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Uma Mente Brilhante – Entrevista com Alan Moore (FINAL)

Finalmente, a conclusão desta conversa com o cidadão mais ilustre de Northampton.

PRIMEIRA PARTE

SEGUNDA PARTE

E arte é uma forma de direcionar conscientemente essas entidades?

AM        Sim, arte ou magia.

Mas como a prática da magia se transforma na prática da escrita ou arte? Por quais meios alguém conjura magicamente um personagem numa peça de ficção?

AM        Não creio que realmente exista alguma diferença entre arte – ou escrita, ou música e magia, e eu particularmente tracei a ligação entre magia e escrita. Eu acho que elas estão profundamente conectadas. E na escrita, criando um trabalho de ficção, há uma incrível demanda de concentração ou foco.  Se você está criando personagens que são mais que humanos nos termos de suas consciências, se está criando um deus do pântano ou um semideus quântico como o Dr. Manhattan, na tarefa de representar os pensamentos destes personagens você deve meio que projetar a si mesmo num estado transhumano, o que você pode fazer com ficção.

Não creio que realmente exista alguma diferença entre arte – ou escrita, ou música e magia, e eu particularmente tracei a ligação entre magia e escrita.

Mas agora você parece estar dizendo que magia é puramente uma expressão da imaginação e não possui outros atributos.

AM        Magia e arte tendem a compartilhar muito da mesma linguagem. Ambas falam de evocação, invocação e conjuração. Se você está tentando conjurar um personagem, então talvez deva tratar isso com o respeito que você teria se estivesse tentando conjurar um demônio. Se uma imagem de um deus é um deus, então em certo sentido a imagem de um demônio é um demônio. Estou pensando em pessoas como Malcolm Lowry, o primoroso autor do livro Under the Volcano*. Existem demônios cabalísticos à espreita através de todo Under the Volcano, e eu presumo que são provavelmente forças similares àquelas que eventualmente oprimiram a vida de Lowry, como a bebedeira e a loucura. Quando ouço alcoólatras falando sobre terem seus demônios, imagino que provavelmente estão absoluta e literalmente certos.

*N.T.: Sem edição brasileira, mas você já desconfiou, não?

Bem, Carl Jung comentou que não achava que fosse coincidência a palavra em latim para álcool ser Spiritus.

AM        Bem, isso certamente faz sentido. Quando filmes de horror modernos ou fundamentalistas falam sobre “demônios”, querem dizer algo muito diferente do que Sócrates quando usava o termo. Isso chegou muito perto do que eu estava falando: o driver essencial, o self* superior se preferir. Então talvez haja uma ligação, quando eu conheci, ou pareceu que conheci, um demônio. Foi um pouquinho assustador a princípio, mas após um tempo percebemos que estava tudo OK e pudemos ter uma conversa civilizada, e eu achei-o muito interessante, muito agradável. Pareceu-me que este foi um brilhante exemplo literal do processo de demonização. Quando me aproximei do demônio com medo e repugnância, ele era assustador e repugnante. Quando me aproximei com respeito, ele era respeitável.  E eu pensei, tudo bem, existe um tipo de espelhamento acontecendo aqui, que é possivelmente aplicável a um grande número de situações sociais. As pessoas ou classes de pessoas que demonizamos e tratamos com medo e repugnância, respondem de acordo. Estamos projetando uma persona comportamental sobre eles, assim como respondendo a um comportamento que já esta lá. Quando olhamos para as falhas em suas personalidades que somos capazes de reconhecer, o fato de reconhecermos isso sugere que são, de alguma forma, versões das falhas que nós mesmos possuímos.

*N.T.: Muito conhecido é o uso jungiano do termo. Segundo Carl Gustav Jung, o principal arquétipo é o Si mesmo (ou Self). O Si mesmo é o centro de toda a personalidade. Dele emana todo o potencial energético de que a psique dispõe. É o ordenador dos processos psíquicos. Integra e equilibra todos os aspectos do inconsciente, devendo proporcionar, em situações normais, unidade e estabilidade à personalidade humana.(Fonte: Wikipedia)

Então ao escrever, se você está tentando dar vida a um ser metafísico ou alguém vivendo numa vizinhança pobre, a menos que você possa cria-los com compaixão e compreensão, eles nunca serão personagens críveis de outra forma.

Quando olhamos para as falhas em suas personalidades que somos capazes de reconhecer, o fato de reconhecermos isso sugere que são, de alguma forma, versões das falhas que nós mesmos possuímos.

