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Barrier – Uma HQ obrigatória para os dias de hoje!

A HQ Barrier é mais um ótimo trabalho de Vaughan e Martín

Brian K. Vaughan (de Os Leões de Bagdá e Doutor Estranho: O Juramento) é um cara que merece sua atenção. Não apenas pela sua qualidade como roteirista, mas também por sua coragem empreendedora ao lançar um site como o Panel Syndicate. Caso você nunca tenha ouvido falar, a coisa funciona da seguinte forma: HQ’s em formato digital são disponibilizadas por lá e você paga quanto quiser. Mesmo que coloque 0 no campo do valor, o download é liberado. Barrier, minissérie em cinco partes, teve seu último número disponibilizado em julho passado e é algo que você deveria ler.

Resenha da HQ Barrier, de Brian K. Vaughan e Marcos Martín.

Se você já acompanha o Formiga Elétrica há algum tempo, é provável que já tenha esbarrado em um texto sobre The Private Eye, primeira iniciativa de Vaughan no formato digital, ao lado do desenhista Marcos Martín e da colorista Muntsa Vicente. Um trabalho tão bacana que rendeu até outro artigo sobre um aspecto conceitual específico. Universe!, de Albert Monteys, também ganhou uma resenha e é imperdível. Em Barrier, o trio criativo de TPE se junta novamente, trazendo outra ficção científica, mais uma vez discutindo um tema bastante pertinente para o mundo de hoje.

“Blah! Não tenho tablet e não gosto de ler no celular…”

Calma! Não desista desta resenha por isso. Talvez você ainda não saiba que as HQ’s do Panel Syndicate não são simplesmente páginas pensadas para o formato impresso que viraram arquivos. A diagramação é feita com a imagem na posição “paisagem” ou invés de “retrato”, o que significa que é possível ler com certo conforto até em seu monitor widescreen. Além disso, pense em como é preciso elaborar um raciocínio narrativo diferente para essas histórias… Ainda não fui de todo convincente? Bom, agora eu posso falar das qualidades da nossa obra em questão.

Liddy é proprietária de um rancho no Texas, o que a deixa em uma posição sensível em relação à entrada de imigrantes ilegais no país. Oscar é um hondurenho que foge sozinho de seu lar depois de uma tragédia bárbara. A primeira carrega preconceitos bastante comuns, o segundo é uma vítima das circunstâncias, ambos encontrando-se na mesma situação quando são abduzidos por estranhos seres interplanetários, com uma linguagem incompreensível e inimaginável para qualquer ser humano. Ah, é claro que Liddy não fala espanhol e Oscar não sabe nada de inglês.

Resenha da HQ Barrier, de Brian K. Vaughan e Marcos Martín.

Páginas elaboradas para o formato widescreen

Humm… linguagem + alienígenas. Lembra o filme A Chegada, não é mesmo? Se alguém pensou em apropriação de ideias, esqueça, pois o #1 saiu ainda em 2015. Além disso, falando com bastante franqueza, Barrier é muito mais eficiente em sua proposição do que o filme de Denis Villeneuve, cujo roteiro peca na solução e cai no abismo da ingenuidade. Partindo de uma ousadia que tem tudo a ver com a temática, trata-se de uma história bílingue. Inglês e espanhol intercalam-se de acordo com o núcleo enfocado. Uma versão com tradução uniforme para outra língua tiraria o sentido da história.

Confuso? Explico. Essa HQ foi concebida, em um primeiro momento, para um público norte-americano. Qualquer dificuldade com a língua hispânica faz parte das intenções do roteirista, uma vez que as imagens dão conta das informações vitais, caso o leitor não saiba palavra alguma do idioma. Para outros lugares do mundo, vale o mesmo raciocínio. A noção do inglês, pelo menos, é essencial. Pensando em uma situação inversa, a lógica se mantém.

Proposta em harmonia com a execução

O choque cultural entre esses dois protagonistas alude a um problema comum de hoje em dia, o que poderia redundar em mais uma história sobre antagonistas que se unem frente a uma situação extrema. No entanto, existe bem mais aí. Trazendo mais informações em flashback sobre a jornada de cada um dos dois, conforme a história avança, Oscar e Liddy vão ganhando substância  enquanto conhecem um ao outro, o que vai aprofundando essa discussão para algo que não é apenas sobre imigração ilegal.

Até mesmo o fato de serem alienígenas a colocá-los juntos é um detalhe importante nesta estrutura. A concepção nada humanoide destes também não é gratuita, além de sua linguagem incompreensível deixar o leitor inquieto sobre as razões por trás de todo esse tormento infligido aos dois. Com as revelações do final, Vaughan reafirma o sentido de ler Barrier com seu texto original bilíngue. Também nos mostra que o problema da falta de comunicação entre nós está longe de ser explicado com maniqueísmo fácil, revelando-se uma espécie de fractal quando olhamos de longe.

Resenha da HQ Barrier, de Brian K. Vaughan e Marcos Martín.

Essa ficção científica das boas é valorizada pela arte estilizada e dinâmica de Marcos Martín, cuja performance está bem à altura do trabalho anterior, convencendo nas detalhadas paisagens e criaturas alienígenas.  Em matéria de narrativa, a HQ flui fantasticamente em suas boas jogadas para indicar a passagem do tempo simultânea em dois locais, entre outros momentos. O uso de onomatopeias e a escolha de alguns planos de detalhe também são fatores muito chamativos, tudo isso auxiliado pela colorização sóbria e eficiente de Muntsa Vicente.

Brian K. Vaughan fez de novo, entregando algo que nos faz pensar sobre nossa situação atual. The Private Eye era sobre a privacidade na era digital. Barrier se mostra uma obra irmã, apesar do foco na questão da imigração. O ponto é que o questionamento sobre como a internet modificou a vida das pessoas na primeira obra encontra uma intersecção no assunto da comunicação na segunda. Afinal, as facilidades que temos hoje poderiam ter servido para diminuir a distância entre as pessoas, acabando com vários preconceitos. Infelizmente, o mundo está aí para mostrar não foi assim que aconteceu… até aqui, pelo menos.

Não deixe de ler e refletir. Se puder, contribua com qualquer valor com e continue acompanhando o Panel Syndicate. Já tem HQ nova rolando por lá…

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