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A Garota do Livro – Novos valores surgindo!

A Garota do Livro

É sempre muito bom ver sangue novo em Hollywood. A carreira de diretor, porém, é uma coisa curiosa. Enquanto alguns explodem já em seus primeiros trabalhos, outros precisam de algum tempo para amadurecer – isso sem mencionar a necessidade de saber lidar com a pressão exercida por estúdios e produtores. Talvez seja esse o caso de Marya Cohn, que em seu primeiro longa demonstra certa inconsistência, mas grande potencial. Equivocada principalmente na parte da criação e consistência da trama, já que ela também assina o roteiro sozinha, a diretora utiliza-se de ferramentas seguras na condução da narrativa. Claro, o que é seguro funciona, ainda que sem brilho.

Em A Garota do Livro (The Girl In The Book), acompanhamos presente e passado de Alice (Emily VanCamp e Ana Mulvoy-Ten), uma assistente em uma editora de Nova York, mas com potencial para tornar-se escritora. Quando Milan Daneker (Michael Nyqvist), um famoso escritor e ex-cliente de seu pai, reaparece em sua vida, alguns fantasmas voltam a assombrá-la, fazendo com que a jovem – ao lado de sua melhor amiga Sadie (Ali Ahn) – tenha de enfrentá-los para alcançar seus objetivos.

A Garota do Livro

Como já foi esboçado, Cohn opta pelo seguro em seu trabalho para não perder o controle da narrativa, mas é muito curioso que, em alguns momentos, a novata se arrisque utilizando elementos de cena para contar a história. Felizmente, a coisa funciona de maneira fluida. Um exemplo é um plano em que uma personagem acaba ficando fora de uma importante reunião, isso tudo mostrado através de uma janela, passando assim a sensação de isolamento e frustração ao espectador. Também é perceptível uma certa liberdade concedida aos atores, já que os mesmos demonstram pequenos gestos de caráter muito espontâneos, como um olhar, uma fala, ou alguma movimentação em cena.

Enquanto roteirista, infelizmente, Cohn não tem a mesma felicidade. A criação de personagens é até interessante, principalmente Alice, uma mulher frustrada e com um passado misterioso, mas ao chegar em seu segundo ato, o filme perde uma grande força, principalmente quando estamos acompanhando o presente da protagonista. Talvez o grande problema aqui esteja em como acontece a redenção da protagonista. Ao longo da projeção, ela é massacrada por algumas situações das quais não tem culpa, seja isso por conta de atitudes dos mais próximos, ou por uma série de dogmas impostos exacerbadamente pela sociedade em que ela está inserida. Sendo assim, é natural que o espectador fique na expectativa de que o antagonista tenha o final que merece, principalmente após a -absolutamente previsível – revelação, algo que pode ser muito frustrante.

A Garota do Livro

Um problema de elenco também é perceptível. Já que as atrizes que encarnam Alice em dois momentos da vida não se parecem, o espectador sente sua imersão – se não prejudicada – incompleta, no mínimo. Mas no que diz respeito às suas atuações, ambas se saem bem, com ligeiro destaque para a jovem Mulvoy-Ten, que em breves momentos lembra Sue Lyon e sua Lolita. Já VanCamp é um pouco mais irregular, pois consegue passar a criancice da personagem, mas sem a sutileza necessária. Nyqvist, veterano que é, faz seu trabalho de maneira muito competente, sendo para Alice uma espécie de mentor que também a seduz. Ali Ahn também merece destaque por seu carisma e pelo senso de lealdade transmitido à protagonista.

Dois trabalhos que devem ser elogiadíssimos aqui – por vezes esquecidos – são os de montagem e direção de arte. O primeiro confere um ritmo muito bom para a história, enquanto transitamos entre passado e presente, utilizando muitos elementos de cena para que isso aconteça, como, por exemplo, um personagem saindo por uma porta, cortando para outro personagem entrando por outra porta, mas em outra linha temporal. Já a direção de arte tem papel fundamental, ajudando a situar geograficamente a narrativa em ambas as temporalidades, seja através de vestimentas e objetos, ou até mesmo através do apartamento bagunçado, assim como a vida pessoal da protagonista.

A Garota do Livro

Se montagem e arte merecem apenas elogios, infelizmente, a fotografia e som não merecem as mesmas menções. Ambos não fazem questão alguma de colaborar com a história. Tratando-se de dois momentos temporais, a fotografia, através da iluminação ou o uso mais criativo de lentes, poderia tirar proveito disso, criando um paralelo interessante entre as narrativas. O uso da música consegue ser empregado de maneira eficiente em apenas uma cena e isso acontece só no terceiro ato, ou seja, tarde demais para alguma relevância.

A Garota do Livro tem boas ideias, algumas bem executadas, outras nem tanto. O mais importante aqui, no entanto, é termos a certeza que em meio a uma crise criativa absolutamente avassaladora em Hollywood, novos valores surgem. Alguns vingam e outros não, mas o que vemos aqui é uma diretora estreante que parece saber o que quer, apenas faltando-lhe experiência. Mas isso só vem com o tempo, e – claro – fazendo mais filmes.

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