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Lobisomem sem Barba (Balão Editorial) – Estranho no bom sentido

Lobisomem Sem Barba poderia ser facilmente definido como um volume de micro contos ricamente ilustrados e escrito pela mesma pessoa. Poder-se-ia dizer também que suas narrativas trafegam do humor cínico resultantes da vivência do fracasso ao fantástico grotesco da impotência frente ao desespero. Mas há livros que de maneira involuntária subvertem as práticas de leitura e incidem sobre o leitor um estranhamento insinuante. Lobisomem Sem barba é um livro estranho.

Suas duas partes, “A Presa” e depois “O Predador” não parecem se conformar numa estrutura única a não ser que permitamos à ilustração como um ajuste para uma visão de fora, não como diálogo ou complemento, mas dando ao próprio objeto físico do livro o estatuto de uma linguagem de camadas sobrepondo-se aleatoriamente dependendo das aberturas ou fechamentos que o leitor pode se conceder.

Assim mesmo, é um livro confortável para se ler numa mesa de bar, possui o formato correto e se compõe com elegância ao lado da cerveja, e lido etilicamente não perde seu sabor, mas num dado momento o leitor desconfia que está perdendo pistas, porque o livro no seu todo é um enigma embriagado, a princípio, pelo título-augúrio-tatuagem na pele do “pas-de-deux” entre o Lobisomem e o Javali:”Subcultura, estão todos fracassando em seus papéis”. As “postagens” da primeira parte, “A Presa”, e principalmente seus “comentários” anunciam uma personagem contracenando com seus duplos e só percebemos isso graças ao trabalho de ilustração do autor. Em verdade, as ilustrações, como afirmamos acima, não são apenas a tônica do texto, mas a celebração mesma de seu mistério: O Fracasso como uma usina de força cedendo ao Inferno as armas de seus heróis.

Na segunda parte, “O Predador”, o bestiário se escancara, as estórias comentam a si mesmas e parecem se costurar, mas continuamos perdidos como se nos descobríssemos  em um deserto de atrocidades ocultas, talvez pela nossa própria incapacidade como leitores em decifrar códigos por sua vez inacessíveis ao próprio autor, este, enredado pela canalização dupla de texto e imagem plasmando-se no livro enquanto materialização de farsas, e o leitor, já enfeitiçado até ali, se conduz por conta e risco no pior de todos os pesadelos, estar preso dentro do sonho de um Outro, que nem sequer é o autor, ele mesmo tão prisioneiro quanto.

Como é possível então a leitura de um livro de micro contos, que se arroga uma estrutura aparentemente intuitiva e cujo conceito é uma caixa preta experimental, onde o texto é o lugar comum dos textos literários curtos da internet, acoplado a uma riqueza visual capaz de extrapolar o significado do livro e implodir ao mesmo tempo o projeto do próprio autor? Não é uma questão nova. Mas o fato de você poder tê-lo no bolso e lê-lo da maneira como bem quiser, mesmo assim sofrendo o incômodo de ter em mãos um dos livros mais estranhos da última safra, anuncia a necessidade de um novo tipo de leitor.

Talvez um Bestiário deles.

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