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Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – O Rei está nu!

Visão de Coates para o Pantera Negra já é considerada revolucionária

Inquieta repousa a cabeça que usa a coroa, diria o Henrique IV de Shakespeare. O Pantera Negra não tinha uma série solo desde 2012, então, quando a Marvel anunciou que o autor – de literatura – Ta-Nehisi Coates se uniria ao desenhista afro-americano Brian Stelfreeze para trazer T’Challa de volta à linha de frente, os ânimos foram a loucura de expectativa. Dando crédito como merecido, a Marvel tem se esforçado muito para expandir a representatividade não apenas de seus personagens, mas também de seus autores – o que é algo sim, muito bom.

pantera negra

O que é curioso, porque o Pantera sempre ou foi um coadjuvante ou estava acostumado a lidar com vilões de segunda categoria – ou seja, não um material muito atraente para escritores de quadrinhos, que dirá de literatura. Mas, felizmente, Coates decidiu não apenas assumir o personagem, mas apresentar uma abordagem diferente – Uma Nação Sob Nossos Pés é muito menos um gibi de super-herói e muito mais um micro-estudo de política e cultura afro-descendentes no século XXI.

Essa não é a primeira vez que a Marvel aposta em um nome de gabarito vindo da literatura para dar estofo aos seus personagens – principalmente aqueles considerados menores. Nessa linha, nomes como Jonathan Lethen, nos anos 70, assim como G Willow Wilson mais recentemente, já cuidaram de revitalizar e reinterpretar alguns encapuzados da Casa das Ideias.

Agora, Coates, autor de livros como Between the World and Me e Case for Reparations – que são considerados importantíssimos para se entender relações raciais nos Estados Unidos depois da era Obama – e vencedor do National Book Award, um dos mais prestigiosos prêmios literários americanos, nos apresenta sua visão sobre o pioneiro herói negro. É claro que essa investida envolve o lançamento do vindouro filme, mas isso não interfere no fato de que a primeira edição bateu mais de 300 mil cópias vendidas. Ou seja, Coates já chega com gabarito.

O autor talvez seja o primeiro escritor de primeira viagem dos quadrinhos cujo catálogo seja praticamente todo de não-ficção – o que torna a alta qualidade do material ainda mais surpreendente. O arco durou quase um ano todo, dividido em 12 edições. A Panini acaba de lançar o livro dois de Uma Nação Sob Nossos Pés, que vai até o número 8, e esta resenha é baseada nesses dois primeiros números.

O Rei está nu

O reinado do Pantera Negra em Wakanda nunca foi muito questionado pelos seus escritores. E é este aspecto, tão simples, que parece inovador na sua interpretação de T’Challa. O arco segue os eventos pós-Guerras Secretas, mas se baseia em algo muito além – o fato de que, sendo o protetor untado de sua terra sagrada, o Pantera Negra parece mais preocupado com eventos e a condição de populações estrangeiras – particularmente a americana – do que o que acontece em Wakanda.

A HQ começa com o herói de joelhos, desmascarado, continua com uma revolta onde ele quase mata seus próprios cidadãos – em uma tentativa fracassada de fazer justiça – até chegarmos em uma misteriosa personagem com poderes psíquicos afirmando que o povo tem vergonha de seu rei. É salutar ressaltar que, embora seja parcialmente responsável pela revolta, essa personagem não criou o sentimento que a causou – a raiva do povo já estava lá para ser explorada.

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Após sua ausência durante essa calamitosa confluência de eventos, T’Challa encontra a si mesmo extirpado do ornamento legitimador que apenas um súdito pode conceder a seu governante: a fé. Despido, T’Challa precisa confrontar sua população, que questiona seu direito de reinar – e também, à la Robespierre e os sans culottes, de viver.

Em pura agonia, e enfurecido por aquilo que ele acredita ser negligência de seu rei, o povo wakandano se rebela contra seu governante (ainda que com aquela forcinha de bruxaria). Ao contrário de uma HQ comum, não fica claro se o aparentemente nobre protagonista T’Challa é realmente o personagem principal aqui. Suas ações não são claramente justapostas como “certas” contra o “errado” de seus detratores.

