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Um Estranho Numa Terra Estranha – Sempre grokando!

Um Estranho Numa Terra Estranha questiona os pilares culturais da sociedade da época

Tente, por pelo menos um instante, imaginar-se visitado por um alienígena que compreende sua língua e testemunha nossas ações e nossa cultura, mesmo sem entendê-las completamente. Agora, faça o exercício de conjecturar um diálogo com ele, onde você tenta explicar coisas como o dinheiro, monogamia, roupas, religiões, medo da morte, entre outros elementos que, normalmente, são os alicerces de nossa sociedade. Pronto? Foi difícil? Então, caro leitor, eu lhe pergunto: você consegue ver sentido e lógica real em sua fala? Por acaso percebeu que muitos de seus argumentos, provavelmente, não possuem racionalidade? Será que, por uma fração minúscula de tempo, você não acabou se vendo um pouco do outro lado desta conversa fictícia, notando que não compreendia na totalidade os costumes humanos e suas frivolidades? Em Um Estranho Numa Terra Estranha (Stranger In A Strange Land), Valentine Michael Smith não é um alienígena, mas um humano nascido e criado longe da Terra, alheio aos nossos valores. Ele é um estranho para nós, certo? Afinal, vivemos num poço de normalidade, sem nenhum tipo de falácia cultural, não é mesmo?

Este romance de ficção científica foi escrito por Robert A. Heinlein e publicado originalmente em 1961. O protagonista, Valentine Michael Smith, um humano criado no planeta Marte, posteriormente trazido à Terra, é apresentado aos nossos costumes, moral, regras e crenças. Enquanto tenta compreender tudo que constitui nossa sociedade, Smith também tenta explicar seus próprios conceitos fundamentais. Tal choque cultural gera conflitos internos e externos entre os humanos, ramificando em discussões sobre religião, morte, amor, sexo, bondade, entre outros temas que sempre possuem sua verdade absoluta – mudando constantemente de tempos em tempos.

Um Estranho Numa Terra Estranha, publicado originalmente em 1961, ganha sua nova edição pela Editora Aleph.

Um Estranho Numa Terra Estranha, publicado originalmente em 1961, ganha sua nova edição pela Editora Aleph.

A década de 1960 foi um verdadeiro marco para nossos costumes. O movimento da contracultura estava em seu auge, trazendo um novo tipo de mobilização, contestação social e um espírito muito mais libertário em comparação ao conservadorismo de décadas anteriores. É nesse cenário que chega ao mundo o livro de Heinlein, com um tom crítico que encaixava-se perfeitamente à época. Com isso, a obra foi um sucesso e ganhou o prêmio Hugo de Melhor Romance de Ficção Científica do Ano. O autor já havia preparado toda a estrutura da história no início dos anos 50, mas o próprio afirma que “…não poderia ser publicado comercialmente até que a moral do público houvesse mudado. Percebi as mudanças e acabou que eu havia esperado o tempo certo”.

(Se interessa pela época da contracultura? Não deixe de conferir o vídeo onde comentamos o documentário Gimme Shelter)

Pensando nesse ponto tão particular da História, Um Estranho Numa Terra Estranha ganha uma importância ainda maior para a ficção científica, pois mesmo que o gênero já possuísse alguns exemplares de contestação social, foi essa obra de Heinlein em particular que marcou forte presença dentro das discussões da época. Sua contundência e caráter incisivo para o período provaram que a literatura sci-fi poderia atingir um público maior, contribuindo nas transformações culturais da sociedade. Algo um tanto inusitado para o autor de Tropas Estelares.

Robert A. Heinlein, autor de Um Estranho Numa Terra Estranha

O norte-americano Robert Anson Heinlein nasceu em 1907 e morreu em 1988. Produziu 56 contos e 30 romances.

Várias maneiras de grokar

O livro é carregado de simbolismos, a começar pelo próprio nome do protagonista, Valentine Michael Smith, em que Valentine pode ser uma referência à Valentim de Alexandria, um teólogo gnóstico do cristianismo primitivo. A essência de seu pensamento era que a salvação estava no autoconhecimento, a gnose. O nome do meio, Michael (Miguel em português), pode ser lido como referência ao arcanjo São Miguel, onde na Bíblia Hebraica, é descrito no Livro de Daniel como o grande príncipe que defende as crianças de seu povo. No caso do último nome, Smith (sobrenome extremamente comum na língua inglesa), podemos entender como o sobrenome de alguém comum, do mesmo jeito que o sobrenome Silva é extremamente difundido aqui no Brasil.

