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Bang! You’re Dead – A manipulação dos nervos por Alfred Hitchcock!

Uma reflexão sobre Alfred Hitchcock e seu suspense na TV

Alfred Hitchcock não inventou o suspense. Outros fizeram isso antes dele. Shakespeare foi um grande autor de suspense – afinal, todo a plateia sabia que Julieta estava viva, menos Romeu. Edgar Allan Poe contribuiu substancialmente para o gênero. No cinema, Murnau e Fritz Lang, lá nos anos 20, já dominavam técnicas narrativas que até hoje são objeto de estudo e encantamento de qualquer cinéfilo. Mas por qual motivo Hitchcock recebeu o título – inegável – de Mestre do Suspense? Isso se deve ao fato do diretor ter feito mais experimentos neste campo do que qualquer outro. Hitchcock não usava o suspense…ele transformou-se no próprio suspense

Alfred Hitchcock Presents

Antes de mais nada, o que é o suspense? Um exemplo clássico creditado ao próprio diretor define com clareza os efeitos deste recurso narrativo. Imagine dois amigos conversando em um bar quando, de repente, uma bomba explode e manda tudo pelos ares. Uma cena como essa causa uma sensação de surpresa. Agora, imagine a mesma cena dos dois amigos conversando. Enquanto falam, recebemos a informação de que existe uma bomba embaixo da mesa. O cronômetro em contagem regressiva. 10 – 9 – 8. Os amigos falam sobre futebol, política, diversidade. 7 – 6 – 5. Riem como se aquele fosse o dia mais feliz de suas vidas. Bebem um gole tranquilo de cerveja. 4 – 3 – 2. Falam sobre quando será seu próximo encontro… BUM. A bomba explode. 

O suspense está amparado sobre dois pilares fundamentais: a dilatação do tempo e o compartilhamento de informações com o público. Para que ele exista, a plateia sempre deverá saber mais do que os personagens. É assim que a magia acontece. Nenhum outro diretor na história explorou tanto essas possibilidades, mas não se deve limitar a obra deste gênio apenas a este elemento. Hitchcock realizou, em seus mais de 50 filmes, estudos sobre o humano, as corrupções da sociedade e seus desejos mais poluídos. Hitchcock estudou o amor, a atração, o sexo, a dualidade do ser e nossa eterna fascinação pela morte.

(Confira nosso Formiga na Tela sobre Rebecca, a Mulher Inesquecível).

Mas, não obstante, o diretor inovou também em outro meio: a televisão. Ainda nos anos 50, desfrutando do auge de sua merecida fama, Hitchcock estreou o seriado Hitchcock Presents, que foi ao ar de 1955 a 1961 e era composto por episódios semanais de 25 minutos com eletrizantes histórias recheadas de humor, sarcasmo e a assinatura do mestre: o tal suspense. De 1962 a 1965 a série teve seu nome alterado para Hitchcock Hour, nesta fase com episódios de 50 minutos. Tratava-se de uma série absolutamente inovadora, com episódios escritos, dirigidos e protagonizados por diversos talentos, e com uma vinheta de abertura feita pelo próprio Hitchcock. Para não estender além da conta, basta dizer que ela foi,declaradamente, uma influência para outro seriado de enorme sucesso: Além da Imaginação.

Alfred Hitchcock Presents

Episódio de tirar o fôlego

Hitchcock dirigiu 17 episódios de Hitchcock Presents e apenas um episódio de Hitchcock Hour. Dentre todos esses incríveis exercícios do mestre, podemos destacar Lamb to the Slaughter, Revenge, Bancquo’s Ghost e Bang! You’re Dead. Este último merece uma atenção especial. Se fosse possível escolher apenas um trabalho de toda a carreira de Hitchcock, ele serviria como um incrível exemplo sobre sua capacidade de manipular os nervos da plateia de forma perversa, com os maneirismos pertinentes ao auge de sua forma como diretor.

Trata-se de uma trama simples. Um garoto surge com uma arminha de brinquedo, no quintal da casa de uma típica família de classe média alta, em um bairro pacífico dos EUA – características inclusive muito próprias do cinema de Hitchcock, sempre explorando o perigo que habita os lugares aparentemente seguros e perfeitos. Então, um tio do garoto entra em cena, hospedando-se na casa da família. Deixa no quarto uma mala, a qual começa a desfazer. Quanto sai do quarto, deixa a mostra uma arma de verdade, com balas de verdade. Obviamente, o mais trágico acontece: o garoto substitui a arma de brinquedo pela arma real, sem saber ao certo o que está fazendo, e sai pelas ruas para continuar a brincar.

Então começa uma verdadeira tortura do sistema gastrointestinal do espectador. Nós, os voyeurs sentados em frente a televisão, sabemos que o garoto carrega uma arma de verdade e para onde ele apontar e puxar o gatilho, as consequências podem ser trágicas. Inicialmente, há apenas uma bala no canhão. Ele aponta a arma para a mãe, que sorri, considerando que tudo aquilo é normal. Os aspectos técnicos da mise-en-scène se combinam de uma forma orgânica para colaborar nesta narrativa. Pouco a pouco, a situação vai se agravando e aumentando potencialmente a tensão.

Lançado em 1961, este pequeno filme mostra como o diretor não tinha limites. Em um trabalho de forte discurso social, reforçando o perigo iminente do armamento e, pior, da negligência paternal nesta mistura desgostosa de crianças e armas, Hitchcock nos entrega um curta-metragem de tirar o fôlego. A cada cena de Bang! You’re Dead,a respiração é afetada pelas imagens em movimento, por uma montagem irritantemente perfeita e a doce ironia do destino dos personagens.

Hitchcock dedicou sua vida à explorar o infinito universo do suspense.E da arte.

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