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Deuses Americanos – Essência líquida!

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Edição de Deuses Americanos pela Editora Conrad!

Que sentido tem a existência de algo, se a razão de ser disto já não cumpre seu propósito? Que será de um criador sem sua criação? O que será de um deus sem adoradores? É sobre esse constante conflito de ser – e obter a razão para tal – que trata o livro Deuses Americanos (American Gods), de Neil Gaiman.

Publicado originalmente em  2001, acompanha o personagem Shadow Moon que, ao sair da prisão, recebe a notícia de que sua mulher e seu melhor amigo foram mortos em um acidente de avião. Atordoado e perdido, o protagonista acaba conhecendo Wednesday, um sujeito estranho e enigmático, e aceita trabalhar para ele como guarda-costas. Com o passar do tempo e uma verdadeira roadtrip pelos Estados Unidos repleta de eventos e sujeitos definitivamente bizarros, Shadow percebe que seu empregador é na verdade uma encarnação do deus nórdico Odin, que  está se preparando, junto com outros deuses antigos, para uma batalha contra as novas divindades modernas, advindos do mundo tecnológico, como a televisão e a internet.

O universo criado por Gaiman está repleto de ideias muito interessantes, que servem como princípio de uma infinidade de discussões sobre mitologia e filosofia. A principal delas, trabalhada em Deuses Americanos, é de que os deuses não são os seres primordiais onipotentes que originaram o mundo habitado pelos humanos, mas sim, conceitos que se tornaram vivos a partir do primeiro lampejo de imaginação de sua existência.

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Neil Gaiman

A partir de sua gênese, esses deuses acumulam força e vitalidade de acordo com a veneração de seus adoradores. Deuses mais antigos, como os nórdicos Odin e Loki, Kali, a deusa hindu do tempo, Tot, o deus egípcio do conhecimento, entre outros das mais diversas culturas, estão aos poucos se esvaindo pela falta de adoração na atualidade, adoração esta que agora está mais concentrada em itens modernos que originaram seus próprios deuses, como The Technical Boy, o novo deus da internet. Afinal, não seria o computador um altar onde as pessoas ficam em frente, adorando-o durante horas? Nesse mundo ficcional, as mortes em acidentes nas autoestradas, por exemplo, podem muito bem ser vistas como sacrifícios involuntários para um deus-rodovia. Aplicando essa ideia da personificação de um conceito a partir de uma veneração exaltada, a gama de entidades esquizofrênicas e deformadas que poderiam surgir no mundo de hoje é imensurável. Imaginem só como seria um deus do WhatsApp.

Interessante notar que um dos panteões mais famosos – no caso, o grego – não está muito presente na narrativa. Isso faz muito sentido, visto que, mesmo sem um grupo de crentes, eles ainda assim sempre são lembrados de uma forma ou de outra, seja na própria disseminação de sua mitologia de forma acadêmica, como também no próprio cosmos, onde os planetas de nosso sistema solar são nomeados em homenagem a eles através de seus nomes romanos.

Pensando nesse tipo de abstração, é impossível não lamentar o ano de publicação do livro (2001), quando a internet ainda estava ganhando espaço e não tínhamos a dependência generalizada dos smartphones e sinais razoáveis de 4G. Pensem em quão interessante seria essa história atualizada – algo que pode ser aproveitado na vindoura série de TV, ou em sua adaptação em quadrinhos. Felizmente, a formulação de Gaiman é muito bem concebida e se torna ainda mais contundente, de maneira que o leitor consegue imaginar, pelo menos um pouco, como seria essa teogonia moderna em toda sua futilidade e validade pífia. Aliás, o prazo de validade também é essencial para a compreensão da linha evolutiva desses deuses.

Seguindo o raciocínio da obra, nos dias de hoje em que a maioria das coisas, tangíveis e intangíveis, é cada vez mais descartável e dependente da aprovação de terceiros, temos deuses surgindo e desaparecendo com uma velocidade enorme. Não apenas nos famosos hits do momento, que são cantarolados durante um mês e depois caem no esquecimento junto com seu criador, como também na própria identidade de cada indivíduo. Não é tão difícil encontrar grupos de pessoas em uma busca desesperada por ser diferente, mas acabando em uma mesmice desintegrada. Os deuses mais sólidos estão se quebrando e os líquidos se perdem assim que seu receptáculo muda de forma no dia seguinte.

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Imagem da série Deuses Americanos que tem estreia marcada para 2017. A esquerda temos o ator Ricky Whittle no papel de Shadow e, a direita, Ian McShane como Wednesday.

Indo para o desenvolvimento dos personagens, temos um protagonista interessante e profundo, não apenas em seus traumas recentes, que são trabalhados à exaustão, como também nos pequenos gestos, o que denota uma personalidade muito própria e natural para Shadow. Com relação aos diversos deuses, antigos e modernos, há um certo quê de exagero em algumas ações. É totalmente compreensível a vontade de humanizar tais entidades, mas em algumas passagens acaba soando leviano demais. Mas, no geral, o texto dos personagens divinos sempre tem alguns enigmas que instigam o leitor a tentar adivinhar de qual deus é a encarnação em cena, trazendo a vontade mágica de virar as páginas para chegar na revelação, finalmente.

Muito das concepções em Deuses Americanos já foram utilizadas, de uma forma ou outra, nos quadrinhos de Sandman, provavelmente o trabalho mais famoso de Gaiman. É nesse ponto que a obra perde um pouco a força, não necessariamente por ser uma ideia já utilizada pelo autor, mas sim pela própria habilidade do mesmo na literatura. É notável que a narrativa de Gaiman é muito mais fluida e objetiva, sem perder a poesia do texto, quando colocada nos quadrinhos do que em um romance. Em muitas passagens o leitor se depara com descrições visuais pouco eficientes e até elipses de tempo um tanto mal resolvidas, algo que dificilmente encontramos em trabalhos do autor na nona arte, que lhe renderam um papel importante na chamada Invasão Britânica nos Quadrinhos – tema que ganhou um episódio especial de nosso podcast. Esse aspecto acaba deixando a leitura mais cansativa e refreada.

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Arte do ilustrador Erik A. Evensen

Deuses Americanos traz uma nova forma de pensar a sociedade a partir de conceitos que se tornam vivos. Existe melhor forma de definir um ser a partir da materialização de seus pensamentos e do cerne daquilo que ele venera?  Se os deuses podem, até certo ponto, definir o grau de civilidade de um povo, o que pensar dos donos dessa oficina maleável? E não vamos nos enganar, nós somos os artesãos desse panteão. Na inversão de papéis, em que a suposta criatura é na verdade o criador, temos um vislumbre da verdadeira essência daqueles que podem refletir sobre tudo, mas preferem a invalidez do nada. Aqui, o crepúsculo dos deuses não virá para o benefício do homem e da racionalidade.

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