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Coin Laundry Lady – Kiyohara, Monty Python e O Chamado. O que?

Hiro Kiyohara cai de cabeça no non sense nesse mangá de volume único

Quem já perdeu cinco minutos procurando qualquer coisa sobre cultura pop japonesa sabe que “coerência” é uma palavra estritamente opcional para eles. Para poder apreciar o que eles fazem, é preciso um certo estado de espírito ou disposição prévia – senão a coisa degringola bem rápido. É o caso do mangá Coin Laundry Lady, de Hiro Kiyohara.

Resenha de Coin Laundry Lady, de Hiro Kiyohara

Coin Laundry Lady, de Hiro Kiyohara

A ideia do mangá é relativamente simples, e até divertida em conceito: Coin​ ​Laundry​ ​Lady​ ​tem como protagonista Maoko, uma estranha menina que vive pregando sustos nos visitantes de uma lavanderia. Ela se diverte assustando os clientes do local, seja pulando de dentro da secadora ou aparecendo de formas inusitadas.

O mangá não possui uma história única – são vários pequenos capítulos episódicos, que possuem uma linha geral. A intenção de Kiyohara é bastante clara desde o início: tirar um sarro forte de elementos típicos do terror japonês; em particular, dos elementos oriundos do cinema de terror deles, em uma espécie de extrapolação do que falamos sobre Fragmentos do Horror um par de semanas atrás.

E é aí que você precisa decidir se você está no tal “estado de espírito” que eu mencionei acima, porque a execução de Kiyohara dessa proposta é aquele típico “ame ou odeie”. Afinal, se as próprias obras que inspiraram o autor muitas vezes não fazem sentido, não é de se esperar menos que a paródia também não faça.

Existem alguns aspectos mais objetivos da narrativa – Maoko, no geral, é uma típica adolescente deslocada de tipo de história de mangá, assim como as amizades que firma no seu lar/lavanderia também são alguns estereótipos: o menino estranho da escola, a gostosona da faculdade, e por aí vai.

Mas esses aspectos se perdem rapidamente quando somos dragados – de novo, se você se dispõe a isso – para dentro da espiral descendente non sense do mangá. Não é que “nada faz sentido” na história; é impossível que o absurdo camusiano do mangá – como se O Chamado fosse reescrito por Terry Gilliam – não seja deliberado.

Resenha de Coin Laundry Lady, de Hiro Kiyohara

Coerência é para os fracos de coração

O formato episódico mencionado só reforça isso. As pegadinhas e armações de Maoko tem o seu absurdo non sense potencializados justamente pelo formato curto das histórias, que começa a tensão das suas brincadeiras, mas rapidamente as encerra, antes que consequências sejam possíveis e explicações necessárias.

A história tem seu humor, sim – mas como eu disse, é um humor muito específico. Primeiro, porque o leitor que não estiver familiarizado com as obras de terror japonês – ou pelos menos seus elementos e referências principais – vai ter muita coisa passando batida. Segundo, porque, como eu disse, se “coerência” já é algo normalmente opcional para os japoneses, para Kiyohara em Coin Laundry Lady é um conceito distantemente abstrato.

As histórias não são feitas para fazerem sentido; elas são feitas para englobar uma série de intenções do autor, cuja clareza também fica a critério somente dele, e não do leitor. No que implica que, embora tenha valores muito interessantes, Coin Laundry Lady também é um mangá bastante hermético, reservado a um nicho de fãs e apreciadores bastante restrito.

Mas, se você pertencer a esse nicho, provavelmente vai se divertir bastante. Kiyohara domina bem elementos de terror – como visto em seu grande sucesso, Another, e que também serve como comparação para uma característica bastante elusiva do autor, que também é mostrada (ou não, dependendo da sua intepretação) em Coin Laundry Lady: Another frustra muitos de seus leitores por conta do seu final decepcionante – ao menos, perto do que é o resto da história.

Em Coin Laundry Lady, esse problema nem sequer é abordado – como se trata de uma história sem começo, meio e – principalmente – um fim, Kiyohara evita ter que lidar com um encerramento para sua história. Até porque, sendo um volume único de histórias episódicas de teor non sense, tentar oferecer qualquer tipo de explicação ou coerência narrativa poderia ser até pior para o mangá.

Resenha de Coin Laundry Lady, de Hiro Kiyohara

Arte inquestionável

Questões de relativização do teor e da narrativa à parte, o que é realmente incontestável é o talento do autor com o lápis. Como todo bom mangaká, Kiyohara alterna muito bem entre estilos e desenhos básicos com estilos específicos – como aqueles que emulam elementos de horror clássico japonês. O domínio típico dos mangakás sobre a diagramação dinâmica e não-convencional das páginas potencializa tanto a qualidade dos desenhos com os elementos non sense.

Talvez esse seja precisamente o motivo desse caráter non sense das histórias – fazer uma transição fluida entre elementos e estilos tão distintos seria quase impossível – ao menos sem se utilizar de um humor escrachado e caricato, que claramente não é a intenção do autor. Dessa forma, podemos apreciar a habilidade do autor nos desenhos, o que possibilita ao leitor casual desfrutar do mangá – se for o caso – apesar da “bagunça” narrativa.

Em uma nota sobre a edição em si, novamente a JBC está de parabéns pelo tratamento dado ao mangá. A qualidade papel do volume, assim como o tratamento estético, facilitam para exibir o mangá na estante. Sabendo se tratar de um volume único, a edição lançada é feita para durar, por um preço relativamente razoável – em que pese os terríveis custos do mercado editorial brasileiro.

Kiyohara já teve outros quatro volumes lançados aqui no Brasil – Coin Laundry Lady, embora tenha elementos típicos do autor, é certamente o mais bizarro e de difícil digestão. É uma leitura casual, mas que exige boa vontade do leitor.

Eu gostaria de ter uma punch line espertinha pra encerrar o texto. Mas, dentro do espírito non sense do mangá, aqui está um delicioso queijo gouda.

kiyohara

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