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Star Trek Discovery / Primeira Temporada – Episódio 5: Crítica!

Choose your pain leva Star Trek Discovery para territórios não-mapeados na história da franquia

Star Trek Discovery continua firme em sua marcha para nos fazer temer o que existe além da fronteira final. Choose your pain, o quinto episódio da série, para ter se dedicado avidamente a mostrar que o futuro utópico da Federação é cercado por sombras cada vez mais assustadoras.

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O capitão Lorca foi capturado pelos klingos, liderados por L’Rell, a assecla de Voq que ainda acredita no seu potencial como messias substituto. Dentro da nave klingon, Lorca se vê preso com um notório vigarista e auto-proclamado romântico chamado Harry Mudd. Ali, eles precisarão usar da sua astúcia para sobreviver à tortura klingon e bolar alguma chance para escapar dali.

Enquanto isso, na Discovery, Saru se vê jogado ao posto de capitã interino, com algumas buchas realmente intensas para lidar: resgatar seu capitão das mãos dos klingons, assumir abertamente que eles estão torturando e matando um ser sensciente com propósitos mesquinhos para a Frota e ainda lidar emocionalmente com sua ex-primeira oficial – e a pessoa que lidera a recusa em usar o tardígrado como meio de transporte, dado o seu sofrimento.

Choose your pain é provavelmente o melhor episódio de Star Trek Discovery até aqui. Forrado de nuances, ele nos mostra que membros exegéticos da moralidade humana sob o comando de uma instituição utópica são apenas uma lembrança de um futuro distante. Não existe alívio em meio à guerra, e decisões difíceis precisam ser tomadas.

E, aparentemente, Lorca come decisões difíceis no café da manhã. O nome do episódio, Choose you pain – escolha sua dor – é bastante apropriado em muitos níveis para as diversas situações apresentadas, a começar pela do capitão. De tempos em tempos, os klingons invadem a cela onde estão Lorca e Mudd e dão a eles essa opção: escolha sua dor. Apanha você, ou seu companheiro de cela.

Nisso, nós aprendemos algumas coisas bastante interessantes. A primeira delas, sobre Mudd. Egresso da série clássica, o Mudd de Rainn Wilson é um show à parte. Esqueça a canastrice do original – que combinava muito bem com a de Kirk. Essa versão de Mudd é um canalha sem escrúpulos, disposto ao que for necessário para sobreviver.

E isso inclui fazer escolhas além do moralmente questionável – desnecessário dizer que ele arranja maneiras bem cruéis de sempre “escolher sua dor”, colocando o personagem como um elemento antagonista extremamente interessante a ser trabalhado no futuro.

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Já Lorca tem um pouco mais do seu passado revelado, e isso inclui decisões que mostram o real tipo de pensamento militar que ele carrega consigo. A maneira como ele revela ter escolhido sua própria dor no passado – lembrada constantemente a ele pelos seus olhos deliberadamente defeituosos – determina que Lorca não é nem remotamente parecido com qualquer outro capitão que tenhamos visto anteriormente.

Nem Sisko era capaz de chegar aos limites que Lorca explicitamente admite já ter chegado nesse episódio, e isso é apenas mais um tijolo na construção desse personagem tão ambíguo e instigante que, aos poucos, vai se tornando o grande destaque de Star Trek Discovery. Basta entender que sua reação para a morte de Landry e sua escolha em relação a Burnham são apenas duas faces da mesma moeda.

Calejados e perturbados

Já na Discovery, a tripulação enfrenta seus próprios desafios. Saru não se sente preparado para ser capitão. E, como é natural para qualquer um, sempre que não nos sentimos preparados para uma tarefa acabamos pesando nossa mão e, de alguma forma, passando da conta. Choose your pain mostra um lado de Saru que ainda não tínhamos visto: ele é tão determinado quanto qualquer outro oficial – talvez até um pouco demais.

