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O Dono da Noite – Doce ilusão masculina!

A crise da meia-idade em O Dono da Noite

“Eu sou o homem solitário de Deus”. A frase é de Travis Bickle, o protagonista do clássico de Martin Scorsese, Taxi Driver, cujo roteiro foi escrito por Paul Schrader (do recente Cães Selvagens), um dos ícones da Nova Hollywood. E parece que tal frase, inserida num dos mais melancólicos filmes do cinema, ficou fixada na alma de seu criador. A chamada Trilogia do Homem Solitário, onde Schrader ficou com o cargo de roteirista e diretor, inicia com Gigolô Americano, em 1980, e encerra com O Acompanhante, em 2007. Mas dos homens às voltas com a solidão saídos da mente do parceiro de Scorsese, o que mais mergulhou fundo na dor de não ter esperança, encontra-se no meio do caminho. O Dono da Noite (Light Sleeper, 1992) não pode ser considerado um remake de Gigolô Americano, mas parte da mesma premissa.

O Dono da Noite (Light Sleeper, 1992)

Enquanto o Julian de Richard Gere proporciona sexo madrugada adentro para mulheres ricas e solitárias, o John LeTour de Willem Dafoe garante a dose de cocaína de milionários de Nova York. Porém, ao contrário de outros personagens traficantes e elegantes que já passaram pela telona, LeTour não está nem eufórico com seu ofício, nem satisfeito com sua renda. Não é mais um adolescente e a tal crise que assola algumas pessoas na meia-idade está atingindo seu ápice. Não há mais o frio na barriga durante a entrega das drogas, todas as táticas tornaram-se rotina. Não há mais o fôlego para correr dos tiras quando algo sai do combinado. As festas charmosas movidas a pó e álcool não são mais frequentes. É preciso encontrar um novo caminho. Nisso, vive-se uma segunda adolescência: a angústia de ter toda uma vida pela frente dá lugar ao aperto no peito por saber que já não se tem uma estrada tão longa a nossa espera.

Apesar de repensar o próprio cotidiano, algo que a vida adulta nos cobra, o protagonista de O Dono da Noite ainda guarda manias de menino. Enquanto sua chefe Ann (uma Susan Sarandon maravilhosa e com sotaque certeiro) se encaminha para mudar do ramo das drogas para os cosméticos, ele parece esperar que algo caia do céu e mude sua vida. Tanto que dá ares de milagre ao reencontro com sua ex-namorada, que está num caos pessoal tão intenso quanto o dele. Mas ele quer reavivar o romance, numa prova do distanciamento da realidade que sua carreira entre os ricos consumidores lhe trouxe.

Seu olhar abismado diante das montanhas de sacos de lixo nas calçadas da madrugada nova-iorquina é compreensível: sua vida sempre se resumiu a roupas de grife e noitadas sem limite de gastos, cristais e diamantes. Não sobrava tempo para ver a desgraça do mundo. A câmera de Schrader não tem pressa e mostra as luzes e as sombras da cidade sem caricatura, lembrando bastante os filmes policiais dos anos 70, sem dúvida uma das paixões do cineasta.

Nesse turbilhão, um assassinato. A dor da perda e o medo da prisão. Se estava ruim, acaba de ficar pior. Fala-se tanto em dramas que retratam mulheres em crise com suas carreiras e relacionamentos, mas pouco se lembra que, no fundo, todo brutamontes dos filmes de ação tem um ponto fraco. Não que Dafoe faça o tipo durão de arma em punho, mas LeTour é um homem acostumados com os becos escuros. Mas e os espaços sem luz da alma, será que ele sabe lidar com eles? Uma personagem feminina bem escrita, caso de Ann em O Dono da Noite, também deve ter os seus traumas e faltas, mas os transforma em força para entrar em um novo ramo e garantir os confortos que a vida fora da lei lhe deu. Ela empreende, ele se revira na cama.

O Dono da Noite (Light Sleeper, 1992)

Homens X A Vida

Não é desmerecer os homens ou julgá-los de fracos, mas O Dono da Noite está no meio da Trilogia do Homem Solitário porque fala da grande pedra no caminho dos machos em crise: mulheres bem-resolvidas. O abandono de Marianne após um revival com LeTour é prova de maturidade. Ela não quer mais aquela relação, mas não foge de viver um último momento de prazer. Sabe até onde pode ir, enquanto ele encarna o mito da princesa e quer que o amor ressurja num passe de mágica. Doce ilusão masculina.

Não estamos mais nos anos 90 e têm muito homem que ainda cai no conto do vigário que o empoderamento feminino é algo moderno. Lutamos por espaço há séculos, mas naquele tempo não existia internet para vocês notarem nossos gritos de revolta. Estavam surdos, ou faziam de conta que estavam para manter a paz e a camisa passada sobre a cama todas as manhãs. O Dono da Noite é sobre um homem que nunca precisou fazer força para vencer e quer mudar de lugar. Só que lhe faltam forças. Se entre uma divagação e outro ele olhasse para o lado e observasse Marianne e Ann buscando mudanças onde menos se espera, as coisas teriam sido diferentes. Crescam, garotos. Até o cinema de ação pede isso para vocês.

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