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Garras de Anjo – Vamos falar sobre sexo!

Garras de Anjo

Curioso observar que na maior parte dos textos sobre Garras de Anjo, uma das parcerias entre Jean Giraud, mais conhecido como Moebius, e Alejandro Jodorowsky, lançada aqui em 2014 pela Editora Nemo, percebemos a insistência em chama-la de obra “erótica”. Existe uma profunda resistência, da parte de críticos e resenhistas, em admitir que, sim, trata-se de uma obra de arte pornográfica, já que eles mesmos estariam, de uma certa forma, envolvendo-se publicamente com a obscenidade, a indecência e a amoralidade que, em suas opiniões, seriam inerentes ao tema. É difícil para a maior parte das pessoas, em qualquer parte do mundo, admitir que pornografia pode ser arte e – pior – arte que pode interessa-las de alguma forma. Então, para aliviar esse falso limiar ético, os críticos e resenhistas assimilaram e disseminaram a ideia de que se trata de “erotismo” e não pornografia.

O controverso Alejandro Jodorowsky em foto recente!

O controverso Alejandro Jodorowsky em foto recente!

Pois bem, com a palavra, o autor: “Eu acabo de fazer um álbum pornô de 70 páginas com Moebius, chamado Garras de Anjo. É a iniciação de uma garota, às voltas com seu com seu complexo de Édipo, com alguns desenhos maravilhosos, apenas um desenho por página. E o fizemos para demonstrar que tomando os elementos do pornô hardcore e do sadomasoquismo, também se pode chegar a uma obra de arte” – Jodorowsky, 1992. Não é erotismo coisa nenhuma! É pornografia! Vamos falar sobre sexo!

Pelos seus temas, a trama em sua estrutura narrativa é, ao mesmo tempo, muito simples e muito densa. Uma jovem, após o funeral de seu pai, retorna à casa deste. Abandonada a muito tempo, acaba servindo de palco para essa mulher explorar sua sexualidade de todas as formas possíveis e exorcizar os demônios que carrega consigo. Não é simplesmente uma obra provocadora, mas sim complexa. Nas suas primeiras páginas, os autores já deixam bastante claro que não é um cenário raso para a exposição de pornografia rasa e banal, popularmente disseminada e igualmente negada em público – felação, homossexualismo, fetichismo, etc. Eles irão forçar a nossa relação com a nossa própria sexualidade ao nos expor, com belíssimas imagens e com uma narrativa que beira a poesia, a ideias como incesto, sodomia, sadomasoquismo, etc.

Garras de Anjo

O amigo leitor mais ilustrado já deve estar conjecturando sobre a obra ser, de alguma forma, relacionada ao universo conceitual freudiano. Se é o caso, esse é o caminho. As imagens desenhadas por Moebius, intensas e explícitas, funcionam quase como um exercício psicanalítico. O leitor deve ficar atento ao que o excita e ao que o repugna – e isso pode dizer muito sobre si mesmo. O que não é, dado o histórico dos autores, nem um pouco ao acaso. A escolha por uma figura feminina como protagonista também não é vã; as ideias de penetração, de exploração e de violação são inerentes a tudo que é pornográfico. Ao expor sua protagonista ao que existe de conceitualmente – dentro da moralidade popular contemporânea – mais “degradante”, “humilhante” e “subversivo”, a grande reflexão que a obra faz é justamente essa: ela penetra, explora e viola a ideia de pornografia como se, alguma forma, isso destruísse o que ela é.

Garras de Anjo

Começa então um interessante processo de reabilitação da pornografia e do sexo, enquanto parte quintessencial do ser humano. Depois de destruí-la, narrativa e imagem reconstroem a psique da protagonista de maneira que ela tem plenamente assimilada o vasto universo de sua própria sexualidade, reconstruindo assim também a própria ideia de pornografia, tentando ressignifica-la para além da moralidade comum, banal e rasa do cotidiano contemporâneo. Vamos deixar claro que esse não é um processo claro e explícito, e nem poderia ser. Tudo o que envolve a HQ, por mais visceral e carnal que possa ser, é representado de maneira onírica e surreal, tanto no texto de Jodorowsky quanto nos desenhos de Moebius. Os autores entendem que o sexo não é algo racional e, portanto, não tem a menor necessidade de ser explicado objetivamente. Como o próprio roteirista diz na citação no início desta resenha, a ideia aqui é reabilitar a pornografia para a esfera pública das ideias, estabelecendo-a como arte, ou seja, um aspecto da cultura humana, quase metafísico em sua definição.

Garras de Anjo

De fato, o sexo enquanto ato pode ser compreendido objetivamente, mas enquanto cultura são outros quinhentos. Peter Singer, filósofo contemporâneo especialista em questões éticas, diz que tudo o que nós relacionamos a sexo – sejam questões religiosas, moralidade e ética, gêneros, orientação e identidade sexual, etc. – não está de fato relacionado ao sexo enquanto ato, mas a cultura que se criou em torno do ato. Fazendo uma comparação grosseira, é como imaginar que a culinária e a gastronomia não existiriam se nós pensássemos em comida apenas como sustento, pois não haveria necessidade nenhuma de se cozinhar alimentos trazendo o estilo de cada local ou pessoa. Da mesma forma, o sexo não existe apenas para a reprodução ou mesmo somente o prazer – é uma cultura. No ocidente, mais precisamente a França, país natal de Moebius que recebeu Jodorowsky, a cultura judaico-cristã demonizou – literalmente – a prática, o debate e, portanto, a cultura do sexo.

A Editora Nemo sentiu isso na pele. Para publicar a obra aqui no Brasil, sofreu resistência da gráfica, que se recusava a imprimir uma obra abertamente pornográfica, e é curioso notar, batendo de novo nessa mesma tecla, que praticamente todos os veículos que noticiaram esse fato citam a pornografia da obra sempre entre aspas, como se ela não pudesse ser pornográfica por ser uma obra de arte. É clara não apenas a necessidade de termos Garras de Anjo publicado no Brasil, como é de se aplaudir o esforço e a coragem da Editora Nemo ao trazer um trabalho que, para aqueles de perspectiva limitada, só pode ser considerado “subversivo”, esse adjetivo sim, entre aspas. Não obstante, a qualidade gráfica do álbum, que segue o padrão e tamanho europeus, tornam a experiência criada por esses mestres um deleite ainda maior.

Garras de Anjo

Garras de Anjo é uma obra controversa, mas também necessária. É impossível ignorar o dilema que sofremos ao querer fazer e falar sobre sexo, porque entendemos que – em nossas vidas privadas – ele é uma parte indissociável de quem nós somos. Já no universo público, aquele em que está a cultura, nós temos que nega-lo, pois é “proibido”. Isso é irônico, pois toda a perversão relacionada a pornografia reside justamente na proibição dela enquanto conceito, mas não enquanto ato. Moebius e Jodorowsky prestaram um serviço à cultura com essa obra, nos incentivando a aceitar e desfrutar da nossa sexualidade.

Vamos falar sobre sexo, mas não vamos deixar de fazer.

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