Sua decisão em relação ao tardígrado mostra que, mesmo como todo seu treinamento, a guerra o afetou; o que não deixa de ser um símbolo para como a guerra põe em risco os valores utópicos da Frota. É inevitável pensar nesse episódio se o comportamento do Imediato é cruel ou necessário – incidentalmente, é a questão central que Star Trek Discovery levanta sobre quase tudo até aqui.

É curioso notar que, aqui, nós temos também uma inversão da narrativa em relação ao que vínhamos vendo entre Saru e Burnham – a série mostrava o ponto de vista de Michael em contraste ao do kelpiano. Em Choose your pain, Saru assume o protagonismo, e vemos as suas decisões questionadas pelo ponto de vista de Burnham. É uma mudança bastante interessante, e que rompe um pouco com o marasmo de ter a personagem de Green em foco o tempo todo.

De fato, o episódio é todo sobre seus coadjuvantes e seus pontos de vista sobre o conflito. A decisão de Stamets em relação ao tardígrado põe o personagem, até aqui, como aquele mais próximo das séries clássicas que possamos encontrar. Ele é o único que poderíamos pensar encontrar sob o comando de alguém como Picard, por exemplo – e é claro que o fato de Lorca ser o exato oposto do Bom Capitão irá gerar desenvolvimentos interessantíssimos para Discovery. Eles definitivamente não estão mais no Kansas, amigo leitor.

Não obstante esse interessante desenvolvimento dos personagens, Choose your pain chegou audaciosamente onde nenhuma série trekker jamais havia estado antes. Isso inclui questões divertidas, mas iníquas – pela primeira vez ouvimos um palavrão no futuro de Star Trek – e até mesmo extremamente positivas, como a apresentação do primeiro casal homoafetivo da história da franquia, formado pelo Dr. Culber e pelo Tenente Stamets.

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No entanto, o que existe de mais chocante aqui é, pela primeira vez, a insinuação de estupro – o tenente Ash Tyler (Shazad Latif) é vítima de abusos por parte de L’Rell na nave klingon, onde também é prisioneiro, ajudando Lorca e estabelecendo um vínculo que também potencial para ser desenvolvido, demonstrando que o capitão tem preferência por sobreviventes, calejados e perturbados. Lorca definitivamente não é um cara a quem nós gostaríamos de servir.

Luz no fim do buraco de tardígrado

Mas nem só de desgraça vive Choose your pain. Como dito, Stamets acaba se sobressaindo em um momento de dificuldade ética, mostrando que existe luz no fim do túnel da guerra para a Federação. Não somente isso, mas Burnham começa a ganhar traços de uma personagem com a qual nós podemos nos identificar.

Sua relação com Saru, que se tornou mais aproximada e acalentadora nesse episódio, mostra que, como todos os outros personagens, ela possui camadas e limites que ela está disposta a explorar – ou não. Além disso, o destino do tardígrado mostra que não apenas de Stamets vive o futuro da Federação – uma tempestade ética, moral e ideológica se anuncia para a série.

No geral, Choose your pain mostra que todos a bordo da Discovery escolhem sua própria dor a todo instante. A maneira como cada faz e reage às suas próprias escolhas é que torna os personagens mais e mais interessantes. A nota preocupante é que estamos chegando na metade da temporada com praticamente apenas perguntas e nenhuma resposta. E também tem o problema dos klingons. A cada episódio que passa, os entendemos e os tememos cada vez menos.

Mas isso não torna esse episódio menos interessante. É um fato que Star Trek Discovery está tomando rumos cada vez mais sombrios – o gancho do final desse episódio (outra cortesia da série clássica para Choose your pain, irão notar os fãs) é provavelmente a coisa mais assustadora que vimos até aqui. Afinal, mesmo que esses klingons não botem medo em ninguém mesmo, a escuridão da galáxia contém muito mais do que artrópodes movidos a cogumelos e alienígenas com cabeçonas de borracha.

O perigo pode estar do outro lado do espelho.

Não deixe de conferir nossa crítica dos episódios anteriores!

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