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Estrada Para o Inferno – O medo pede carona!

Estrada Para o Inferno e as viagens para o desconhecido

“Ó estrada que viajo, a mim dizes: – Não me deixes?
Dizes: – Não te aventures, se me abandonas
estás perdido!
Dizes: – Já estou preparada, sou bem batida
e refugada nunca, cinge-te a mim?
Ó estrada pública, eu respondo que não receio deixar-te,
embora goste de ti,
tu me expressas melhor do que me expresso eu mesmo,
hás de ser para mim mais do que meu poema.”

O poeta americano Walt Whitman cantou sobre a paixão que a estrada que se perde no horizonte provoca nas pessoas, em especial as que estão dispostas a mudanças que vão além da geografia, em Canto da Estrada Aberta. Pegar a estrada, não apenas para a geração beatnik de Jack Keuroac, significa muito mais que largar a casa dos pais ou trocar a terra natal pelo desconhecido. Acelerar em busca de novos lugares, pessoas, cheiros, cores e sabores é o que move todo viajante. Porém, quando as descobertas passam de exotismo para risco de vida, a tão desejada estrada aberta ganha ares de monstro.

Resenha de Estrada para o Inferno

Estrada para o Inferno

A coletânea de contos de horror Estrada Para o Inferno, lançada pela gaúcha Argonautas Editora (que também nos brindou com Crimes Fantásticos), abre vários caminhos, não só no sentido literário. Além da presença de nomes já conhecidos do gênero, como Duda Falcão e Enéias Tavares (que presenteia os leitores com um spin-off do seu universo Brasiliana Steampunk, cujo primeiro volume, A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, foi resenhado aqui no Formiga), o livro conta com jovens escritores que foram desafiados a colocar no papel histórias de terror que envolvessem a estrada, seja como pano de fundo ou personagem principal. O resultado deixaria o roteirista Eric Red, responsável pelo ótimo A Morte Pede Carona, de 1986 (a versão de 2007 deveria ser proibida por lei, tal a sua ruindade), orgulhoso ou, no mínimo, inspirado.

As rodovias do inconsciente

Sem prefácio, Estrada Para o Inferno não tem tempo a perder. Já no primeiro conto, O Diabo na Estrada, a figura tão temida surge em um pai que pagou caro por seus erros de juventude e agora desabafa para o filho questões que são muito mais que um sermão paterno. É ler e perceber que não estamos diante de um conto comum. Família também tem os seus demônios. Mais de um, neste caso. O leitor dá uma respirada e logo vem o convite para passear pelo Japão em um Cadillac. Laura Piovarova escreve em ritmo frenético diálogos cheios de acidez e história. Ao ler sua biografia, descobrimos que a guria de Porto Alegre é estudante de design, apesar da alma de escritora.

Resenha de Estrada para o Inferno

Como não lembrar de A Morte Pede Carona (o filme original, é claro…)?

Além da presença da estrada, os contos possuem atmosferas que dialogam com outras formas de arte, como o cinema e a música. Se alguns escritos nos fazem montar um quebra-cabeça digno dos filmes de David Lynch, outros mexem diretamente com nossos pontos fracos, fazendo de cada frase uma revelação sobre nossos medos e angústias. Afinal, no fundo, toda ficção fala de coisas bem reais, dando forma aos nossos fantasmas, literalmente.

E o prezado leitor ainda vai encontrar, nas pouco mais de cem páginas do livro, escritores assombrados, uma aventura policial rápida e contada por meio de denúncias formais (quem diria que a linguagem dos advogados seria tão apavorante!), um conto de fadas que escorre sangue e um passeio pelos becos mais sinistros da capital gaúcha. Ufa! Pensa que cansa? Não, é apenas uma retomada de fôlego acompanhada do desejo de um segundo volume de Estrada Para o Inferno, quem sabe com novas vozes da literatura fantástica Made in Brazil lotando o porta-malas.

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