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3% – Politica e sociedade em uma abordagem meritocrática!

Você é o responsável pelo seu próprio mérito. A distopia apresentada na primeira temporada de 3%, série da Netflix que estreou no fim de 2016, nos mostra uma sociedade onde o mérito é o grande motor social. Com a grande maioria da população vivendo em condições sub-humanas, os jovens de 20 anos vislumbram uma única chance de sucesso em suas vidas ao passar por um processo seletivo que lhes garantirá um futuro promissor em um mundo melhor, repleto de oportunidades. Todavia, apenas essa porcentagem é selecionada para usufruir de um mundo desejavelmente melhor.

Primeira temporada de 3%

Como críticas gerais, podemos dizer que 3% é irregular, pois embora apresente pontos bastante interessantes, também apresenta variados problemas. Os primeiros capítulos não são muito animadores, mas depois a série se desenvolve melhor, aumentando o interesse. As atuações são, em grande parte, fracas e mesmo os atores mais experientes não empolgam muito. É visível a contenção orçamentária que a produção teve que enfrentar e isso se reflete muito no tipo de universo proposto, assim como na qualidade da produção em si. Os oito capítulos parecem pouco para mostrar tudo o que esta primeira temporada pretendia e a impressão que fica é que muito do que poderia ser aprofundado ficou para trás, apenas recebendo pequenas pinceladas. Ainda há algumas questões que mereciam melhor destaque, como a vida da grande maioria das pessoas no continente e a questão da religiosidade, entretanto, o desenvolvimento dos personagens e as tramas paralelas surpreendem aqueles que esperam ver uma distopia comum bipolarizada e a série acaba fugindo do lugar comum, presenteando seus espectadores com reviravoltas e surpresas sobre a trama em si e seus integrantes.

Esta análise busca aprofundar alguns aspectos da mensagem que a série pretende passar, direta ou indiretamente, refletindo sobre as questões que parece propor. Curiosamente, em alguns momentos, ela pode evidenciar uma opinião oposta ao que sugeria de início, por vezes, não deixando tão claro seu discurso e dando espaço para as interpretações que quero problematizar.

Política, sociedade e meritocracia na primeira temporada de 3%

De modo geral, as distopias apresentam um lugar comum: Em um lugar indeterminado no futuro, a sociedade é composta por um povo oprimido e liderado por um governo tirânico, até que alguém questiona o status quo e busca de alguma forma mudá-lo ou denunciá-lo. Embora a distopia se situe no futuro, ela dialoga com o presente, servindo como alerta sobre como pode ser ruim uma sociedade onde governo, tecnologia ou determinado aspecto social subjuga toda a sociedade. Em geral, esse tipo de narrativa tende a pender para uma ideologia predominantemente de esquerda.

1984 - Primeira temporada de 3%

A fiel adaptação de 1984, dirigida por Michael Radford no mesmo ano do título! A obra de Orwell se mantém como exemplo de opressão à massas!

Uma das críticas é justamente sobre a meritocracia, que a princípio parece ser a grande questão do filme. Quando lemos a sinopse e assistimos aos primeiros capítulos, a primeira impressão é que a meritocracia será explorada como um ponto negativo da sociedade. Ao ver pessoas eliminadas de forma muitas vezes injusta pelo processo de seleção, típico daqueles aplicados em grandes empresas, a reação de quem está assistindo tende a ser de compaixão e torcida pela superação da injustiça. Todavia, em 3% essa injustiça parece ser premiada. Quem vence os processos de seleção não os vence exatamente pelo seu merecimento, mas – sobretudo – pela sua esperteza, algo que, de forma geral, também não difere muito também do que muitas empresas procuram. De maneira geral, a mensagem que fica é que todo o processo de recrutamento, por mais cruel e injusto que seja, é fundamental para o bom andamento da sociedade, não importando que para isso você precise trapacear e trair seus companheiros. A história endossa, do inicio ao término, que bondade e altruísmo não são mais importantes para a sociedade que a esperteza e perspicácia, consequentemente passando por cima de questões éticas.

Como contraponto ao status quo, temos A Causa, como é chamado o grupo de rebeldes. Embora com um peso significativo na trama, não é desenvolvida de forma a apresentar-se como ameaça. Além de não apresentar nenhum contraponto ao processo e sociedade, seus integrantes são apresentados como fracos, mentirosos e de mau caráter. Além disso, mesmo os personagens que parecem comprometidos, em dado momento parecem virar a casaca e apoiar o lado que no princípio os oprimia. À medida que os participantes vencem as provas e avançam, percebem aos poucos que, para se moldar à sociedade utópica pela qual disputam, devem abandonar suas ideologias, assim como todo um passado.

Primeira temporada de 3%

Neste ponto, podemos perceber, já no último capítulo, a cristalização do ideal da série ao apresentar um personagem chave como ex-integrante da causa que diz “Já há muito tempo abandonei essa ideologia infantil, pois não existem justiçados nem injustiçados, mas aqueles que tem mérito e os que não tem”. Tal argumento cristalizado não oferece qualquer resistência pela trama proposta. Esse argumento é justamente, com uma ou outra variação, o discurso defendido pelas pessoas que defendem princípios próximos da direita, sobretudo quando criticam ideologias de esquerda, como o socialismo, que procura denunciar a injustiça embutida nesse tipo de ideal.

Portanto, embora o tipo de argumento que a primeira temporada de 3% explora, o universo das distopias de ficção científica, geralmente abordem o argumento pelo viés da ideologia da esquerda, a série apresenta argumentos voltados para uma ideologia mais próxima da direita, defendendo a meritocracia e o abandono de ideias que busquem o bem social da maioria. Embora não concorde com o argumento, tenho que admitir que é um discurso novo para ser explorado nesse tipo de trama. Você termina o oitavo capítulo sentindo-se feliz por aqueles que conseguiram cumprir o percurso proposto com eficiência, ao invés de penalizado por ver que, novamente, os sistemas de controle do Estado continuaram privilegiando uma minoria, enquanto a grande maioria continuará sem nenhuma mudança. Essa foi a mensagem passada por esta primeira temporada. Talvez o próximo ano traga alguma contra-argumentação, mas só o futuro dirá o que os realizadores planejam para essa trama.

Falando na primeira temporada de 3%, já viu o Formiga na Tela sobre o assunto? Tá logo aí abaixo: 

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