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A Infância do Brasil – A triste história do Brasil pelos olhos das crianças!

Uma visão pouco habitual e visceral da história do Brasil

Paul Veyne foi um dos maiores historiadores do século passado. Em uma de suas obras de maior destaque, o primeiro volume de A História da Vida Privada, ele apresenta a história da Roma Antiga – amplamente conhecida por quase todos. Sabendo disso, ele deu uma abordagem interessante ao assunto: no lugar de dissertar sobre imperadores, guerra e monumentos, como quase toda apostila faz, ele decidiu apresentar a história gloriosa desse império pelo ponto de vista do cidadão comum.

Elevando aqueles que normalmente estão nas notas de rodapé dos livros ao papel de protagonista, ele criou um estudo sui generis do período, que até hoje é referência. De certa, A Infância do Brasil, a HQ nacional de José Aguiar, faz um papel análogo com a história brasileira.

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A história do Brasil, como a história de inúmeras outras colônias europeias, é uma história secundária; hoje, inclusive, uma mancha na história da atual civilizada e progressista Europa, normalmente deixada de lado, ou estudada com a condescendência de quem de quem admite a realidade do passado, mas se recusa a assumir a responsabilidade. Porque, afinal, a história, enquanto ciência – baseada em fatos e evidências – é primariamente um nexo causal de eventos que levam de um ponto A para um ponto B.

Conforme a HQ de José Aguiar, é um fato que o ponto A da história brasileira são as intenções do Império Português para nós. E qualquer um que tenha permanecido acordado nas aulas de história (ao menos nas minhas) tem plena consciência do que era o Brasil para Portugal – um imenso depósito de recursos naturais a serem explorados a um custo quase nulo, além de uma terra distante, do outro lado do oceano, para onde todos os indigentes e indesejados do império poderiam ser mandados.

Esses indigentes e indesejados formaram uma colônia de pessoas que não queriam estar aqui na maior parte do tempo – e que fizeram questão de fazer com que as que já estavam aqui – os nativos – fossem embora. Essa atitude nunca mudou. O povo brasileiro, transpassado o mito do homem cordial de Holanda, é um povo segregacionista, preconceituoso e autoritário – acostumado a uma terra sem lei e sem ordem, tornou-se um povo sem lei e sem ordem. O autor mostra muito bem isso na obra.

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Cismas de uma infância perdida

A única manifestação de um estado que já houve aqui é, quando resumida a um princípio elementar comum, bastante simples: aqueles que possuem poder – e normalmente abusam dele – e aqueles que não possuem nenhum. Esses últimos são fáceis de identificar: basta olhar para fora da sua janela e ver quais setores de população constituem os seus mais ricos e os mais pobres, aqueles que (efetivamente) tem mais direitos e menos direitos. No seu âmago, eu, você e Aguiar sabemos do que estamos falando.

No nosso cisma ideológico atual, sem dúvida os leitores mais ignorantemente conservadores já estão me rotulando “comunista”; assim como os mais ignorantemente progressistas deturparão minhas palavras para torna-las ataques planificados e tolos contra os primeiros. Apenas um reflexo da eterna chaga colonialista que nós nunca fechamos, e ainda sangra em todos nós. Uma inocência brutal, uma ingenuidade agressiva, uma ignorância perigosa, em um país onde todos tem certeza de estarem mais certos do que a pessoa ao lado.

Talvez por isso José Aguiar tenha escolhido como “protagonistas” de sua trama, dividida em arcos históricos que perpassam cada século de história do Brasil, as crianças. Pois, se somos um país cuja única ordem é definida através de escalas de poder, ninguém é tão despido deste quanto as crianças. É nesse ponto específico que dizemos que a HQ de Aguiar é “veyniana”: ele escolhe mostrar as eternas chagas de nosso povo no peso que elas exercem sobre aqueles que quase não tem força para supera-las – aqueles eternamente nas notas de rodapé de qualquer civilização.

