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Jurassic Park – Dois livros em um!

Jurassic Park -Editora Aleph

Nova Edição de Jurassic Park pela Editora Aleph

Aproveitando o lançamento do filme Jurassic World (confira nossa crítica), a Editora Aleph publicou uma nova edição de Jurassic Park, livro que deu origem à franquia cinematográfica iniciada por Steven Spielberg.
Escrito pelo estadunidense John Michael Crichton em 1990, o título ganhou adaptação para as telonas três anos depois. Crichton formou-se em medicina pela Harvard Medical School, mas ficou famoso por seus trabalhos na literatura e no audiovisual.  Além de escritor, ele também era produtor de filmes, séries (foi o criador de ER – Plantão Médico) e até se arriscou na direção – Crichton dirigiu o filme Coma, adaptação do livro homônimo de Robin Cook, que também era médico.

Michael Crichton (1942 – 2008)

Michael Crichton (1942 – 2008)

Em Jurassic Park, estamos em uma corrida industrial da engenharia genética. Várias empresas investem em pesquisas para poderem manipular, literalmente, os componentes básicos que formam a vida. Então, uma das empresas mais vorazes nessa busca, a International Genetic Technologies (InGen) descobre uma técnica de recuperação e clonagem de DNA de seres pré-históricos. Com recursos praticamente ilimitados, o ambicioso e megalomaníaco John Hammond decide utilizar essa nova técnica para recriar dinossauros e montar um parque temático com esses fascinantes e extintos animais.

A narrativa começa preparando um pano de fundo muito interessante através de seu prólogo, que fala da evolução da biotecnologia – nessa parte, a graduação de Crichton ajuda, e muito, na credibilidade da escrita – e mostra alguns incidentes com pessoas que foram mordidas por animais estranhos. Tudo isso ajuda a construir um clima de thriller muito bom com duas linhas de suspense: a da espionagem industrial e outra sobre os estranhos eventos relacionados às mordidas.

Crichtonsaurus bohlini

O dinossauro Crichtonsaurus bohlini foi batizado em homenagem a Crichton e o paleontólogo Birger Bohlini

A história em si começa quando um grupo é selecionado para inspecionar o parque. Neste grupo, encontra-se o paleontólogo Alan Grant, a bióloga Ellie Sattler, o matemático Ian Malcolm e as crianças Tim e Lex Murphy, netos de John Hammond.  Seguimos os personagens explorando o parque até a metade da narrativa, e é nesse segmento que o leitor mais aficionado por ficção-científica enche os olhos.

Todo o processo de recriação dos dinossauros e as falas de Alan Grant fazem qualquer um, que tenha certa curiosidade sobre o mundo jurássico, virar as páginas sem perceber o tempo passar. Mesmo que estudos recentes invalidem muita coisa descrita por Crichton, tanto em termos genéticos quanto taxonômicos, a leitura é muito fluida e instigante. As próprias falas de Malcolm sobre a Teoria do Caos aplicada no parque são um dos pontos mais interessantes do livro, mesmo que inseridas de maneira forçada dentro da história. Afinal, não faz muito sentido o matemático estar alí. Ian Malcolm serve mais para Crichton poder falar sobre Teoria do Caos do que como elemento narrativo.

Mapa da Isla Nublar

Mapa da Isla Nublar, onde o Parque está situado.

Os problemas da história começam justamente quando os dinossauros escapam e perseguem os protagonistas. Pode parecer estranho, já que o fator aventura deveria ser, supostamente, a melhor parte. A questão é que o autor não consegue criar uma tensão literária capaz de gerar uma reação no leitor. A descrição dos momentos de ação é muito imagética, de modo que percebe-se que um filme seria muito mais eficaz nesse sentido – Spielberg manda lembranças. Diferente da primeira parte do livro, Crichton utiliza pouco os recursos da linguagem literária, tornando a leitura cansativa.

Outro empecilho é que muitos personagens estão lá de maneira gratuita. Além daqueles que servem unicamente como alimento para as feras, as crianças existem na trama apenas para gerar tensão maior – pois é muito mais assustador uma criança correr de um dinossauro do que um adulto, não é mesmo? Os personagens mirins também são descritos de uma maneira muito ingênua e que destoam da narrativa. A garotinha Lex, de 9 anos, grita de desespero ao ver um dinossauro, só que no instante seguinte reclama que está com fome ou que ficar lá escondida com os outros esperando o animal ir embora ”está muito chato”. Esse tipo de reação, além de inverossímil, atrapalha a fluidez da leitura.

Jurassic

Cena do filme de 1993 dirigido por Steven Spielberg!

O clímax do livro também traz um problema. Na verdade, o clímax é composto por toda a segunda parte da obra. Desde o momento que o primeiro dinossauro escapa até a última página, não temos uma divisão de atos muito clara e isso faz com que qualquer chance de catarse deixe de existir. Tirando a quantidade de páginas que restam, não há um ritmo na história que faz com que saibamos que o final está chegando. O impacto climático de verdade acontece apenas no epílogo. Além de mostrar as causas dos fenômenos ocorridos no prólogo, este capítulo bônus ainda dá um gancho muito interessante para a continuação O Mundo Perdido – cuja qualidade é muito questionável.

Apesar de seus problemas narrativos, Jurassic Park é divertido e possui o grande trunfo de ter trazido para o imaginário popular o encontro dos seres humanos com os dinossauros. Por mais que outras histórias de ficção tenham colocado o homem junto desses monstros jurássicos, Crichton o fez de uma maneira mais ”plausível“, utilizando a biotecnologia ao invés de uma terra inexplorada ou a – sempre presente – viagem no tempo.

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