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Os Últimos Dias de Pompeo – Não apenas autobiográfico…

Os Últimos Dias de Pompeo

Os Últimos Dias de Pompeo

Há quem diga que o verdadeiro artista é alguém que exterioriza seus sentimentos em sua obra, sejam estes agradáveis ou não, variando apenas o grau de permeabilidade destes traços pessoais no resultado final. O italiano Andrea Pazienza é um bom argumento para esse conceito. Morto por overdose de heroína em 1988, aos 32 anos, o quadrinhista passou à História não apenas pela qualidade de seu trabalho, pois sua jornada de autodestruição é daquele tipo que mitifica o indivíduo. Os Últimos Dias de Pompeo é sobre um artista viciado em heroína, mas, ainda que seja inevitável a associação com a vida de seu criador, o álbum vai bem além deste caráter.

Lançado pela editora Veneta no fim de 2016, faz o favor de colocar o autor italiano em evidência para o público brasileiro. Até então, apenas HQ’s curtas dele foram publicadas na saudosa revista Animal. Pompeo foi originalmente publicado em seu país de origem entre 1984 e 1986, ganhando uma versão encadernada por lá logo após seu término. Caso você tenha acabado de ouvir falar de Pazienza, deve estar se perguntando por qual motivo ele e sua obra em questão são tão importantes.

Entre vários trabalhos de destaque, Andrea Pazienza foi um dos fundadores da lendária revista Frigidaire, que trazia quadrinhos underground, jornalismo investigativo, música, política e muito mais em um quadro anárquico de pautas. Foi responsável pelo pôster do filme Cidade das Mulheres, de ninguém menos que Fellini, e colaborou com Roberto Benigni no argumento de O Pequeno Diabo, que o comediante protagonizou em 1988. A versatilidade sempre foi uma marca, transitando entre o cartunesco e o realista. Aliás, essa é uma característica que encontramos em Os Últimos Dias de Pompeo.

Os Últimos Dias de Pompeo

Essa maleabilidade das imagens traduz a aura visceral do trabalho. Acompanhar a saga deste atormentado protagonista nos leva em uma viagem muito pessoal, onde suas 136 páginas nos mostram uma rara união orgânica entre texto e desenhos. Narrado como um diário, apesar de estar em terceira pessoa, e repleto de neologismos (tão necessários para traduzir a vida real), traz momentos incômodos, engraçados, tristes e transborda sinceridade, como se tudo isso tivesse sido traçado e escrito de uma vez só, sem qualquer correção posterior. A entrega do artista à obra está ali impressa como um testemunho que poderia se classificar como mórbido, mas apenas essa palavra não abrange o conteúdo, de forma alguma.

Conforme já foi possível perceber, é difícil encontrar critérios objetivos que possam ser expostos aqui para atestar as qualidades de Os Últimos Dias de Pompeo. Como no cinema de Lynch ou Jodorowsky, Pazienza corre à margem de determinadas classificações que obrigam uma análise diferenciada, então me perdoem os que acharem as palavras a seguir muito carregadas de subjetividade, mas é o que a obra provoca. Pelo menos, em minha humilde opinião.

O próprio título e a história de seu autor já me tiram a responsabilidade do spoiler, certo? O tormento que leva o protagonista ao seu derradeiro destino é igual ao meu, ao seu e o de qualquer ser humano na face da Terra. A questão não é e nunca foi sobre o ato do suicídio em si, direto ou indireto, pois o suicida, usuário de drogas pesadas ou não, tem mais em comum comigo e com você do que a maioria das pessoas está disposta a admitir. No fim das contas, ele é só alguém atrás de mudanças. Atire a primeira pedra aquele que não quer alguma neste exato momento.

Os Últimos Dias de Pompeo

Mesmo que a solução de Pompeo seja a mais radical e aquela que alguns preferem chamar de covarde, existe algo mais a considerar. A mudança individual não deixa de ser um renascimento/ressureição em um sentido psicanalítico, que – logicamente – envolve uma morte metafórica do Eu anterior. No caso do nosso personagem principal, e muitas outras pessoas reais, é o puro desespero que o leva a uma representação literal deste mesmo caminho. Evitar esse tipo de olhar sobre a situação é negar verdades incômodas sobre nós mesmos. Para mim, é aí que reside grande parte da força do trabalho de Andrea Pazienza.

Obrigatório para qualquer um interessado por quadrinhos, Os Últimos Dias de Pompeo não é para todos os públicos, definitivamente, mas todos deveriam lê-lo. Alargar os próprios horizontes sobre o potencial narrativo das HQ’s é um bom motivo, mas também pelo desafio de adentrar e interpretar essa trajetória conturbada do pobre Pompeo, confundindo-se com seu criador.

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