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Eis o Homem – Paradoxo cristão!

Viajante do tempo participando dos eventos da vida de Jesus Cristo. Muitos vão pensar imediatamente em Operação Cavalo de Tróia, e com razão, mas permita-me lembrar que o livro de J. J. Benítez foi publicado em 1984, estruturado como relato verídico para fins dramáticos. Eis o Homem (Behold The Man), além do tom completamente diferente, veio ao mundo mais de quinze anos antes, uma época de agitação em todo planeta, por isso mesmo rica nas experimentações de artes em geral. A ficção científica e a fantasia não ficaram alheias a isso e surgiram abordagens inusitadas na Inglaterra, puxadas pela lendária revista New Worlds, comandada por ninguém menos que Michael Moorcock.

Michael Moorcock em imagem recente!

Michael Moorcock em imagem recente!

Anarquista convicto, Moorcock assumiu a editoria da revista em 1964, publicando lá a primeira versão de sua história dois anos depois, que acabou ganhando o prêmio Nebula no ano seguinte. A versão definitiva chega em 69, editada em formato de livro e aumentando o escopo desta narrativa filosófica. Tão polêmica que nunca foi lançada no Brasil, como quase toda a esmagadora obra dele*, um assunto que merece um artigo à parte, mas o leitor brasileiro pode recorrer à edição de Eis o Homem lançada em 2007 pela editora Saída de Emergência, de Portugal. Fácil de encomendar nas grandes livrarias do nosso país, porém um tanto mais caro, o que desanima tratando-se de um livro fino, mas é aquele tipo de obra cujo conceito transcende – e muito – seu número de páginas.

*(Atualmente, o Brasil só conta com o Livro 1 e Livro 2 do personagem Elric de Melniboné)

A edição portuguesa!

A edição portuguesa!

Ainda sobre a edição portuguesa, uma impressão particular é que a sinopse na contra capa é um tanto reveladora demais. Claro que uma pesquisa sobre o livro, na internet, esfregaria as mesmas informações no nariz dos desavisados, mas aqui haverá um pouco mais de cuidado neste sentido.

Quando Jesus veio para fora, usando a coroa de espinhos e a capa de púrpura, disse-lhes Pilatos: “Eis o homem!” João 19:5

Karl Glogauer, o protagonista, é um homem comum atormentado por questionamentos muito característicos das décadas de 60 e 70. Iniciado no estudo da psicologia analítica de Jung e ex-aluno de graduação em psiquiatria, ele trava discussões acaloradas com sua – por assim dizer – namorada sobre o cristianismo. Nesta relação cheia de atritos, Monica faz questão de ridicularizar o que ela vê como fraqueza complacente da parte de Karl, que apesar de ter problemas com o conceito de deidade, aceita a ideia de um Cristo histórico crucificado e considera esse legado como positivo e necessário. Esta visão particular é, evidentemente, influenciada pelo estudo junguiano da prática religiosa, fator que a cínica Monica explora, atacando o trabalho e a pessoa do psiquiatra suíço, pelo prazer de irritar Karl.

O trabalho de Carl Gustav Jung é uma influência que permeia toda a ficção de Moorcock!

O trabalho de Carl Gustav Jung é uma influência que permeia toda a ficção de Moorcock!

Apesar dos contornos infantis desta relação, é aí que uma das questões centrais de Eis o Homem se revela. Despindo Cristo de sua divindade e analisando-o como vetor de transformação social, a necessidade da figura do mártir supremo já existia antes dele, conforme Glogauer acredita? Ou teria razão sua parceira, afirmando que essa é uma carência criada pela própria figura de Jesus Cristo? A melhor maneira de provar é conferir ao vivo, e aqui encontramos uma particularidade marcante desta história, como ficção científica.

O interesse de Michael Moorcock passa longe de discutir ou explicar leis da física. Na verdade, a questão “ciência” está aqui para colocar o nosso protagonista em 28 AD, viajando no tempo graças ao invento de um conhecido seu. Isso em termos práticos de levar a história adiante, pois no lado conceitual faz sentido que o deslocamento do personagem seja através de um engenho científico, ao invés de meios sobrenaturais, pela lógica interna e proposta geral. O objetivo real do autor – para o bem ou para o mal – é alcançar a psique do seu leitor, evitando alongar-se em teorias e explanações, que ele parece achar que tirariam a atenção do que realmente importa. Os mais atentos, procurando detalhes simbólicos, perceberão que a descrição desta máquina do tempo é bastante sugestiva e não está lá à toa.  Assim, Karl Glogauer começa sua saga encontrando João Batista entre um grupo de Essênios, juntando-se a eles facilmente.

