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MARVEL COMICS: A HISTÓRIA SECRETA – Um retrato nada espetacular ou fabuloso

“Stanley nunca teve mentalidade editorial. Não era possível que um cara como Stanley inventasse algo novo – nem algo velho, aliás. Stanley não era um cara que lia, nem que contava histórias” – Jack Kirby ao Comics Journal

É normal que pessoas de fora, que cresceram curtindo HQ’s de super-heróis, tenham uma visão muito pouco realista da lógica de trabalho das grandes editoras.  Provavelmente muita gente já imaginou que esse mundo de uniformes coloridos e super-poderes era um ambiente maravilhoso, ou que trabalhar com personagens conhecidos seria como viver um sonho. E aqueles que um dia aspiraram, ou ainda aspiram, criar algo para DC ou Marvel? Seria fantástico, não é mesmo? Segundo a extensa pesquisa de Sean Howe, a resposta é “Não, não seria!”.

O livro de Howe, Marvel Comics: A História Secreta, parte da criação da Timely, na década de 1930, por Martin Goodman, até 2011, com os heróis da editora já com os pés fincados em Hollywood sob o comando da Disney. Desnecessário descrever aqui detalhes como Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko e tantos outros entraram no barco, nem as condições – turbulentas – nas quais muito deles saíram, pois o prazer de ler o livro é justamente a descoberta, até para o leitor já familiarizado com a trajetória da editora, tamanha a riqueza de detalhes e abrangência cronológica. Era de se esperar que a obra trouxesse relatos revoltantes sobre abusos, tão comuns na grande indústria dos comics desde que Siegel e Shuster criaram um certo kryptoniano para a concorrente, mas o retrato pintado pelo autor nessas páginas é muito pior do que se poderia imaginar. Depois do estouro da editora, com uma reunião de talentos inigualável, o famoso atrito Stan Lee X Kirby e Ditko e o polêmico “Método Marvel” são somente o início de uma avalanche que compõe uma história com tantos personagens, entre heróis e vilões, que chega a lembrar um roteiro de alguma saga cósmica.

Stan Lee, antes da peruca, e Jack Kirby

Stan Lee, antes da peruca, e Jack Kirby

Recheado de casos que beiram a fofoca, mas que interessam a qualquer fã de quadrinhos interessado em bastidores, A História Secreta não se omite, quando necessário, a tocar em assuntos que se refiram às facetas menos honradas dos profissionais que passaram pela casa. Os egos inflados e jogadas sujas entre executivos, editores e roteiristas revelam um ambiente que causa mal-estar no mais escolado conhecedor de rotinas corporativas. Não deixa de ser divertido, por exemplo, ler sobre a birra entre John Byrne e Jim Shooter, que traz um dos relatos mais curiosos de todo livro, mas também surpreende -no mau sentido – descobrir que uma empresa conhecida por Casa das Ideias tem muito pouco a ver com essa alcunha.

Jim Shooter não tinha apenas cara de super-vilão, segundo algumas pessoas.

Jim Shooter não tinha apenas cara de super-vilão, segundo algumas pessoas.

A descrição dos vinte últimos anos abordados pelo livro, por volta da época em que os garotos de ouro desertaram da editora e criaram a Image, é objetivamente um panorama bastante desagradável para o fã de quadrinhos tradicionais impressos, e de boas histórias, claro. Até mesmo as iniciativas animadoras do início da década passada, como as linhas Ultimate e MAX, são analisadas dentro do contexto das decisões editoriais e são apontados os verdadeiros objetivos por trás disso. Acaba trazendo, inclusive, explicações plausíveis sobre o porquê dos cancelamentos repentinos, mudanças descabidas no rumo das histórias e o entra-e-sai de roteiristas e artistas. Sobre esses últimos, é bastante pertinente e necessário frisar que, exceto por um ou outro caso específico, são os que menos merecem o ódio e o desprezo dos leitores. Também é incômodo perceber ao final que a Marvel, do ponto de vista corporativo, realmente atingiu seus intentos, pelo menos por enquanto.

"Talentos" como Rob Liefeld e cia. prenunciaram o pior momento do mercado.

“Talentos” como Rob Liefeld e cia. prenunciaram o pior momento do mercado.

Cobrir mais de sete décadas de uma empresa não é uma tarefa simples. Torna-se ainda mais complicado quando você tem que pensar em não entediar seu leitor. Sean Howe foi capaz de unir a grande quantidade de depoimentos que conseguiu em uma linha que reconstrói todo o caminho da Marvel, mas de forma que a cada novo caso narrado, somos tentados pela curiosidade em descobrir qual foi a barbaridade ou a trapalhada seguinte. A edição nacional é prejudicada por alguns perceptíveis erros de revisão e escolhas discutíveis na tradução, mas traz como bônus um apêndice que lista os super-heróis e super-equipes, relacionando a página do livro em que foi citado, primeira aparição original e primeira aparição no Brasil.

Marvel Comics: A História Secreta é fundamental para qualquer fã curioso quanto às engrenagens das grandes editoras de quadrinhos, desde que não tenha receio de decepcionar-se ou rever conceitos. Lembra bastante Homens do Amanhã, de Gerard Jones, outro livro obrigatório que fala do início e consolidação da indústria dos comics, porém,talvez por focar apenas em uma empresa, o trabalho de Howe tem uma leitura mais ágil. É possível que também se beneficie pela quantidade de relatos em primeira pessoa dos vários profissionais ligados à Marvel, ou talvez ali existam realmente mais histórias para contar; curiosas, engraçadas e, infelizmente, tristes.

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