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Fragmentos do Horror – O surreal a serviço do medo!

Fragmentos do Horror e a linguagem universal do medo

Qualquer um que já tenha conferido algo do terror asiático, em qualquer mídia, sabe que tem algo bem diferente ali, se comparado com o que é produzido no Ocidente. Não é uma questão de ser melhor ou pior, mas constatar que um ambiente diverso produz um inconsciente coletivo diverso. Mesmo assim, existem trabalhos nipônicos com o poder de acessar certas áreas sombrias na mente do público deste lado do globo. O mangá Fragmentos do Horror (Ma No Kakera) é um exemplo disso.

Resenha de Fragmentos do Horror, da DarkSide

Fragmentos do Horror

Criação do aclamado Junji Ito, reconhecido e prestigiado como autor de terror, é uma coletânea de oito histórias, distribuídas em cerca de 240 páginas. Os pequenos contos nos apresentam situações incomuns para qualquer narrativa, mas o estranhamento é potencializado. Afinal, algumas coisas que parecem cômicas são usadas, com sucesso, para incomodar e assustar. Um desses casos é uma mulher sentir-se sexualmente atraída por uma casa.

O surreal que permeia toda edição traz uma curiosa sensação. A leitura de Fragmentos do Horror não toma muito tempo, com uma situação bizarra aumentando a curiosidade pela próxima. Se lido antes de dormir, provoca no dia seguinte o questionamento se aquilo tudo estava mesmo nas páginas ou se fez parte de um sonho. Na verdade, é exatamente como se fosse mesmo um estranho pesadelo, daqueles que demoramos a esquecer. Uma qualidade que a maioria dos escritores de horror aspira, mas poucos conseguem.

O absurdo faz parte deste universo, de uma forma que estamos mais acostumados a ver no cinema. Se falar de narrativas surreais já evoca o nome de David Lynch, talvez um cineasta que tenha mais a ver com o mangá em questão é David Cronenberg. O canadense já foi chamado de “Mestre do Escatológico” por motivos óbvios e algumas das premissas de Junji Ito parecem saídas da cabeça dele. A moça que leva sua obsessão em dissecação às últimas consequências daria um belo filme. Aliás, o romance de Cronenberg, Consumidos, tem personagens que não se sentiriam deslocados nas histórias de Ito.

Uma influência evidente e assumida é H. P. Lovecraft, cuja obra é marcada pela presença de forças que desafiam a sanidade de seus personagens. Como nos escritos do norte-americano, o mangá tem protagonistas que precisarão rever seus conceitos de possível e impossível, confrontados com um sobrenatural muito mais próximo do que desejariam.  Até mesmo o arquétipo materno é transformado aqui em uma aberração abjeta.

Resenha de Fragmentos do Horror, da DarkSide

Traço preciso e narrativa que assusta

Até aqui, os comentários ficaram restritos ao estranhamento e bizarrice de certas situações. Claro, são pontos que fazem diferença, junto ao conteúdo mais explicitamente escatológico, que provoca até nojo puro e simples. Mas é preciso mais quando o objetivo é causar medo sem perder o ritmo.

O autor mostra seu domínio narrativo nos momentos em que o terror irrompe nas páginas após a construção do suspense. Coisas inomináveis que estão à espera da descoberta dos personagens, e dos leitores, ao virar a página. Um recurso que valoriza demais até as histórias mais fracas da coletânea, como a primeira, onde um rapaz, misteriosamente, se recusa a sair do futon.

É exatamente aí que a imaginação de Junji Ito mostra sua cara, seja escancarando as portas de uma dimensão doentia ou revelando as entranhas de um cadáver. O traço limpo funciona muito bem, tanto nas cenas de normalidade quanto nos momentos em que as bizarrices com detalhes medonhos aparecem, sem poluir as páginas.

Sobre essa arte, também é necessário elogiar a imagem da capa, referenciando a obra de Edvard Munch. Ali já está indicado o que encontraremos no miolo, dando a exata ideia da loucura e conteúdo psicologicamente perturbador. Uma promessa que se cumpre e recompensa os admiradores do estilo.

O autor pede desculpas

No posfácio, Junji Ito explica que estava há oito anos longe do gênero que o consagrou. Fragmentos do Horror foi publicado originalmente em 2014. Por conta deste afastamento, ele admite que foi um tanto difícil essa retomada. De fato, existe uma certa irregularidade neste conjunto. Ele cita diretamente a que abre a edição, a já mencionada “Futon”.

Ainda que isso comprometa um pouco uma avaliação final, de forma alguma seria possível classificar qualquer uma dessas histórias como ruim. É somente na comparação entre elas que isso acaba pesando. Uma ou outra talvez até pareça ingênua e previsível, sem qualquer pretensão de assustar, mas isso é compensado no restante, muito acima da média.

Resenha de Fragmentos do Horror, da DarkSide

A edição da DarkSide

É fato que a DarkSide é uma editora conhecida por um projeto gráfico arrojado, seja em livros ou quadrinhos. Como isso é diretamente relacionado ao preço, e Fragmentos do Horror não é exatamente barato, pessoalmente, eu sempre questiono a validade deste tipo de iniciativa. Não haveria o menor problema em publicá-lo em capa comum, diminuindo o custo repassado ao consumidor.

Mesmo assim, é preciso reconhecer que a edição é linda, com um relevo sutil percebido de perto. Difícil resistir quando você a tem em mãos e percebe que o preço é justificado por esse capricho e pela qualidade incontestável do conteúdo.

Seja você conhecedor, ou não, do terror nipônico e da obra de Junji Ito, Fragmentos do Horror é recomendável em vários níveis. A aquisição vale a pena, até por estimular a publicação de outras obras dele por aqui.

O que, aliás, já estamos ansiosos para que aconteça.

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