Home > Livros > Análises > Kindred: Laços de Sangue – Sci-fi feminino e provocador!

Kindred: Laços de Sangue – Sci-fi feminino e provocador!

A obra de Octavia E. Butler chegando ao Brasil com Kindred: Laços de Sangue 

Uma baixinha talentosa, que tinha pimenta no apelido não por acaso, cantou que nós ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. Por mais que a batalha para não repetirmos os erros daqueles que nos criaram seja árdua, realmente algumas coisas permanecem inertes, incomodando nossos caminhos. Mesmo não tendo acesso à biblioteca particular de Elis Regina, diz o meu sexto sentido que ela leria com gosto o romance Kindred: Laços de Sangue (Kindred), da norte-americana Octavia E. Butler.

Resenha de Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

Kindred: Laços de Sangue

Os leitores brasileiros sobreviveram a uma espera de quase quarenta anos para desfrutar da prosa incrível daquela que é chamada de Primeira Dama da Ficção Científica, que começa a ter suas obras lançadas pela editora paulistana Morro Branco a partir deste mês (notícia por aqui na semana passada). Iniciar os lançamentos com Kindred: Laços de Sangue não é apenas um jogada marqueteira por este ser o mais famoso livro de Butler, publicado originalmente em 1979. Logo nas primeiras linhas já se pode sentir o imã para um mundo de fantasia que tem muito da nossa tão comentada vida real. E é o seu lado mais sombrio e amargo que a autora faz questão de colocar em cada parágrafo.

Em pouco mais de 400 páginas (que passam muito rápido), conhecemos a história de Dana, uma escritora negra que ganha um presente de aniversário um tanto insólito. Ao soprar suas vinte e seis velinhas, ela passa a realizar viagens no tempo que a levam da sua casa na Los Angeles dos anos 1970 para uma fazenda no sul dos Estados Unidos, em pleno século XIX, auge da escravidão. Ou seja, sua vida no “passado” não é das mais fáceis. Quem já leu Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis, tem uma ideia das atrocidades cometidas contra as escravas nas propriedades sulistas. Estupros, torturas e castigos são descritos em detalhes em Kindred e isso nada tem a ver com apelação. Butler quis mostrar a uma juventude negra que via as histórias da escravidão como exagero de seus antepassados, que o filme de terror era real e não havia chegado à cena final.

Assim como acontece no filme De Volta para o Futuro, de Robert Zemeckis, Dana precisa tomar cuidado com suas atitudes nas visitas ao passado para garantir sua existência no futuro. Mas como se conter diante de tanta violência contra seu povo? É balançando na corda bamba deste dilema que a protagonista vai construindo sua trajetória e repensando como, mesmo depois de tantos anos, ser negra e mulher ainda é um desafio. Os apaixonados por ficção científica vão ficar satisfeitos com a construção das viagens no tempo, que sempre ocorrem quando Dana menos espera e talvez por isso mesmo suas experiências sejam tão intensas. A linguagem acessível é um alento, já que o conteúdo não é nem um pouco leve. Butler cutuca feridas sem só, fazendo o leitor engolir seco durante várias passagens.

Resenha de Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

Octavia E. Butler em 1984.

Atingindo cada leitor de uma forma particular

Como todo bom livro, Kindred tem várias camadas e irá tocar cada pessoa de uma forma diferente, porém não menos intensa. A questão de gênero bate forte nas leitoras mulheres já familiarizadas com as questões de sororidade. A luta das negras durante o período escravagista foi primordial para os primeiros passos do sufrágio negro e, mais tarde, do sufrágio feminino. Todas essas lutas, e outras mais íntimas, relacionadas a pessoas da família de Dana, são mostradas sem sutilezas, já que a vida não é nem um pouco sutil. O chicote na pele, o sangue escorrendo e as lágrimas derramadas em busca da liberdade e, mais ainda, do respeito, são o que fazem do livro de Butler uma obra-prima que deve ser lida mais de uma vez na vida.

Vamos torcer para que chegue o dia em que Kindred: Laços de Sangue seja considerada uma obra puramente ficcional. A dor do povo negro nunca será esquecida, mas conviver com ela apenas como uma lembrança deve ser o sonho de todos. Não importa a cor. Afinal, é só pele. O que importa é aquilo que faz nosso coração bater e nosso passo seguir em frente, firme e livre.

Se você curte a temática de viagem no tempo, confira também a resenha desta coletânea de contos!

Já leu essas?
Resenha Elric de Melniboné
Elric de Melniboné no Formiga na Tela!
space between
Curta The Space Between Us mostra futuro distópico de poluição!
Filme Blade Runner 2049
Blade Runner 2049 na conversa do FormigaCast!
Ficção científica brasileira no curta-metagem Children Of The Cosmos
Ficção científica brasileira no curta Children of The Cosmos!