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O viajante fez a lição de casa. Apesar das dúvidas sobre a pronúncia, conversar em aramaico não era problema para ele, considerado como um enviado dos céus pela forma como chegou. Disposto a ser apenas uma testemunha ocular, Glogauer acaba descobrindo um Cristo bem diferente do que esperava, com pais idem. Na condição de defensor da iconografia cristã, o choque e a desorientação são enormes, e o único caminho que ele vê, a partir dali, é assumir o papel do Messias, cumprindo todo o caminho descrito nos evangelhos até o fim. Não que ele espere fazer milagres, o que evidentemente não faz, mas aproveita-se do seu conhecimento em psicologia e do Novo Testamento, seguindo-o como um roteiro.

Além da discussão sobre religião em si, a atitude do protagonista acaba abrangendo outras facetas do ser humano, chegando ao ponto que o autor parece sempre perseguir de fato. Eis o Homem é uma história de fundo existencialista, nos desafiando para uma reflexão muito maior do que se imaginava no início. O posfácio da referida edição portuguesa, escrito pelo próprio Moorcock, traz comentários interessantes sobre a recepção da obra. Segundo ele, no Reino Unido ela foi muito bem recebida, inclusive pela comunidade religiosa, que parece – surpreendentemente – ter entendido o caráter de análise que essa obra de ficção possui. Já nos EUA, digamos que as reações foram opostas ao extremo, o que não é nenhuma surpresa.

Capa da "continuação" de Behold The Man!

Capa da “continuação” de Behold The Man!

Os iniciados nos conceitos deste escritor sabem que seu fetiche são as realidades paralelas, uma ideia que também está presente nesta narrativa, ainda que de forma sutil. Em determinado momento, o confuso personagem principal questiona se não acabou caindo em outra dimensão. Além disso, um Karl Glogauer diferente aparece em outro livro posterior, Breakfast in The Ruins, de 1972, atraindo o leitor para conhecer mais profundamente o Multiverso Moorcockiano.

Eis o Homem foi até para os quadrinhos em um periódico da Magazine Management, companhia ao qual a Marvel pertencia. Durante a década de 1970, a MM publicou uma leva de revistas de HQ em preto e branco em formato magazine, sendo Savage Sword of Conan a mais famosa e bem sucedida. Mesmo assim, entre material de propriedade do autor e personagens famosos da casa, houve espaço para uma publicação peculiar.

Capa do último número!

Capa do último número!

Em sua breve existência, Unknown Worlds of Science Fiction foi editada por Roy Thomas e trouxe histórias originais e adaptações de escritores de peso da ficção científica, como Harlan Ellison, John Wyndham e A. E. van Vogt. Na equipe criativa, Howard Chaykin, Gene Colan, Richard Corben e Bruce Jones, entre outros, fizeram a alegria de vários admiradores de HQ’s e de literatura fantástica. No sexto – e último – número da publicação, uma adaptação muito fiel de Behold The Man integrou a coletânea, com roteiro de Doug Moench e desenhos de Alex Niño.

A aventura de Karl Glogauer no traço de Alex Niño!

A aventura de Karl Glogauer no traço de Alex Niño!

Provocador e ainda atual, Eis o Homem mexe no fundo de um caldeirão de complexos humanos, muito reconhecíveis se olharmos com atenção. Longe de querer ofender algum grupo criando uma polêmica vazia, é interessante para qualquer um que se interesse pelo assunto religião, seja como crente ou não. Mais do que isso, é também uma alegoria contundente sobre um homem comum tentando fazer o que considera certo, enquanto procura descobrir a si mesmo. Seria muito fácil, exceto pela relatividade moral da situação em que se envolveu.

De alguma forma, parece bem familiar…

(Já leu o artigo sobre Michael Moorcock?)

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