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Aquaman: Os Outros – Levando o personagem a sério!

Aquaman: Os Outros

Aquaman: Os Outros

Que me desculpem os fãs do personagem, mas Geoff Johns tornou Aquaman um personagem a ser levado a sério. E não levante essa sobrancelha para mim. Você também já fez piada com o sujeito que cavalga golfinhos, mas o ponto é justamente esse: quero ver você rir com essa fase do Rei de Atlântida da DC. No arco Aquaman: Os Outros, publicado recentemente pela Panini no Brasil, o homem da camisa laranja chuta bundas. Para valer!

Seguindo a estrutura iniciada em Os Abissais, Geoff Johns mantém o seu padrão de trabalho com personagens da DC – expandir sua mitologia pessoal para explorar as possibilidades que o personagem oferece. Nesse aspecto, não é exagero dizer que Johns se encontra em uma categoria, ali junto com Kurt Busiek e Mark Waid, de escritores que não apenas escrevem super-heróis, mas os entendem de verdade. Ele sabe criar os desafios para manter o interesse na figura do herói, mas sem de alguma forma diminuí-lo ou quebrá-lo.

Quem acompanhou a fase do escritor em Lanterna Verde, um personagem com uma mitologia já muito vasta e rica, viu como o escritor a expandiu ainda mais, com tremenda qualidade. Era natural que com um personagem como o Aquaman – que apesar de clássico, nunca recebeu a atenção devida entre os grandes escritores – fosse surgir um trabalho digno de destaque no meio dos super-heróis. O mais curioso é que, quando se descreve a trama, pode-se pensar em uma história padrão de um personagem menor, insossa e escrita às pressas. Mas calma lá, amigo leitor. Dê uma chance ao Peixoso de Johns.

Uma relíquia de grande poder foi roubada e a personagem Kahina foi morta no processo. Aquaman, ao investigar o ocorrido com a ajuda de Mera e do Professor Shin, descobre que o Arraia Negra estava envolvido. Ao desenvolver a trama, Johns nos revela que, muito antes da era dos heróis, Aquaman havia feito parte de uma equipe informal de heróis conhecida como Os Outros, detentores de artefatos de imenso poder. Logicamente, Arraia Negra está atrás desses artefatos e cabe a Arthur Curry e seus companheiros correr contra o tempo para impedir o vilão de encontrar os artefatos e, consequentemente, causar um imenso estrago com eles.

Aquaman: Os Outros

Eu disse, a trama parece boba. Mas é aquela velha história – coisas simples, na mão de quem sabe o que está fazendo, ainda pode render bons frutos. E Johns é uma dessas pessoas. O que parece uma estrutura narrativa simplista, é na verdade um background para se desenvolver aspectos do personagem que sempre estiveram ali, mas nunca foram bem explorados. Exemplo disso é o jogo narrativo que o autor faz – parcimoniosamente, importante frisar – entre eventos correntes e momentos do passado do Aquaman, não apenas tornando o personagem mais complexo, mas também seus coadjuvantes.

Talvez o vislumbre mais contundente disso é a maneira como seu relacionamento com o Arraia Negra sai aprofundado desse volume. É como se nós nunca, de fato, tivéssemos visto esses personagens em conflito e o porquê de eles serem inimigos. Fazer com que um personagem septuagenário – que, incidentalmente, completou 75 anos em 2016 – pareça novo ao público é a marca de um bom escritor. O amigo leitor mais crítico pode questionar se um personagem inserido dentro do contexto dos Novos 52 pode prestar. Não é que estejamos defendendo essas porcarias de reboots. Essa história poderia muito bem ter sido escrita em qualquer outro momento da história recente do personagem. Mas às vezes as mudanças de ares editoriais funcionam para alguns personagens que tendem a ficar relegados a um segundo plano – mesmo motivo pelo qual é difícil trabalhar medalhões como o Superman, fadado há muito tempo a arcos apenas medianos.

Ou não – se pode dizer que apenas quem dá a sorte de cair nas mãos de Johns, como o Laterna e o Aquaman, acaba se dando bem. Mas mesmo esses dependem da boa inspiração desses sujeitos. Meu ponto é: no momento em que estão os super-heróis, no geral, é uma roleta russa. Toda vez que uma nova equipe criativa assume, pode vir algo genial como pode vir uma porcaria, com a última superando a primeira em quase uma chance a cada dez.

Deixando o azedume de lado, também temos que mencionar outro trunfo do arco – a arte de Ivan Reis. Embora ainda se debata para oferecer uma arte que se destaque em meio aos grandes desenhistas, não se pode dizer que Reis não cumpre expectativas. Muito pelo contrário. Seu traço busca o mesmo tipo de perfeccionismo – embora os prazos não permitam que se equipare – daquele que vemos nos desenhos de Bryan Hitch. Com um imenso volume de elementos em cada quadro, Reis supera uma recorrente dificuldade de muitos desenhistas – tornar a imagens ricas sem polui-las. A transição de ambientes também é feita com clareza e riqueza de detalhes, não fazendo com que a tour do Aquaman e seus amigos ao redor do mundo pareça algo genérico. E não poderíamos deixar de destacar um dos elementos que mais chamam a atenção na HQ: os visuais dos personagens. O próprio visual do Aquaman já carrega uma leve mudança, fundindo as escamas do uniforme clássico à ideia de uma armadura dourada, notabilizando a nobreza e ao mesmo tempo o heroísmo do personagem. Alterado sem ser desfigurado. Ponto para Reis.

Aquaman: Os Outros

A cereja do bolo é o vilão, Arraia Negra. Um visual limpo, simples, mas ameaçador. A mistura da narrativa criativa de Johns e o aspecto impactante do traço de Reis formam um inimigo a se temer. Particularmente, sempre achei que os vilões do Aquaman sofrem do mesmo mal do personagem – são todos meio bobos. Mas nas mãos da dupla, nós temos realmente um embate definitivamente interessante.

A crítica que se pode fazer em relação a arte está na colorização e na arte-final; mal de praticamente toda HQ de continuidade contemporânea, salvo raríssimas exceções, elas simplesmente não se entendem. A arte final tenta contemplar os detalhes e a riqueza dos desenhos de Reis, mas simplesmente não se encaixa com as cores, que, como sempre, são chapadas e com focos de luz estranhos. É como se essa parte dos artistas quisesse que tudo pareça realmente muito artificial, tirando um pouco do impacto dos desenhos de Reis. Não que isso seja absolutamente prejudicial, mas o leitor mais calejado sabe que dá para fazer coisa muito melhor.

Não obstante, ainda no campo da crítica, os valores pedidos aqui pela editora local. Simplesmente estão em completo desacordo com a realidade do leitor. Sabemos dos custos envolvidos, mas dá para ser mais barato. É claro que, sendo um arco digno de lembrança do personagem, ele merece o melhor tratamento possível, mas fato é que, por mais que Aquaman: Os Outros seja interessante, ele ainda depende do contexto de Os Abissais para ser completamente compreendido, e as consequências de Os Outros, obviamente, se estenderá para os arcos subsequentes. Ou seja, é paulada atrás de paulada no bolso do amigo leitor – que faria inveja até ao Negan – se ele quiser ler a bagaça inteira. E poupem-me do cinismo do argumento “as mensais estão aí para isso”. Tem que optar entre diminuir a qualidade do volume para abaixar o preço ou socar o valor lá em cima e entregar um negócio de luxo? Abaixa o preço.

Afinal de contas, nem todos nós somos lordes dos nossos próprios impérios submarinos para ficar esbanjando por aí.

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