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Palcos de Sangue: As tripas e os corações da Vigor Mortis

O início do Horror explícito em Palcos de Sangue

Imagine o seguinte diálogo:

-Vamos fazer um filme?

-Vamos!! Mas que tipo de filme?

-Ah, deixa eu pensar…que tal um filme de terror?

-Terror?

-Sim! É bem fácil! Só colocar gente morrendo ou um maluco matando. E sangue, muito sangue.

Ah, as doces ilusões da juventude! Afinal, nove em cada dez (o que não quis, era medroso) adolescentes que já sonharam em dirigir um filme pensaram numa trama de terror. Talvez porque seja a idade dos hormônios em polvorosa, o gênero que vem desde os primórdios do cinema (afinal, um experimento de horror como Le Manoir du Diable de Georges Méliès, data de 1896!) provocando arrepios, gritos e noites insones agrade tanto.

Mas quem pensa que horror é só coisa de guri que se diverte com uma câmera, precisa conhecer o paranaense Paulo Biscaia Filho, o garoto que já passou dos 40 e não perdeu o fôlego horrorístico. Um bom começo pode ser se debruçar na leitura de Palcos de Sangue, lançado em 2012 pela editora Estronho. Criador da companhia de teatro e cinema Vigor Mortis, localizada na cidade de Curitiba, Biscaia transformou o tema de seu trabalho de mestrado -na Royal Holloway University of London – na base criativa de seus espetáculos e, posteriormente, de seus filmes.

Resenha de Palcos de Sangue, de Paulo Biscaia Filho

Palcos de Sangue

Um resumo de seus estudos sobre o Théâtre Du Grand Guignol, local de apresentações teatrais extremamente chocantes que revolucionou Paris no final do século XIX, é o cartão de visitas do livro. Com uma linguagem acessível e muita informação, Biscaia apresenta os primórdios do horror hardcore, onde o intuito principal era chocar o público que lotava uma pequena capela localizada na rua Chaptal, no bairro de Montmartre (o mesmo da Amélie Poulain, lembra?). Apesar de ser um local, o Théâtre Du Grand Guignol passou a nomear um estilo de dramaturgia focado no extremo, com direito queimaduras com ácido, assassinatos e estupros. Tudo com requinte de detalhes sórdidos. Os francesinhos que se acham modernos por serem fãs da franquia Jogos Mortais não sabem o que seus bisavós assistiam para se divertir naqueles tempos ditos “inocentes”.

As peças de Paulo Biscaia Filho

Após a aula de Biscaia, que alimenta nossa curiosidade por este estilo teatral e sua influência inclusive nas produções mais recentes de horror, o leitor poderá se divertir com os roteiros de três peças do autor, sendo elas Morgue Story, Graphic e Nervo Craniano Zero. Aos que acham uma chatice ler roteiros de peças de teatro, um alento: Biscaia pode ser qualquer coisa, menos chato na hora de criar. Suas anotações incluem elementos como iluminação, cores, texturas e até os mínimos movimento dos atores. É impossível não ficar imaginando cada cena, todas exalando cultura pop e sanguinolência. Sim, pois Biscaia não se atreveu a ser puro Grand Guignol e acrescentou em seu caldeirão macabro tudo que atrai o seu olhar, o que inclui histórias em quadrinhos, clássicos slasher (há várias citações de trabalhos de Sam Raimi e Tobe Hooper) e canções guiltly pleasure como Total Eclipse of The Heart, de Bonnie Tyler!

A força dos diálogos e cenas criados por Biscaia e sua trupe da Vigor Mortis, que já completou duas décadas de muito sangue nos palcos e nas telas, fica ecoando na cabeça de quem se aventura a ler Palcos de Sangue. Até quem tem fama de não se impressionar com nada não passa incólume por suas linhas. E aos cinéfilos de plantão, vale uma revisão pós-leitura dos filmes de Biscaia, em especial Nervo Craniano Zero, com sua coadjuvante que vira protagonista após um procedimento um tanto bizarro. Se já era divertido sem conhecer as loucas inspirações de Biscaia, fica ainda melhor. E mais sangrento.

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