indica que este era um projeto bem caro a ele. Somando isso à pressão que ele enfrenta desde Batman Vs. Superman, é até compreensível entregar um filme tão irregular e pouco coeso, mas nem por isso deixaremos de observar os deslizes.

Durante a Lei Seca, em Boston, Joe Coughlin (Affleck) é um marginal que decide roubar do irlandês Albert White (Robert Glenister), chefe do crime da região e em guerra com o italiano Maso Pescatore (Remo Girone).  Além da ousadia do golpe, Joe ainda arrisca mais sua vida envolvendo-se  romanticamente com Emma (Sienna Miller, de Sniper Americano), amante de White. Uma reviravolta vai separar o casal, colocando nosso protagonista em outro canto do País, a Flórida, como empregado de Pescatore.  Uma vez instalado, sua vida e suas motivações vão mudando aos poucos.

A Lei da Noite - Ben Affleck

Roteiro episódico que vai no tranco

A primeira coisa que ajudaria bastante em A Lei da Noite seria a contratação de outro roteirista para polir o texto de Ben Affleck, ou talvez fosse melhor que ele tivesse passado todo esse encargo da adaptação a outros. Simplesmente, o que temos aqui é um filme que na sua escrita já começou problemático. Tudo soa absolutamente episódico, sem qualquer fluidez necessária para o ritmo.

Embora o primeiro ato em Boston se pareça com dezenas de narrativas de máfia que você já viu, ainda promete algo interessante na relação ambígua de Joe com seu pai (Brendan Gleeson). O problema é que esse detalhe é desperdiçado em diálogos expositivos, além do personagem de Gleeson ser descartado abruptamente quando perde a serventia. No momento em que a narrativa se move para a Flórida, somos apresentados a outros personagens de uma forma não muito sutil. Quando Graciela (Zoe Saldana) entra em cena, até um cego já percebe qual será sua função nesta trama, sem falar que a existência de seu irmão é completamente desnecessária.

Além da confusão das motivações do protagonista em determinado momento, tudo pela qual ele passa soa como um problema que é vencido e esquecido logo depois. Conferir densidade dramática a um personagem com um roteiro que peca no ritmo desta forma é um desafio e tanto – e ele tenta bastante. Se já não poderíamos contar com o talento de Affleck como ator, aqui ele falhou também como roteirista e, consequentemente, como diretor, pois conduz o filme de uma forma a evidenciar esses problemas. Até mesmo o que deveria ser uma das grandes reviravoltas – já em seu terço final – é algo que o público prevê bem antes, pois a construção em torno do ocorrido não foi convincente.

A Lei da Noite - Ben Affleck

Além disso, nota-se o grau de envolvimento emocional do diretor/ator observando alguns planos gerais e sua interação com a trilha sonora. Nestes momentos, parece que a aspiração era realmente entregar um grande filme de época, procurando um tipo de grandiloquência épica que acaba nunca alcançada. Na verdade, esse tipo de intenção costuma prejudicar uma série de projetos promissores.

Contando com um bom elenco, destacando Chris Cooper e Elle Fanning (talvez os melhores personagens, ainda que prejudicados pelo texto) um grande problema em A Lei da Noite é ver Ben Affleck sendo… Ben Affleck. Enquanto o resto do elenco se esforça para sumir dentro de seus respectivos personagens, essa tarefa é prejudicada com ele em cena. Em Argo ele tinha um papel que justificava a falta de expressão, além da barba, e para o já citado Batman não é preciso muito, mas aqui era mais do que necessária uma escalação de outro ator. Alguém pode argumentar que em Garota Exemplar ele estava bem, mas foi David Fincher quem soube usar suas limitações a favor do filme.

A Lei da Noite - Ben Affleck

Mas tem seus méritos técnicos

Se alguma coisa funciona por aqui – e até faz valer a sessão – são os aspectos visuais do filme. O estilo clássico da filmagem, característico do diretor, convém a um filme de época, muito bem valorizado pelo desenho de produção de Jess Gonchor ( de Ave, César, dos irmãos Coen) e os figurinos de Jacqueline West (de O Regresso). Também se destaca a fotografia de Robert Richardson (Os Oito Odiados), que capricha nos contrastes entre a gelada Boston e a ensolarada Flórida. Trabalhos muito competentes, que talvez pudessem estar mais integrados à narrativa, outro ponto a se cobrar do responsável direto.

A Lei da Noite, infelizmente, se mostrou uma egotrip que acabou por revelar alguns defeitos na direção e no bom senso de Ben Affleck.  É um bom momento para repensar essa carreira e refletir o quanto vale a pena acumular tantas funções e arriscar toda a empreitada. Supondo que sua presença como ator foi uma imposição da Warner, já que é um rosto comercial, ele até ganha alguns pontos no saldo final. Ele, a pessoa…não o filme.

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