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Oeste amarelo e poeirento – As influências de Godless!

Godless procura dar espaço àquelas que normalmente são as vítimas do gênero: as muheres

Anunciar a morte de um gênero é uma tradição no cinema. Assim como os nascimentos de estilos de filmagem e roteiro são valorizados por críticos e estudiosos, basta uma leve decaída para os Nostradamus da vida declararem o fim. E isso costuma acontecer mais de uma vez. O gênero mais morto talvez seja o de uma das recentes séries da Netflix, Godless: o western, que já esteve na mira das pistolas em uma rua deserta desde o final da década de 60.

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Esta que vos escreve acredita que morrer o western não morreu; apenas deixou de ser tão requisitado pelos estúdios. Isso porque bons westerns foram realizados no período da Nova Hollywood, nos anos 80 (Cavalgada dos Proscritos, de Walter Hill, abriu a década à bala) e alguns exemplares surgiram recentemente, como o confuso, porém bem dirigido, À Procura da Vingança, de 2008.

Uma prova de que o western ainda rende um caldo quente e forte é a recente investida da plataforma de streaming. Ambientada na fictícia cidade de La Belle, onde um acidente numa mina dizimou os homens, e as mulheres tiveram que assumir papéis pouco comuns para aquela conservadora década de 1880.

Em paralelo, temos a busca do sanguinário Frank Griffin, interpretado por Jeff Daniels, por seu jovem parceiro Roy Goode, acolhido na fazenda de Alice Fletcher, uma viúva que vive com o filho mestiço Truckee e a sogra nativo-americana. Tudo isso acontece numa atmosfera que mescla várias vertentes do western, indo dos clássicos até os exemplares revisionistas.

Já no primeiro episódio, temos praticamente todos os clichês do gênero: o mocinho que parece bandido, o malvado e maduro cowboy, a clássica retirada da bala do braço (aliás, do braço inteiro também – mas isso não é spoiler, já que Daniels aparecia sem essa parte do corpo nas imagens de divulgação da série) e o xerife em crise.

O título deste primeiro episódio, aliás, é Aconteceu em Creede, remetendo a uma cidadezinha típica do velho oeste que não será o cenário principal de Godless. Os olhos, os ouvidos e as armas estarão voltados para La Belle, um batismo um tanto duvidoso para uma cidade que, após a explosão de uma mina, fica habitada por mulheres.

Digo isso porque os três primeiros episódios são dominados pelos homens. Numa série que deu a entender em seu trailer que seria um faroeste protagonizado por mulheres, isso é algo muito estranho. Problemas de representatividade à parte, Godless não faz nem questão de disfarçar sua influência fordiana.

Influências clássicas

Os famosos planos de moldura imortalizados pelo diretor americano John Ford aparecem mais de uma vez na série, dando inclusive a ideia de que Alice Fletcher seria o Ethan Edwards da trama, referenciando o personagem de John Wayne em Rastros de Ódio. Se Ethan precisa desfazer seu preconceito contra os indígenas para ter resultados satisfatórios na busca por sua sobrinha sequestrada, Alice terá que encarar as mulheres de La Belle, que a consideram uma ameaça por ter se envolvido com os índios, para vencer o ataque de Frank Griffin e seu bando, que quer o couro de Roy Goode, o desertor.

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Os tons de amarelo da fotografia, presentes em todos os episódios (exceto nos flashbacks, todos fotografados em preto e branco com alguns pontos de cor, em um lenço ou uma arma, por exemplo) fazem lembrar uma das mais grandiosas produções já realizadas dentro do gênero e também uma das mais controversas.

Acusada de ter “matado o western”, O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, custou uma fortuna, foi um fracasso de bilheteria, e ainda rendeu ao seu criador o temido troféu Framboesa de Ouro de Pior Diretor. Ao que parece, O Portal do Paraíso é um exemplo de trabalho realizado na hora errada, pois hoje, quase quarenta anos depois de seu lançamento, ele encontrou seu público, e é considerado um dos grandes trabalhos de Cimino.

Em comum com Godless está essa ideia épica, com episódios longos e a construção de uma atmosfera de incerteza até a chegada do confronto final. A diferença é que enquanto o filme estrelado por Isabelle Huppert e Kris Kristofferson encaminha sua trama com poesia visual (como esquecer a valsa solitária do casal central no salão, construído pelos pioneiros americanos?), Godless investe em dezenas de cavalos atravessando rios, algumas quedas e tiros e pouca emoção verdadeira.

Não se pode negar que o diretor e roteirista Scott Frank deu o melhor de si em alguns planos, como na cena que sobrevoa o telhado de uma casa para revelar um cemitério improvisado das vítimas da varíola. É digno de estar em um grande filme – o problema é que só ser belo não basta. Um bom western exige robustez nos conflitos apresentados, questionamentos sobre a força do homem diante da natureza e, no caso do suposto protagonismo feminino proposto pela série, personagens femininas mostradas para além da superfície.

Feminismo mal-interpretado

O problema é que, fora alguns poucos momentos em que empunham armas e atiram contra os inimigos, passam maioria do tempo em cena ensinando homens a ler, dependendo deles para organizar os animais no rancho ou então cogitando um romance. John Ford não teria sido tão machista.

Mas há luz em meio a escuridão do oeste. Mary Agnes, interpretada por Merritt Wever, merecia uma série só dela. Sua transição de típica esposa e dona de casa para alguém que troca os saiotes pelas calças, e o olhar aflito diante da janela pelo rifle sempre em punho, ocorre de forma natural e nada caricata.

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Se seu relacionamento com a professora Callie Dunne, interpretada por Tess Frazer, não fosse mostrado de maneira fetichista, teríamos a melhor história dentre as muitas apresentadas na série.
Mesmo bebendo nos clássicos de John Ford, Haward Hawks e até de Sergio Corbucci, para trazer o western novamente à tona após as inúmeras ameaças de morte sofridas pelo gênero, Godless deixa a desejar para os fãs das aventuras ambientadas no oeste, em especial as espectadoras mulheres.

Porque sim, gostamos de faroeste e queremos ser bem representadas dentro deles. Alguns dirão que certas regras precisam ser seguidas. Sem problemas. Se preciso, pegaremos em armas e acabaremos com quase todas elas.

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