AM        Certo, o personagem será limitado, então você também será. Quando eu estava fazendo V de Vingança anos atrás, e comecei a introduzir chefes nazistas neste estado totalitário no futuro longínquo de 1997, eu estava marchando contra a Frente Nacional e participando das marchas do Rock Contra o Racismo, e percebi que eu não poderia retratar nazistas apenas como caras malvados, pois todo mundo sabe disso e aí você não estará dizendo nada. Você estará contribuindo para o mito de que eles estão de alguma maneira, separados do resto da humanidade, e eles não estão. Os nazistas eram seres humanos comuns apanhados em algo muito ruim e, naquele momento, sem precedentes. Isso não é desculpa para este comportamento, obviamente ; é simplesmente salientar que não se preste nenhum serviço para demonizar algum grupo de pessoas. É muito melhor tentar entender por dentro.

Havia uma cena em Promethea onde a personagem é confrontada por uma horda de demônios, e a forma que ela decide lidar com eles é possuindo-os, identificando as qualidades de cada um e dizendo “Sim, eu fiz isso. Sim, eu aceito a responsabilidade por isso”, até o ponto em que ela fisicamente come o demônio o qual ela está se referindo. Uma grande parte da magia é sobre ir em direção aos seus próprios termos individuais com o universo, que equivale a dizer a si mesmo que a totalidade do universo, que é observável para você ou para mim, é o que existe realmente dentro de nossas cabeças. E caminhar para a compreensão destas coisas me fez um pouco maior, porque naquele momento, uma parte da minha mente poderia olhar com compaixão para uma classe de pessoas de uma forma que eu nunca havia sido capaz. Não para gostar deles, mas compreende-los.

Compreendendo a maldade dos "vilões"

Compreendendo a maldade dos “vilões”

E você cogita revisitar algumas dessas ideias sobre magia em uma HQ, ou sente que já encerrou o assunto nessa mídia?

AM        Bem, há um livro de magia no qual eu e Steve Moore estamos trabalhando lenta e laboriosamente sempre que estamos juntos. Mas estamos com cerca de metade a dois terços do trabalho completo. Tem algumas partes que são em forma de quadrinhos, apesar de sua maioria ter diferentes formas ilustradas: histórias ilustradas, vários tipos de coisas fofas como um jogo de tabuleiro kaballah ou um conjunto de cartas de tarot. Então, eu não descartaria usar quadrinhos como forma de instrução mágica, pois acho que eles são um meio ideal para isso.

Nesta era de websites, blogs e tweets, o que fez você dizer “Quero fazer um fanzine impresso”, e publicar Dodgem Logic?

AM        Eu estava trabalhando com alguns garotos do meu antigo bairro, a vizinhança que é o assunto principal de Jerusalem. Eu estava trabalhando com um bando dos chamados “jovens infratores” de Burrows, que é nome deste bairro, pelo menos informalmente. Como um velho infrator de Burrows, eu senti que poderia dar muito certo. Eles estavam fazendo um filme sobre a história da região, e me perguntaram se eu queria participar, então conheci o grupo  e a sua líder, uma jovem artista de grafitti. Eu estava incrivelmente impressionado. Ela estava trabalhando com essas pessoas como assistente social e fazendo um trabalho incrível por todo bairro. Sou um chato tradicional dos anos 60, mas eu disse a eles como era a cena artística em  Northhampton quando eu tinha dezessete anos, e como fazíamos um par de fanzines a cada mês – revistas de poesia, de arte – e em algum lugar de toda essa verborragia, algo deve ter tocado esse grupo de garotos, porque eles acharam que poderíamos fazer uma revista.

Dodgem Logic #2

Dodgem Logic #2

Agora eu posso encontrar a revista aqui, numa loja de quadrinhos em Cambridge, Massachusetts.

AM        Bem, isso é ótimo. Chegamos ao ponto com a edição oito em que, por termos recusado publicidade e pelos custos de produção tão altos, não estava funcionando. Eu estava perdendo uma grande quantia de dinheiro. Não me arrependo de nada disso, pois Dodgem Logic era uma linda revista e eu estava realmente orgulhoso dela. Uma vez que as coisas estão um pouco mais nos trilhos de novo, ainda temos esperança de reintroduzi-la como uma revista impressa. Havia alguma possibilidade de retoma-la como revista digital, que soava como um plano viável. Mas então, eu vi uma revista digital e isso me encheu de uma tristeza indescritível. Fez com que todo aquele tipo de coisas fofas não tivesse mais nenhum significado.

Você não parece fazer parte do circuito de convenções, que é a forma da indústria de quadrinhos manter contato com os fãs. Mas você também não me parece particularmente tímido.

AM        Não, eu não sou uma pessoa muito tímida. Sou apenas alguém que tem um monte de trabalho e não gosta de desfilar nesse contexto de novas celebridades. Por isso não gosto de ir a convenções, nem de me relacionar com as pessoas num nível de adoração, pois não há comunicação real acontecendo nisso. Prefiro falar com as pessoas no mesmo nível. Então, não, não sou tímido, mas também não estou em busca de publicidade.

O que você gostaria que acontecesse com seus papéis quando você morrer?

AM        Eu já perdi a maioria, poupando futuros biógrafos do problema do que fazer com eles. Então, é isso.

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