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Open Bar, Vol. 1 – A vida como ela é… nos quadrinhos!

Open Bar é a história sobre dois caras que poderiam muito bem ser nós mesmos

Este resenhista sabe que conviver com ele não é uma tarefa das mais fáceis. Uma pessoa de hábitos e apegada às suas memórias, “mudança” não deixa de ser uma palavra do seu vocabulário – mas lá embaixo, depois de pelo menos uma centena de outras. Esse é mais ou menos o mesmo problema de Barba e Léo, protagonistas de Open Bar, a webcomic de Eduardo Medeiros que ganhou forma física em 2015.

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Como alguém que já está avançando na casa dos trinta, eu entendo a pegada dos dois. Ao herdar o antigo bar de seu pai, Barba e seu camarada Léo decidem dar uma chance à nostalgia e tentar levantar o lugar. A tarefa em si já é difícil – quem mora aqui em São Paulo sabe como é complicado tentar fazer qualquer negócio engatar no meio da concorrência. Mas, sendo amigos desde sempre, eles têm aquela fé perene de que o outro é sempre capaz de se superar para ajudar com a situação.

Mas a maior dificuldade é que tanto Barba quanto Léo são mais ou menos como esse resenhista: cada passo que dão para frente, eles olham três para trás. O fato de que tudo o que os envolve, tanto ambiente quanto pessoas, exala saudosismo, não ajuda em nada os agora sócios na tentativa de levar o negócio para frente. Barba herda o bar após a morte de seu velho – um processo já meio traumático para qualquer um – e, ao passar por todo o interminável trâmite legal que envolve esse tipo de situação, ele chega bastante desgastado para assumir o lugar.

A HQ, como dissemos, egressa de uma webcomic, tem um caráter episódico, o que parece estender e dar peso às dificuldades enfrentadas pelos amigos. Nessa resenha, observamos o primeiro volume; o que não é tão importante, já que mesmo as histórias que o continuam têm a mesma pegada. Pontualmente, problemas ou questões relacionadas ao passado vão surgindo, e Barba e Léo precisam lidar com elas – o que não significa em absoluto que eles tenham total maturidade ou esclarecimento para tal.

Porque Open Bar não é uma história edificante ou um grande drama repleto de reflexões – é uma história sobre pessoas comuns, que têm dificuldade de amadurecer em alguns aspectos de sua vida e lidar com o fato de que esta só anda para frente; e o que fica para trás, ficou para trás. Tenho plena consciência da redundância dessa afirmação; mas, afinal, quem entre nós não age ou pensa – ao menos em alguma medida – moldado pelo passado?

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Drama e humor, laranja e cinza

Falando dessa forma, Open Bar parece uma HQ dramática, de tons lúgubres e instrospectivos. Não mesmo. É muito mais uma comédia sobre “adultecentes” – pessoas que forçam o limiar das suas responsabilidades quanto tempo puderem – e sua dificuldade em querer lidar com coisas que estão visivelmente além do alcance da sua maturidade. Eduardo Medeiros, o autor, em algumas entrevistas chegou a mencionar que a HQ possui tons autobigráficos. E quando vemos Barba e Léo em ação – ou falta – nos perguntamos: quem nunca…?

Medeiros tem um estilo de humor escrachado, cotidiano – sofisticação não combinaria muito bem com o estilo despojado – para não dizer meio escroto – e não muito intelectual dos dois amigos. Dessa forma, fica fácil para o autor fazer as mudanças necessárias de humor que a história pede. Como já são meio volúveis – reflexo da maturidade não muito desenvolvida dos dois – Medeiros consegue fazer com que os personagens fluam do humor meio boçal para situações mais dramáticas, sem exigir muito esforço do leitor.

A paleta de cores da HQ, definida pelo autor em colaboração com outro grande nome das HQ’s nacionais, Rafael Albuquerque – fundador do Stout Club, selo pelo qual Open Bar foi lançado originalmente – transmite essa alternância de humores, que se deslocam também na temporalidade da narrativa. Minimalista, a colorização tem dois pilares principais – laranja e magenta, representando o presente cheio de desafios e paixões; e o cinza, representando as memórias distantes – ou nem tanto – do passado.

Talvez o único “problema” da HQ esteja relacionada à um juízo de gosto desse resenhista velho e ranzinza: os desenhos, que evocam modelos cartunísticos modernos, muitas vezes prejudicam o aprofundamento emocional dos personagens – seja para o humor, seja para o drama. Embora a trama seja bem amarradinha – até por ser episódica e sem grandes pretensões – a escolha por esse estilo de desenho mais solta muitas vezes parece incongruente com o que a história propõe.

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Mas, novamente, é mais uma questão de gosto – não significa, em absoluto, que os desenhos sejam ruins. Ao contrário, dentro do que se propõe, Medeiros executa um trabalho bem interessante de linhas grossas e colorização chapada. Para quem gosta dessa escola mais recente de desenho profundamente influenciada pelo cartum americano, certamente vai se deliciar.

Open Bar é uma leitura frugal, sim, mas que reflete as características de seus personagens – sob a camada do óbvio, tem muita coisa com a qual é muito fácil se divertir e se identificar. Porque nem tudo que a gente lê, ou que a gente vive, precisa ter significados profundos, ou provocar grandes reflexões. Às vezes a vida é mais ou menos como pegar uma HQ qualquer e abrir para ler.

É só sentar e curtir.

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