Além do próprio nome do Homem de Marte, ao longo da narrativa, percebemos que diversos elementos simbólicos são trabalhados. A trajetória do personagem ganha ares messiânicos e até mesmo semelhanças com o arco de Prometeu, titã que roubou o fogo de Héstia e entregou-lhe aos mortais, na mitologia grega. De certa forma, Smith, além de gerar questionamentos a despeito das convenções sociais, também traz outro tipo de conhecimento às pessoas ao seu redor, criando até uma nova e involuntária crença.

Se quiser abusar dessa linha interpretativa, também é possível realizar um paralelo com a alegoria da Caverna de Platão. No mito, algumas pessoas estão em uma caverna onde ficam olhando para as sombras projetadas em uma das paredes, acreditando que aquilo é o mundo. Até o momento que são libertadas por alguém que conheceu o mundo fora da caverna. É claro que este libertador sofreu resistência, sendo considerado louco e até uma ameaça para os prisioneiros, que não queriam abandonar sua visão de mundo.

Ilustração representativa da alegoria da Caverna de Platão, mito aludido de certa forma em Um Estranho Numa Terra Estranha

Ilustração representativa da alegoria da Caverna de Platão.

Particularmente, o modo como a narrativa prossegue não me faz ver Smith como alguém que levaria os outros personagens para fora da caverna. Acredito em uma leitura mais cínica, em que a partir do momento que esses personagens estivessem “libertos”, na verdade, estariam apenas em uma nova caverna, um pouco maior que a primeira, mas ainda uma caverna. Afinal, o Homem de Marte também possui suas próprias crenças e preconceitos. Ele serve de termômetro para a cultura terrestre, mas de nenhuma forma um exemplo inquestionável. É uma visão pessimista e você não precisa concordar com ela, embora seja mais instigante, não?

É claro que, mesmo que essas referências sejam mais diretas e adicionadas à minha própria interpretação neste texto, não necessariamente são a única forma de assimilar a obra. Heinlein consegue dar margem para que o leitor compreenda, ou groke (verbo criado pelo autor, cujo significado é contextual, mas que podemos entender como “compreender”), da maneira que mais lhe for conveniente e aplicável. E isso, é claro, torna tudo muito mais interessante e gera possibilidade da discussão. Algo que, creio eu, seja o principal objetivo de Um Estranho Numa Terra Estranha.

Um ótimo conteúdo dentro de uma narrativa arrastada

Embora sua contundência seja inegável, a narrativa de Um Estranho Numa Terra Estranha sofre com o ritmo. Ao longo das mais de 500 páginas, o leitor encontra uma estrutura muito semelhante com a usada por Isaac Asimov (O Cair da Noite, O Fim da Eternidade, As Cavernas de Aço), onde os diálogos são os principais responsáveis por guiar a história. O problema aqui é que há um excesso injustificável de personagens e uma repetição de questionamentos que acabam por travar não só a continuidade narrativa, como também vulgarizar algumas discussões pertinentes.

Ilustração do personagem Valentine Michael Smith, o Homem de Marte em Um Estranho Numa Terra Estranha

Ilustração do personagem Valentine Michael Smith, o Homem de Marte em Um Estranho Numa Terra Estranha

A própria trajetória inicial de Smith na Terra, lida com questões burocráticas adicionadas a um quê de intriga midiática que não conseguem prender muito a atenção, pois são ineficazes na geração de tensão e suspense. Narrativamente falando, torna-se um grande desperdício de palavras que faz o leitor perder um pouco o entusiasmo. Outro ponto que atrapalha a experiência da leitura é o caráter datado da obra. Obviamente, para ser apreciado da maneira correta, deve se levar em conta a época em que o romance foi publicado. Mas estamos em 2017 e os questionamentos e contestações são outros. Portanto, é muito improvável que haja uma identificação forte. Isso tudo não diminui a importância da obra, que deve ser lida por qualquer fã do gênero. Contudo, em termos de entretenimento em uma boa leitura, esses fatos mostram-se um empecilho.

Um Estranho Numa Terra Estranha é um dos livros mais importantes da história da literatura de ficção-científica. Os temas contundentes, os questionamentos e o caráter contestador fazem da obra uma bela representante da década de 1960 e da contracultura. A narrativa e outros elementos estão datados, mas o valor histórico e as múltiplas possibilidades interpretativas a tornam imortal. Pelo menos por enquanto. Grokou?

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