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Conflitos Internos – Infiltrado em Hong Kong!

Filme que inspirou Os Infiltrados, Conflitos Internos preza a sutileza e a tragédia do homem oriental

Numa dessas ironias do destino, o diretor Martin Scorsese (de O Irlandês), ganhou sua tão sonhada estatueta do Oscar por aquele que não é, nem de longe, o seu melhor trabalho. Os Infiltrados, não fosse a maciça campanha publicitária e o chororô de alguns pelo fato do pequeno Martin nunca ter levado um prêmio da Academia, talvez tivesse passado em brancas nuvens pelos cinemas. A questão é que, além de não ser um bom exemplar do que Scorsese é capaz como cineasta, o filme ainda é um remake. Ou melhor, uma releitura de Conflitos Internos, longa dirigido por Wai-Keung Lau em 2002, e que chegou ao mercado nacional diretamente em DVD.

Artigo sobre Conflitos Internos

O prezado leitor deve estar se perguntando: o original é melhor? Sinto informar que este texto não vai responder a fatídica pergunta. Vai fazer melhor: te colocar para pensar nas trocas feitas entre Lau e Scorsese. Conflitos Internos nasceu para ser mais um exemplar de cinema de ação produzido em Hong Kong. A história está aí para mostrar que Fervura Máxima, de John Woo, Perigo Extremo, de Ringo Lam, e Lutar ou Morrer, de Yuen Woo-ping, influenciaram toda uma geração de diretores e filmes de ação produzidos em Hollywood. No entanto, Wai-Keung Lau estava mais interessado num jogo de estratégia do que em perseguições de carros e concentrou todas as suas energias no roteiro. Isso ajudou e também prejudicou o resultado final.

Isso porque Conflitos Internos, apesar de ter os ótimos Tony Leung e Andy Lau (de Profissionais do Crime) encabeçando o elenco, pouco interesse dedica aos seus personagens. Rápidos – e um tanto piegas- flashbacks nos apresentam as motivações e os traumas dos protagonistas, tudo sempre acompanhado de uma trilha sonora de gosto duvidoso, bem diferente da que embala as cenas de ação. Os destinos de Chan (Leung), um jovem policial recrutado para se infiltrar na máfia local, e Lau (sim, eles tem o mesmo nome!), que faz o caminho contrário, vão se cruzar e garantir o início de uma busca mútua para descobrir que é o traidor dentro de cada organização.

O prato americano é incompleto

A habilidade dos orientais em criar “heróis” aparentemente indestrutíveis, mas dotados de uma vida trágica e, quase sempre, destinados à morte, torna Conflitos Internos um trabalho bem mais interessante que o frenético Os Infiltrados. A estratégia de Scorsese foi dar mais voz a alguns personagens que no original tinham pouca importância. Isso deveria ajudar a dar uma trajetória mais sólida aos protagonistas, mas parece que era mais um pretexto para a violência dar as caras mais vezes na tela. Não que Scorsese não seja bom no que faz. Longe disso. Mas sentamos na poltrona e ele nos serve a esperança de uma boa trama reapresentada com personagens melhor interpretados e construídos. Só que, ao chegarmos no fundo do prato, o tempero não parece completo.

Artigo sobre Conflitos Internos

A violência é mais crua que a proposta pela direção de Lau, sem dúvida, mas mais sangue e balas não significa mais competência. Scorsese sabe como ninguém conduzir mortes ao som do bom rock setentista, mas Os Infiltrados não tem nada de especial, ainda mais se o espectador ainda estiver com Conflitos Internos ainda quente na lembrança. Não há nenhuma cena memorável, daquelas que ficam impressas em nossas mentes por dias ou até pela vida inteira. A escolha de Jack Nicholson para o papel do mentor do infiltrado na polícia parece mais uma estratégia para o ator desfilar sua persona louca na tela do que algo pensado para dar intensidade à trama. Talvez para um cinéfilo novato, ainda sem muita bagagem de filmes de ação, seja uma obra-prima. Mas bastam alguns filmes a mais na lista para esquecermos o longa que deu o Oscar para o ítalo-americano.

Conflitos Internos está longe de ser o melhor filme de ação oriental da década passada. Wai-Keung Lau não tem a elegância coreográfica de John Woo nem a inteligência cênica de Ringo Lam. Mas num momento onde a grande maioria das produções do gênero investem em roteiros genéricos e resolvem tudo com montagem frenética, redescobri-lo é um bálsamo. Banhado de sangue e com todos os aromas das ruas de neon de Hong Kong. O prezado leitor nunca esteve lá? Nem eu. É a tal magia do cinema.

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