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Afrodite – Quadrinhos Eróticos | Amor às HQ’s em tempos de cólera!

Afrodite – Quadrinhos Eróticos é um dos retratos da resistência

Qualquer um, que não tenha dormido nas aulas de história do colégio,sabe que o período da ditadura militar no Brasil foi marcado por diversas características, como repressão e censura. Surgiram grandes artistas nesse contexto, sempre considerados “subversivos” quando, explícita ou sutilmente, contestavam a ordem moral dos generais. Fosse na música, no cinema ou no teatro, diversos talentos prosperaram nesse período de dificuldade.

afrodite quadrinhos eroticos - editora veneta

Afrodite – Quadrinhos Eróticos (Editora Veneta)

Para os quadrinhos, uma arte intrinsecamente marginal, a coisa foi um pouco mais difícil. A censura pesou para a nona arte, visto que quadrinhos no Brasil são tradicionalmente associados às charges e tiras cômicas, formas que visam mais a sagacidade de mensagens curtas do que o desenvolvimento narrativo associado às grandes obras, tornando a produção nesse período esparsa e parca. Sendo assim, devemos relembrar e celebrar aqueles que conseguiram fazer algo nesse contexto, como verdadeiros heróis da resistência das HQ’s. é exatamente esse o recorte histórico em Afrodite – Quadrinhos Eróticos.

Ao lermos o álbum lançado pela Editora Veneta em outubro deste ano, devemos manter esse contexto em mente. Uma compilação de contos eróticos gráficos, a obra reúne desenhos de artistas conhecidos do cenário nacional, como Claudio Seto e Julio Shimamoto, sob a batuta dos roteiristas Paulo Leminski e Alice Ruiz. Todos foram publicados, de forma surpreendentemente bem sucedida, em revistas da antiga editora curitibana Grafipar, no final dos anos 70.

(Falando em editora Veneta e quadrinhos eróticos, dê uma olhada também na resenha de Giovaníssima!)

Surpreendente por dois fatores: primeiro, falamos do período da ditadura, em que já estabelecemos o peso da censura e do cerceamento da liberdade dos autores; segundo, por se tratar de edições voltadas ao público feminino que, ao contrário do padrão editorial da época, celebravam abertamente o feminismo, chegando ao ponto de exibir o nu masculino. Imagine a cara dos milicos quando se deparavam com uma revista dessas.

Claro, tudo dentro de determinados limites. Estes limites estão bem explicados no espirituoso prefácio escrito por Alice Ruiz, que nos deixa claro que a intenção de mostrar homens nus e escrever quadrinhos eróticos para mulheres não era simplesmente expandir lucros, mas colocar as leitoras mulheres no mesmo patamar do mercado editorial masculino. Uma decisão equivocada por um motivo simples e ligeiramente cômico: mulheres não pensam como homens, como atesta a própria autora, mas é óbvio isso não diminui em nada o valor da intenção da publicação.

afrodite quadrinhos eroticos - editora veneta

Uma das boas sacadas de Alice era, por exemplo, escrever o horóscopo, normalmente o espaço dedicado a parvalhice astrológica, em forma de contos em HQ que resgatavam a mitologia grega, em particular histórias relacionadas a personagens femininas fortes e/ou trágicas, além de também assinar roteiros originais que valorizavam a independência e a sexualidade femininas, e pequenos chistes brincando com o fetichismo masculino que assombra o universo das mulheres.

As histórias em si não chegam a ser particularmente bem escritas, pois a maior parte dos textos é rasa, sem ritmo e sem a contundência necessária para histórias curtas, além de apenas pincelar os pretendidos valores feministas. Elas simplesmente não nos chocam hoje como chocavam na época, mas temos que insistir no valor histórico desse volume. Conhecido como o “ano da abertura”, 1979, quando a censura e a repressão do patético regime militar afrouxaram, as revistas da Grafipar foram pioneiras nesse sentido.

Para um primeiro trabalho relacionado a esses temas, podemos entender porque eles foram um sucesso no período. Sem falar que sem publicações como essa, não teríamos nem a referência para atestar o vanguardismo, nem a liberdade para tratar da sexualidade e do feminismo como o fazemos hoje.

afrodite quadrinhos eroticos

Ousadia gráfica

O que vale a pena exaltar na obra, além do seu pioneirismo, são os desenhos. O time reunido por Alice Ruiz e Paulo Leminski é invejável. Todos eles trabalham, dentro do seu próprio estilo, a figura feminina com beleza e graça, com nudez é explícita sem ser vulgar. Esses estilos são muito distintos entre si, mas são facilmente reconhecíveis como obras de desenhistas brasileiros.

Além dos já mencionados Seto e Shimamoto, ainda temos nomes como Flavio Colin e Mozart Couto, este último um dos primeiros brasileiros a realizar trabalhos para as grandes editoras americanas. A presença deles torna-se ainda mais louvável após lermos o prefácio de Ruiz, que deixa bastante claro que muitos desses artistas participavam dessas revistas por puro amor as HQ’s, já que o retorno financeiro era mínimo.

Também precisamos citar a dedicação da Veneta ao volume. Embora o preço sugerido, R$ 54,90, seja salgado, está de acordo com o ótimo papel offset e a bela capa dura que emolduram a HQ. A intenção é óbvia: preservar este quadrinho como o documento histórico que ele é.

Falando de história, a grande ironia sobre todo esse assunto e essa HQ é que seu sucesso acabou se tornando sua própria ruína. A liberdade que eles ajudaram a conquistar fez com que seu próprio público virasse as costas para essas revistas, levando a Grafipar progressivamente à falência, deixando todos esses grandes artistas novamente órfãos de um espaço editorial. Afinal, quem precisava de HQ’s eróticas quando a verdadeira pornografia já estava liberada?

O Escritor Maldito estava certo quando dizia que toda nudez seria castigada…

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