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Piquenique Na Estrada – Você não é especial!

A indiferença cósmica em Piquenique Na Estrada

Provavelmente, todo gênero ou subgênero narrativo já foi subvertido em algum momento, intencionalmente ou não. Na literatura de Ficção Científica, ambiente tão propício à imaginação e, por isso mesmo, livre do domínio de clichês, a subversão é mais rara. Melhor dizendo, talvez seja algo não tão óbvio. Quando uma obra consegue tornar esse caráter mais evidente, já merece nossa atenção. Piquenique Na Estrada (Пикник на обочине) é uma delas.

Resenha de Piquenique Na Estrada

Piquenique Na Estrada, lançado pela Aleph.

Escrito por Arkádi e Boris Strugátski, em 1972, é um livro sobre o primeiro contato da humanidade com uma cultura alienígena. Se você pensou em algo como O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke, não poderia estar mais distante. Passando rapidamente pelo cinema, se lembrarmos de Eles Vivem, de John Carpenter, onde a narrativa já começa com invasores instalados, nos aproximamos um pouco. Ainda assim, existe uma diferença fundamental.

Os alienígenas de Clarke ou de Carpenter, cada grupo a seu modo, se importavam com a Terra e com seus habitantes. Em Piquenique na Estrada, não houve propriamente uma invasão ou tentativa de comunicação. Simplesmente passaram por aqui e foram embora como se não existíssemos, deixando uma série de objetos estranhos largados nas áreas que ocuparam. A ciência procura descobrir a natureza dos artefatos, que, apesar da utilidade de alguns e propriedades curiosas de outros, parecem ser apenas lixo deixado em um passeio.

Apesar de um acontecimento que afeta o mundo todo, a história tem um recorte ambientado em algum lugar da América do Norte. Décadas depois da passagem dos alienígenas, as Zonas, os locais da visitação, têm objetos que valem muito em um mercado paralelo. Por conta das condições naturais alteradas dos lugares e do acesso restrito, garimpar esses “tesouros” é um trabalho perigoso e ilegal. Os assim chamados Stalkers aceitam o risco em troca de um bom dinheiro.

Evento global, efeito local

Protagonizado por Redrick Schuhart, Stalker nas horas vagas e empregado do instituto que pesquisa as descobertas oficiais, Piquenique Na Estrada se ocupa mais da assimilação do fato surreal pelas pessoas comuns. Existe um impacto enorme em nível mundial, mas os irmãos Strugátski estão interessados em uma esfera mais particular. O intimismo da trama convida à reflexão: como você se sentiria com a indiferença dos visitantes?

Não apenas isso, ainda muito longe de entender a natureza de muitos dos objetos, a ciência precisa se resignar com sua ignorância. Os benefícios de alguns deles são evidentes, como baterias inesgotáveis, mas existe a dúvida perene sobre seu real potencial. Brian Aldiss já havia colocado em xeque os conceitos nos quais os humanos se apoiam e se orgulham, em Os Negros Anos-Luz. Aqui, os autores não só demolem o conceito de que o humano é intrinsecamente especial, como também colocam a classe científica em uma posição de impotência. O interessante é que Boris Strugátski também era astrônomo e engenheiro da computação.

A jornada pessoal de Redrick Schuhart traz ainda mais questionamentos sobre algum propósito oculto dos alienígenas. Não se trata de alguma descoberta detetivesca, mas sua própria vida familiar, lidando com consequências de ser um Stalker. A sutileza dos dramas e da busca de Schuhart é uma grande qualidade, algo que pode ser notado inclusive na incerteza criada em torno dos visitantes. A presença deles é muito forte e sentida pelo leitor, mesmo já tendo partido há muito quando a história começa.

Resenha de Piquenique Na Estrada

Cena de Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky, cujo roteiro foi escrito pelos próprios irmãos Strugátski.

Chernobyl, Tarkovsky e a Cortina de Ferro

Falando em desgraça e desolação, é curioso e até irônico, ainda mais em uma ficção científica russa, que os perigos da Zona tenham encontrado ecos na vida real.  É inevitável lembrar da área em torno de Chernobyl, cujo desastre radiativo aconteceu na década seguinte. Piquenique Na Estrada também costuma ser associado ao filme que inspirou livremente, Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky.

Na Estônia, o mítico diretor filmou um roteiro escrito pelos próprios autores e lançou o filme em 1979, falecendo em 1986 em virtude de um câncer de pulmão. Do mesmo mal, também morreram sua esposa Larisa, que fez parte da produção, e o ator Anatoliy Solonitsyn.  A versão oficial é que foram afetados pelos resíduos químicos de um rio contaminado nos arredores.

O livro passou por uma longa saga de alterações em sua Rússia natal. Não que houvesse qualquer crítica mais declarada ao regime soviético (como no caso de Nós), sequer alguma mais velada. Um posfácio de Boris Strugátski explica todo esse caminho, sem esconder o sentimento de revolta contra os editores que não entenderam a proposta, ou tinham ideias restritivas em relação à literatura geral. No prefácio, ninguém menos que Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão) comenta a resistência que havia quanto ao sci fi produzido do outro lado da Cortina de Ferro.

Encarando a relativa insignificância

Piquenique Na Estrada lida com algumas proposições pouco agradáveis, dependendo da visão de mundo do leitor. Não significa que deva ser lido apenas por este ou aquele grupo, mas deve ser encarado com a mente aberta. Sob um ponto de vista estreito, pode ser visto como tedioso e com poucos acontecimentos em cerca de 300 páginas, mas, para os que se dispuserem a pensar, prova novamente que o extraordinário pode ser encontrado debaixo do ordinário.

Na verdade, vai até um pouco além, embaçando muito nossa noção do que é extraordinário ou não. Afinal, o que alguns veem como uma odisseia, outros podem ver como um simples… piquenique.

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