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Os Filhos de Húrin – Uma tragédia tolkieniana!

Os Filhos de Húrin

Os Filhos de Húrin

Tolkien é, indiscutivelmente, o maior demiurgo literário do século XX. É talvez o único escritor sobre o qual dizer “deixou um universo criativo para trás” seja uma expressão a ser aplicada literalmente. Ler as obras de Tolkien é mais do que penetrar nas ideias e regras internas de uma fantasia – é imergir em um mundo real, quase palpável, onde existe o peso perene, mas constante, da história daquele mundo e das culturas que o habitam. Em uma certa medida, se imaginarmos o tamanho da nossa ignorância sobre as culturas e a história de todas as civilizações do nosso próprio mundo, não seria inadequado dizer que o mundo mitopoético criado por Tolkien pode ser tão – ou mais – real do que o nosso próprio mundo.

E sendo um mundo real – vivo, porque não dizer – nem mesmo Tolkien, em toda a extensão de sua imensa vida, conseguiu organizar todas as histórias a serem contadas. Afinal, como disse certa vez Christopher Tolkien, herdeiro da obra do Professor, “o estilo e forma de compêndio ou epítome de ‘O Silmarillion’, com sua sugestão de eras de poesia e ‘tradição’ por trás deles, evoca fortemente um senso de ‘histórias não-contadas’, mesmo quando elas são contadas.” E é uma dessas histórias distantes e esquecidas dentro de Arda que se trata esse volume: Os Filhos de Húrin (The Children of Húrin), editado no Brasil pela WMF Martins Fontes.

A história de Húrin, seu filho Túrin Turambar e sua família nos mostra uma parte de Tolkien pouco vista em seus outros livros mais famosos – sua habilidade para a narrativa trágica. Exato, amigo leitor. Se você pegar esse volume esperando um maniqueísmo equilibrado, com guerras mostradas à distância, dando o foco para carismáticos personagens salvarem o dia no final, saiba que você irá se frustrar. A lenda de Húrin e seus filhos é permeada, do começo ao fim, por injustiças, tragédias e uma sensação amarga de fatalidade que se estende por gerações inteiras. Embora não seja uma obra tão literariamente densa quanto o resto do cânone do Professor – principalmente quando comparada ao esmero de O Senhor dos Anéis – o que lhe falta talvez na habitual sofisticação lhe sobra em densidade dramática.

Tolkien - Os Filhos de Húrin

J. R. R. Tolkien, o pai da matéria!

O fato, como dissemos, de Os Filhos de Húrin não ser tão sofisticada literariamente se deve principalmente ao fato de que, assim como inúmeras outras histórias do cânone de Arda, ela passou por inúmeras revisões nas mãos preciosistas de Tolkien e nunca encontrou uma versão final. Tanto que este volume é, na verdade, a terceira publicação do conto desses personagens, tendo sido a primeira em O Silmarillion, que foca nas principais lendas cosmogônicas e mitopoéticas das primeiras duas eras de Arda, e em Contos Inacabados, que nada mais é do que um imenso esforço por parte de Christopher para dar alguma ordem à obra de seu pai.

Mas isso não faz com que a história, em si, perca nada de sua potência. A trama se passa milhares de anos antes da aventura de Gandalf e sua Sociedade, quando o próprio Sauron, grande vilão da saga do Anel, não era mais do que um tenente do então Senhor do Escuro, Morgoth, um vala (um dos seres primordiais criados por Erú Iluvatár, o “deus” do universo tolkieniano) tão poderoso quanto corrupto e mau. Devido a uma série de fatores, Morgoth é exilado em Beleriand, e de sua fortaleza Angband lança todo tipo de desgraça sobre esse continente e também a Terra-Média. Resta então aos primeiros (elfos) e segundos (homens) filhos de Erú combaterem esse mal. No período descrito nessa história, entretanto, a aliança entre elfos e homens minguava, devido as colossais perdas de ambas as raças e ao remorso que sempre toma conta das pessoas quando guerras se estendem por tempo demais.

Nós acompanhamos então a saga da casa de Húrin, um dos poucos humanos que se recusaram a abandonar ou mesmo trair os elfos. Entretanto, na mesma escala de seus feitos heroicos estão também suas calamidades. Após a horrenda Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Incontáveis, quando os povos livres de Arda realmente vislumbraram uma derrota final para Morgoth, Húrin é capturado por este, e não apenas é torturado ao estilo da lenda grega de Prometeu, acorrentado a uma montanha, mas também é obrigado a testemunhar a maldição lançada sobre seus herdeiros, especialmente Túrin. Já Túrin é fadado a um ciclo de vitórias pirrônicas até o fim de sua vida – para cada grande conquista, uma desgraça de igual proporção.

Os Filhos de Húrin

A parte mais interessante disso é que Tolkien, um dos maiores estudiosos de mitologias europeias do século XX, consegue emular com perfeição as principais características da tradição literária e teatral grega dentro de seu próprio mundo. Dada a sua colossal habilidade narrativa, Tolkien consegue nos enganar, fazendo de um exercício literário uma trama trágica envolvente e comovente, muito distinta, como já dissemos, do tipo de influência utilizada em O Senhor dos Anéis ou O Hobbit. Em Os Filhos de Húrin, embora se saiba quem é amigo e inimigo, o contexto de uma guerra milenar que não vai bem para os protagonistas cria circunstâncias em que todos os supostos “heróis” da trama apresentam algum tipo de falha ou ambiguidade moral, dando cores muito características para esse conto, desconhecidas para os leitores que se restringiram a Saga do Anel.

A única ressalva, entretanto, é que pode ser uma obra um tanto hermética para aqueles que não são fãs hardcore da obra do Professor. Embora seja extremamente bem feita e cuidadosa para tentar explicar o melhor possível do contexto da obra para os leitores de primeira viagem, ela definitivamente não é recomendada para quem não está mais habituado ao cânone de Tolkien, sob o risco de o amigo leitor ter que perder um tempão lendo os anexos para entender tudo o que está acontecendo – o que certamente tira um pouco do prazer da leitura.

Mas se o amigo leitor não se importa com esse aspecto e entende que Os Filhos de Húrin é uma bela obra menor dentro do universo criado por Tolkien, certamente irá se deleitar e se comover com o brilhante estilo narrativo do maior escritor de fantasia de todos os tempos, e um dos melhores escritores do século XX.

Nai anar caluva tielyanna (Que o sol brilhe sempre em seu caminho)!

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