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Batman: Terra Um – Reinventando a roda?

A linha Terra Um, da DC, tem uma proposta simples e batida. Criar uma origem alternativa de um personagem, fora do universo regular das revistas mensais, atualizando vários conceitos e aproximando-o do “real”, seja lá o que isso significa de verdade em um quadrinho de super-herói. Diferente do que a Marvel fez, ao inaugurar sua linha Ultimate na década passada, Terra Um não é uma série mensal paralela às outras, pelo menos até agora, mas edições com histórias fechadas e sem periodicidade definida. Até o momento, além do morcego, só mais um personagem foi anteriormente contemplado com a nova(?) abordagem, e esse só poderia ser o sempre reformulado Superman. Melhor nem comentar sobre essa edição e ir direto ao que interessa…

Batman Terra Um

Alguns roteiristas já disseram que Batman é um excelente personagem para trabalhar, que tem um apelo forte em qualquer contexto e isso facilita bastante a tarefa de escrever. Concordo, mas isso não se sustenta sozinho sem a mão de um escritor competente. Geoff Johns é uma figura respeitada nesse meio e foi bastante elogiado em sua passagem pelo título do Lanterna Verde, então coube a ele a tarefa de, mais uma vez, recontar aquilo que até quem não lê gibis sabe, mas de uma forma que trouxesse algo de novo.  Uma tarefa inglória, redundante e inútil no fim das contas, pois qualquer leitor de longa data reconhece em Batman – Ano Um, a história de origem escrita por Frank Miller nos anos 80, como uma das melhores coisas feitas com o personagem, e nas hq’s em geral, em todos os tempos.

O encargo de Johns ganha mais pressão lembrando que Ano Um continua bastante atual e considerada como a origem definitiva por muitos fãs. Tristemente, por conta de seu teor adulto, acabou tendo muitos dos conceitos apresentados esquecidos ou modificados no decorrer dos anos, o que hoje a torna também uma história alternativa. Voltando à linha Terra Um e Johns, deixando de lado qualquer desconforto sobre as decisões editoriais da DC, é preciso admitir que o roteirista esforçou-se, e bastante.

É claro que Batman em início de carreira, batendo cabeça para resolver coisas que nos acostumamos a vê-lo tirar de letra, não é novidade. O que veio de novo então? Temos agora um Alfred mais novo e casca-grossa, veterano de alguma força militar especial, que chega a Gotham City convidado por Thomas Wayne, seu amigo e ex-companheiro de batalha, durante a campanha dele para prefeito. Um James Gordon acuado pelo crime e fazendo vista-grossa. Um vilão da galeria clássica do homem-morcego, aqui vertido em um prefeito tão corrupto que tem até um serial killer na folha de pagamento. Por último, um Bruce Wayne criança cujo comportamento torna bem mais difícil simpatizarmos com ele, mesmo com seu destino trágico.

Batman Terra Um

Um Alfred mais durão!

Interessante? Até certo ponto, eu diria. As particularidades criadas para a história, se isoladas tem o mérito de chamar atenção, pecam em conjunto quando visualizamos todo o cenário. O Bruce Wayne/Batman de Geoff Johns é alguém com motivações e atitudes tão egoístas que prejudicam a empatia do leitor, além de que, na ânsia de tornar o personagem mais real, o conceito do seu treinamento acaba sendo mais difícil de engolir do que as misteriosas viagens pelo mundo das outras versões. Gordon, normalmente um personagem forte, que carregaria a narrativa sozinho – como em Ano Um – se fosse preciso, aqui fica apagado em quase toda a trama. Sobre o vilão e seus capangas, apenas a maldade esperada. Sobra Alfred, este sim o personagem mais interessante e melhor desenvolvido em toda história.

Felizmente, valorizando MUITO a edição, os desenhos são de Gary Frank. O artista consegue imprimir o peso da história com uma dose forte de realismo, principalmente nas cenas com alto contraste e nas expressões faciais, sem parecer preso a referências fotográficas. A elegância do traço traz um ar de linha clássica que, mesmo assim, é harmoniosa com o estilo pelo qual os fãs o reconhecem. Com a arte-final de Jon Sibal, que nas hachuras e nos relevos lembra um pouco de Al Williamson, e com uma cor competente de Brad Anderson, a arte desta história é realmente a estrela e o que faz valer a compra. Ainda sobre os desenhos, o texto não estaria completo sem alguma consideração sobre a narrativa visual utilizada para contar a história.

Batman Terra Um

Parece filme!

Claro que todo mundo gosta de desenhos bonitos e bem acabados, mas eles não servem de nada se a coisa toda se tornar confusa e arrastada por erros de composição e diagramação. Pois Gary Frank acerta na mosca em mais esse quesito! Com várias cenas em Splash (uma ilustração ocupando toda página), as sequencias de ação tem um ar cinematográfico, que pela disposição dos quadros em sentido vertical, a sensação é de que estamos assistindo a um bom filme e não percebemos o tempo passar. Com certeza, a clareza da construção dos quadros e suas sequencias fazem desse trabalho algo que, em alguns trechos, poderia até mesmo servir de storyboard para um filme de Batman.

Concluindo, o parágrafo anterior já entregou que eu terminaria dizendo que você pode comprar sossegado. Mesmo com todas as ressalvas, vale a pena e é diversão garantida em um gibi robusto de 144 págs, capa dura e um convidativo preço de R$ 21,90, que aumenta os pontos do produto na relação custo X benefício. Já está à venda e ficará lindo na estante de qualquer fã do homem-morcego ou de quadrinhos em geral.

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    • Daniel Fontana

      Opa, muito obrigado, Marcia! Espero que goste dos outros artigos!