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A Vida Secreta de Londres – …o abismo olha para você!

A Vida Secreta de Londres é uma antologia visceral

Existem lugares que nos geram sensações atípicas. E não estou falando de um local turístico, paradisíaco, perigoso ou com qualquer outro tipo de característica acentuada e óbvia. A questão aqui é sobre o que está enraizado. É sobre sutilezas na arquitetura e nas paredes bacterianas de concreto e tijolo que infectam essa cidade. A Vida Secreta de Londres coloca o leitor em meio a uma autópsia desse estranho organismo que é a capital inglesa.

Resenha de A Vida Secreta de Londres

A Vida Secreta de Londres

Organizada pelo argentino Oscar Zarate e publicado no Brasil pela editora Veneta, A Vida Secreta de Londres é uma compilação que reúne crônicas e quadrinhos de alguns do mais importantes artistas britânicos da atualidade. Dentre eles, podemos destacar Dave McKean, Neil Gaiman (Deuses Americanos), Alan Moore (Watchmen, V de Vingança), Woodrow Phoenix (Autocracia) e Iain Sinclair (nunca antes publicado no Brasil).

Usando Londres como a grande personagem que conecta as narrativas em sua essência, temos como pano de fundo a teoria da Psicogeografia, que estuda o comportamento e as emoções dos indivíduos a partir de efeitos do ambiente geográfico e sua arquitetura. Algo muito explorado por Alan Moore em sua obra Do Inferno, dedicando inclusive um capítulo inteiro as características arquitetônicas da cidade.

 Resenha de A Vida Secreta de Londres

O palco perfeito para uma peça excêntrica

Londres sempre teve acontecimentos bizarros. Além de enforcamentos em praças públicas na Era Vitoriana, em que ricos usavam monóculos para apreciar melhor o tenebroso espetáculo, a cidade tinha um fedor próprio causado pelo esgoto a céu aberto no Rio Tâmisa, somado a cadáveres putrefatos que não tinham espaço nos cemitérios superlotados. Para se ter uma ideia dessa atmosfera fétida, sessões do Parlamento, que fica às margens do rio, foram interrompidas por causa do mau cheiro, em 1858. Evento este que ficou conhecido como O Grande Fedor. Esse palco atípico já teve a presença de personagens sórdidos como Jack, O Estripador (figura central na obra Do Inferno – também tema de um Formiga na Tela – de Alan Moore) e outros.

É claro que atualmente as coisas são bem diferentes e Londres é uma capital fervilhante com várias atrações e oportunidades para aqueles que a visitam. Também foi o útero de grandes pensadores, artistas e músicos, fazendo do local um dos pólos mais importantes e produtivos da cultura humana.

Com toda essa heterogeneidade em suas lembranças, cicatrizes e DNA, Londres possui diversas camadas e tons de cinza que a tornam um personagem complexo. E é essa complexidade caótica que o leitor irá encontrar em A Vida Secreta de Londres. Cada artista apresenta uma visão diferente em sua obra de como o ambiente londrino catalisa acontecimentos fora do comum de maneira implícita. Não existem monstros nos becos escuros e nem pentagramas pintados nos muros de pedra. O que existe é uma atmosfera criada por memórias, que são os nutrientes que alimentam as pessoas que habitam esses quadrinhos e crônicas. Sem falar nos próprios autores, que também são originários deste ventre exótico. Os cenários são conhecidos e reais, sem nenhum elemento edificante ou chamativo de destaque. Isso não é preciso.

Resenha de A Vida Secreta de Londres

 Livre-se do cartesianismo antes de ler!

Normalmente, assim que vamos contemplar alguma obra de arte, já temos uma bagagem crítica sobre ela. Seja por causa dos autores, do tema ou até mesmo algo implícito como um senso de como ela deveria ser a priori. Estamos condicionados a aceitar mais determinadas estruturas narrativas, tanto nos quadrinhos quanto na literatura, do que quando nos defrontamos com algo totalmente diferente. A Vida Secreta de Londres vai perturbar o leitor menos aberto ao experimentalismo. A diagramação dos quadrinhos não respeita convenções, tampouco a estrutura de suas crônicas ou os próprios roteiros. O começo, meio e fim das histórias, se é que podemos defini-las exatamente como tal, se entremeiam numa fusão de ficção com realidade, deixando qualquer um perdido por algum tempo.

Essa confusão pode parecer uma falha. Das mais grotescas, aliás. Mas isso se o leitor ainda se prender a um modo convencional de leitura e interpretação. Porém, assim que essa amarra se solta, é possível compreender que esse caos é um elemento essencial para a identidade, tão própria, dessa união de histórias.

A Vida Secreta de Londres é uma antologia visceral, com uma seleção de autores surpreendentes. Não é possível classificar esta edição como quadrinhos ou literatura no modo convencional. Assim como seu pano de fundo, ela tem uma identidade própria e uma atmosfera única. Leia com calma e moderadamente. É como aconselho você, caro leitor, a lidar com esse tipo de trabalho. Afinal, como já disse Friedrich Nietzsche, ”… Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.“

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  • Alexander Meireles da Silva

    Eu quero! Parabéns Gustavo pelo texto. Estou lendo Estação Perdido do China Miéville e essa questão da cidade é central no New Weird.

    • Valeu, meu caro Alexander. Já leu nossas resenhas dos dois livros do Miéville?

      • Alexander Meireles da Silva

        Opa. Não vi. Vou conferir. Obrigado pela dica. E já compartilhei este post lá na página do Fantasticursos no Facebook.
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