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Brian K. Vaughan, The Private Eye e a vida dos outros!

The Private Eye

O projeto digital de Brian K. Vaughan e Marcos Martín, The Private Eye, já chegou ao fim há algum tempo com seu décimo número. Seria redundante comentar o trabalho geral como uma resenha, já que há quase dois anos, quando a série encontrava-se exatamente na metade, publicamos uma análise geral do que tínhamos até ali. Neste caso, não há motivo para falar de novo sobre as qualidades do roteiro e da arte desta HQ, mas é preciso acrescentar que sua segunda metade mantém o alto nível. Ótimo, mas isso de forma alguma esgota o assunto proposto ali e você não precisa preocupar-se com spoilers a seguir, caso ainda não a tenha lido.

Para quem ainda não sabe do que se trata, Vaughan disponibiliza essa e outras HQ’s  em seu site, Panel Syndicate, onde o usuário paga quanto quiser pelo download de cada edição, ou o pacote delas, escolhendo o formato do arquivo e entre as línguas opcionais há o português. The Private Eye mostra um futuro (discutivelmente) distópico, onde um colapso inexplicado na internet expõe a intimidade de muitas pessoas, tornando tudo – email’s, nuvens, históricos de busca, etc. – acessível a todos, destruindo vidas e fazendo a sociedade repensar o conceito de privacidade. Neste contexto, por volta de 2076, a rede mundial não existe mais e o direito inalienável de qualquer cidadão é a inviolabilidade de sua vida particular, permitindo até mesmo a adoção de identidades secretas, com o uso liberado de máscaras no dia-a-dia. A Imprensa é agora responsável pela investigação de crimes e aplicação geral da lei, o que acaba colocando os paparazzi no lugar rasteiro ocupado antigamente pelos detetives particulares.

The Private Eye

Sabiamente ambientado em uma cidade um tanto confusa quanto a esses limites, Los Angeles, outra subversão deste futuro é a sua aparência, com uma profusão de cores decorrente da liberdade das pessoas usarem suas fantasias. Brian K. Vaughan também tomou o caminho inverso no conceito, pois elaborou um futuro onde o que manda não é a vigilância excessiva, como 1984 e seus (muitos) congêneres, muito pelo contrário. Além de tudo isso, outra jogada muito esperta deste roteiro está em levar o leitor a refletir sobre como seria um futuro sem internet, uma ideia que o roteirista parece defender no início, porém, conforme a narrativa avança, percebemos que ele também dá argumentos para o outro lado e o leitor é quem deve julgar.

Como muitas boas ficções científicas, esta história nos leva a refletir sobre o presente, mas imaginando o que pode vir a seguir. Muito provavelmente, esta discussão pode até parecer sem sentido para uma geração que já nasceu com as facilidades indiscutíveis da web, mas tudo que se originou a partir dela merece um olhar mais crítico. Em uma entrevista famosa de Isaac Asimov, o escritor previu a rede e como ela poderia democratizar o aprendizado em qualquer área, mas certamente ele não associava sua visão com a ideia do Panóptico, elaborada pelo inglês Jeremy Bentham e debatida por Foucault. Inicialmente pensado como um sistema penitenciário, a edificação contaria com uma torre central, que seria o ponto de observação em um complexo circular de celas, permitindo ao vigilante observar de forma oculta. Sem que os internos saibam para onde o olhar do observador se dirige, a ordem é garantida pela incerteza. O problema é que perceberam que o mesmo princípio poderia ser aplicado em escolas e ambientes de trabalho.

O Panóptico!

O Panóptico!

Um ponto que The Private Eye parece tocar diz respeito às ferramentas da Sociedade de Controle. Não tão diretamente, já que sua trama pode tranquilamente satisfazer quem procura apenas uma boa aventura, mas a coisa vai além através das convicções de alguns personagens. Quando percebemos os ideais por trás do assassinato que dá início à trama, e os contra-argumentos gerados consequentemente, Vaughan coloca na mesa o potencial alienante das “diversões” e dos acessórios da era digital, com suas funções de vigilância dissimuladas. Ele parece querer dizer algo um tanto óbvio, embora incômodo, sobre a entrega voluntária das pessoas ao nosso Panóptico do dia-a-dia, uma ideia que provocaria arrepios em qualquer otimista do passado em relação ao conceito de internet. Quem já estava por aí aceitou tão bem, então pior para uma geração sem o referencial do passado.

The Private Eye

Se por um lado a história parece afirmar que a inexistência de um ambiente virtual diminuiu o ócio criativo, permitindo algumas conquistas científicas notáveis, por outro, a própria inversão proposta na HQ também cria uma espécie de patologia social inversa, ideia que não é mais desenvolvida ali por não ser esse o foco. Pare para imaginar o que você ou seus amigos fariam, ou seriam tentados a fazer, com a garantia institucional do anonimato, acreditando firmemente que isso é um direito assegurado a todos. Sutilmente percebemos que ficção e realidade são dois extremos de uma linha reta aqui, mas ele não aponta um lado como melhor que o outro. Ainda que ao final possa dar a impressão de que o discurso pende para um libelo contra a internet, a maior ironia se apresenta quando nos afastamos um pouco para enxergar o cenário todo.

O trabalho de Brian K. Vaughan e Marcos Martín não foi bancado por uma grande editora. Ele só existe e chega até seu público graças à mesma plataforma questionada em suas páginas, além de seu formato elaborado para dispositivos que só surgiram por causa da web. The Private Eye acaba por transcender a limitação de seu texto e do espaço de sua arte, jogando com o meio em que o trabalho é distribuído de uma forma que não parece mesmo ter sido acidental. Isso só aumenta seu valor como obra, se estabelecendo como uma reflexão valiosa sobre o tempo que vivemos e uma especulação extrapolada, mas pertinente, do que pode vir por aí, incluindo também o futuro dos quadrinhos nos quesitos produção e distribuição. O faturamento é animador!

The Private Eye

Instigante pelas reflexões que provoca, o mundo de The Private Eye é tão rico que, mesmo terminada a história, ficamos com vontade de explora-lo e observar seus habitantes mais um pouco e isso é um grande elogio para qualquer criador. Em mais uma ironia bem sacada, Vaughan e Martín estimulam o lado voyeur do leitor… Mais um tópico para uma discussão que vai longe.

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