Em um determinado ponto, os chefes da nação cometem um deliberado e extenso abuso sexual contra as mulheres wakandanas – mais uma aproximação clara de Coates entre a utópica Wakanda da realidade do continente onde ela se localiza. Mas ali, isso gera uma micro-revolta feminista, mirando justamente o fato de que “nenhum homem deveria ter tanto poder”.

Estaria o Rei isento dessa afirmação? Ou as mulheres wakandanas também associam o rei com o patriarcalismo e misoginia que levaram a sua opressão? Não existem respostas fáceis aqui – e, introduzindo esse arco dentro da HQ, Coates habilmente adiciona uma camada de complexidade na sua história que ressoa poderosamente.

Esses conflitos externos contrastam com a turbulência externa que consome T’Challa, conforme ele avalia os meios de que ele dispõe para dissolver a rebelião. “Eu perdi minha alma”, diz ele, internalizando as mesmas palavras que o povo dirigiu a ele. Muitos irão concordar com a sua análise depois da batalha na montanha de vibranium, onde o Pantera Negra e seu exército esmagam brutalmente os dissidentes.

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É a velha distinção – que tanto aparenta hoje fugir a muitas pessoas – entre ditadores e governantes. Ditadores extraem seu poder do medo e da violência – T’Challa extrai o seu da afeição de seu povo e da aura mística que rodeia sua própria existência. Ao travar uma guerra em larga escala contra sua própria população, a deidade Pantera Negra deixa de existir.

O cursed spite / That ever I was born to set it right!

Esses conflitos internos atormentam o rei através de todos os dois primeiros volumes, mas, como deixamos claro, sua história não é a única a ser contada. Uma Nação Sob Nossos Pés realiza um ótimo trabalho na caracterização de seus coadjuvantes, que trazem outras perspectivas para os eventos em ação. Changamire, um professor de filosofia da Shule, uma universidade wakandana, é um dos melhores exemplos.

Seus discursos, na melhor tradição dos filósofos políticos, são um veículo de voz para aqueles que se debatem para compreender a arbitrariedade da ideia de monarquia – e, naturalmente, provocam a ira do Pantera Negra. Suas colocações exploram abertamente o fato de que, rei ou não, T’Challa não está acima da lei, e muito menos da moral e da ética.

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Enfatizando o abrangente escopo da série, o roteiro de Coates coloca T’Challa de lado de longos trechos de ação, focando-se em personagens como Ayo e Aneka, duas ex-Dora Milaje que estão fartas de “viver e morrer pelo direito de nascença de um homem”. São camadas e mais camadas de textos que, apesar de em alguns momentos escorregarem um pouco no excesso de pretensão épica, representam com clareza questões sociais e políticas tangentes a qualquer cidadão ocidental contemporâneo.

Visual digno dos reis

Os personagens são autênticos, as questões éticas que eles enfrentam parecem reais, e o mundo de Wakanda parece vivo. Crédito e méritos também precisam ser dados ao artista Brian Stelfreeze, cujo estilo e narrativa visual fogem ao comum – mesmo em momentos mais intensos e confusos como os de uma batalha, seu detalhamento de silhuetas e emoções é bastante vívido. Uma pena que a colorização não aproveite esse talento, sendo, essa sim, bastante ordinária e industrializada.

O destaque certamente fica pela caracterização de T’Challa. Muitas vezes, seu rosto ou está escondido pela máscara ou virado em relação ao leitor – um claro distanciamento do que ele representa em relação a sua realidade. Nós lemos a sofrida narração de T’Challa, mas, ainda assim, ele parece em cisma em relação a nós e, principalmente, a sua nação.

É uma maneira subversiva de olhar o Pantera Negra – e que demorou demais para surgir. A Marvel eventualmente abre suas portas para versões mais controversas de seus personagens. Mas é curioso notar que, apesar de tudo, essa não é necessariamente uma visão subversiva desse personagem. Pelo contrário – é a primeira vez que vemos esse rei sentindo o peso de sua coroa. Mesmo que esse esteja prestes a fazer sua cabeça rolar.

O rei está nu. Longa vida ao rei.

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