O efeito dessa escolha é devastador. Século após século, nós presenciamos a dura realidade de abusos, sexismo, intolerância, preconceito e violência – de diversos tipos. Também desenhista, a escolha de Aguiar por uma arte cartunesca acaba tendo duas funções: respeitar uma longa tradição brasileira de arte nesse estilo, com grafismo que exaltam certas qualidades culturais brasileiras; mas também amenizar um pouco o impacto da história de cada criança que, se retratada de maneira realista, talvez fosse um pouco demais para a sensibilidade do leitor.

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Sensibilidade

E sensibilidade talvez seja a melhor palavra para definir o que é A Infância do Brasil. Porque não é uma obra de ficção pura – é uma ficção que emula a realidade de maneira acintosa, pelo ponto de vista de pequenas pessoas tão indefesas que fazem com que nós nos sintamos indefesos e impotentes contra aquilo que talvez seja um dos piores e mais insolúveis – diante do que é a natureza humana – que nós conhecemos: a desigualdade social.

Pois é um fato que a maneira como organizamos nosso estado, nossa economia e – por consequência – nossas estrutura de vidas particulares são absolutamente agressivas e não funcionais. Qualquer sistema que permita que pessoas passem fome simplesmente não funciona. Tenho plena consciência de que isso não é um absoluto, e que qualquer utopia é provavelmente impossível – mas isso não deveria nos eximir do dever moral de persegui-la.

Afinal de contas, não são pessoas como eu ou você, amigo leitor, que sofrem com as falhas e hipocrisias estruturais dos nossos sistemas socio-político-econômicos. São aqueles que nunca tiveram e nunca terão, por inúmeros motivos, acesso a esse texto. São aqueles que, muito provavelmente, dependerão da sorte para chegarem a ter idade suficiente para compreender que esses problemas existem. Aqueles que não pediram para nascer dessa forma e nessas condições, e, não obstante estando nesse mundo, ainda dependem de adultos que objetivamente não se importam com eles – que esqueceram que um dia estiveram em seus pequenos lugares.

Embora o próprio autor encerre sua obra com um capítulo que não é necessariamente fatalista – uma característica reservada aos ignorantes e arrogantes – oferecendo um pouco de esperança na capacidade da humanidade de melhorar e evoluir, ainda assim o resultado final são os olhos. Os olhos infantis bela e dramaticamente desenhados por Aguiar para nos lembrar de que as mentes por trás deles não entendem realmente o que está acontecendo. E que cabe a nós explicar o mundo a eles – e quiçá, ao menos nos esforçar para entregar algo melhor para eles quando – e se – chegarem a idade adulta.

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Grandes esperanças

Até pouco tempo atrás, eu era professor. Desisti da profissão quando finalmente admiti ser incapaz de desfazer o estrago que a ignorância adulta faz sobre suas pobres mentes. Ser incapaz de lutar contra a sedução de toda forma de ideologia, de crença – toda tolice nas quais adultos se escoram para se eximirem da responsabilidade de entender que o mundo é lugar mais complexo do que pode ser resumido em crenças binárias sociais, políticas e econômicas, e da parcela de culpa que cada um de nós tem sobre isso.

A história da Brasil é a história de algumas das piores qualidades que o ser humano tem a oferecer. Mas, felizmente, a natureza, em toda sua sabedoria, se encarrega de fazer com que o dano não seja permanente – os ignorantes cedo ou tarde vão embora, e novas gerações, carregadas de esperança, surgem. O Brasil, como sugere o título da HQ, ainda é um país jovem, saindo de sua infância e amadurecendo agora. Somos nós, adultos de um país infante, que iremos decidir que tipo de adulto esse país será – um ignorante ou um cheio de esperança.

Talvez nós devêssemos, como José Aguiar sugere em A Infância do Brasil, tornarmo-nos um pouco mais humildes, e construir uma nação melhor vendo o futuro pelos olhos daqueles que só conhecem este.

 

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