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Milos Forman – A contracultura da liberdade!

Milos Forman, vencedor de dois Oscar, nos deixou recentemente

O cineasta tcheco Milos Forman pode ser considerado, sem medo, como um dos diretores mais interessantes do cinema. Além de obras premiadas como Um Estranho no Ninho e Amadeus, Forman deixou como legado uma obra que chama a atenção, porque mesmo com filmes diferentes entre si, havia coesão entre os temas de suas histórias e características. Não falarei de toda a obra do diretor, mas vou tentar falar de maneira clara como essas características deixam a obra de Milos Forman coesa em seu significado. Avisando que podem aparecer alguns spoilers leves dos filmes citados, então melhor coferir antes de ler esse artigo.

milos forman

Contracultura: Personagens deslocados da sociedade

Uma coisa que podemos ver na maioria dos personagens de Forman: eles são deslocados da sociedade moderna. São pessoas que não estão no mesmo status quo que os outros, e o diretor mostra como elas são julgadas como “erradas” apenas por seguirem padrões diferentes – típicos de um ideal da contracultura. Um exemplo pode ser visto em Mozart (Tom Hulce) na obra prima Amadeus, vencedor de oitos prêmios da Academia, incluindo filme e diretor. Não importa a genialidade musical de Mozart, ele é visto como ”imoral” pelo seu estilo de vida desregrado, e isso impede que as pessoas realmente escutem a sua música.

Outro longa de Forman que se pode fazer uma analogia perfeita sobre esses padrões de adequação da sociedade é o maravilhoso Um Estranho no Ninho, que também rendeu o Oscar ao diretor. McMurphy (Jack Nicholson, no trabalho de sua vida) é um malandro que se finge de louco porque acha que o manicômio é mais confortável que a cadeia. Vê que seus colegas vivem em uma rotina terrível, onde não podem se expressar, e nisso acaba comprando uma briga com a enfermeira chefe Ratchet (Louise Flechter).

A briga entre o protagonista e a antagonista pode ser vista como o cidadão que não quer ser adaptado pela atual liberdade querendo a liberdade de expressão, contra o sistema que diz o que pode e não pode ser feito por conta de uma “programação pensada e calculada”. O primeiro estranhamento entre os dois vem quando McMurphy questiona porquê não podem ligar a televisão para ver a final de campeonato de beisebol, e ela diz que não é permitido por conta da tal “programação pensada”. E durante todo o longa vemos essa briga do cidadão contra o sistema e até onde ele pode se expressar, até que o desfecho cruel do protagonista.

Se vermos o bom épico Na Época do Ragtime, aonde Forman cria um grande panorama político e social do século XIX, o foco continua nos que não são adequam a sociedade. O principal núcleo que envolve o longa é o do pianista negro Coalhouse Walker, Jr. (Howard E. Rollins, Jr.), cujo carro é vandalizado por um grupo de bombeiros, por retratar o pensamento da época – que considerava um absurdo um negro ser bem sucedido. Além de mostrar o crescimento político e social dos Estados Unidos, o longa mostra que desde sempre houve essa injustiça com as minorias, que nunca puderam se expressar, forçando-as a usarem métodos alternativos para que consigam deixar claro sua repugnância ao preconceito.

Aliás, essa é outra característica da obra de Forman: a liberdade de expressão. Todos os personagens de Forman se expressam de maneiras diferentes e ainda são julgados. O principal filme que representa isso é o ótimo O Povo Contra Larry Flynt, que abre debates sobre esse assunto – mesmo que Flynt (Woody Harrelson) publique material impróprio – no caso, a revista pornô Hustler – ele tem o direito de publicar e se expressar como qualquer outra pessoa. Outros personagens já citados também sofrem do mesmo mal de Flynt, em não poder se expressar pelos métodos que não bem vistos, e vindo de um diretor tcheco que entende bem isso, por ter sofrido no começo da carreira quando fazia filmes na antiga Tchecoslováquia, faz todo o sentido ter esse tema como principal.

Humanismo: Olhando sem julgar

O mais incrível que se mostra em sua obra é como o diretor evita o maniqueísmo e a simplicidade. Nenhum personagem de Forman é um canalha apenas por ser ou é visto como um monstro sem alma. Os mais cruéis tem uma justificativa – normalmente, por serem uma representação de um pensamento social – como a enfermeira Ratchet de Um Estranho no Ninho ou o mesmo os bombeiros que vandalizam o carro de Coulhouse em Na Época do Ragtime. Exemplos do humanismo do diretor podem ser visto em Valmont, adaptação de Ligações Perigosas, pois, se os protagonistas vividos por Glen Close e John Malkovich eram mostrados como pessoas frias e ardilosas no filme de Stephen Frears, Forman mostra como elas sofrem juntas com as vítimas de suas manipulações. No filme de Forman, são interpretados por Anette Benning e Colin Firth.

Mas o principal exemplo desse olhar sincero de Forman, ainda está em Amadeus, na figura de Salieri, interpretado de maneira maravilhosa por F. Murray Abraham – atuação que lhe rendeu o Oscar. Como o longa é uma tese sobre a inveja, e desde o começo o protagonista diz que matou Mozart, Salieri pode ser catalogado de maneira simplista como vilão. Mas o olhar dado pelo diretor ao personagem nunca é de ódio ou dele como apenas um vilão; pelo contrário, compreendemos a sua frustração por ser uma pessoa que se entregou a sua paixão pela música fazendo voto de castidade; estudou a vida inteira; e de repente aparece um rapaz vulgar, com uma risada irritante que compõe óperas desde dozes anos e é um gênio da música.

E não é ódio a Mozart, mas ao próprio Deus: “Por que Mozart foi escolhido para o ser o representante da Sua voz? Por que no fim, o Senhor deu um destino tão injusto a ele? Por que eu que tenho que ver e compreender a genialidade dele?” São esses questionamentos que mostram que mesmo Salieri sendo um personagem de atitudes reprováveis, ele tem alguma humanidade e motivos para se questionar. Em quase todos os filmes de Forman, há esse cuidado, com exceção do seu penúltimo filme, o fraco Sombras de Goya, que, por mais que entendamos os motivos do personagem vivido por Javier Bardem, em momento algum temos um desenvolvimento tão rico, e ele fica apenas visto como um canalha, algo que foi evitado em outras obras.

Esse é um breve resumo da incrível obra de Milos Forman. Mesmo tendo poucos longas – no total 13, em 45 anos de carreira – ela mostra as suas características temáticas, já que esteticamente seguia um estilo clássico que se adaptava a cada história que fazia. O Cinema perdeu um grande artista, que ainda merece mais reconhecimento do grande público, que lançou vários obras primas de gêneros diferentes que continuarão encantando todos os cinéfilos.

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