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A fantasia de Andrzej Sapkowski – The Witcher, espadas e magia!

 “– Geralt – falou repentinamente –, você tem de admitir que ainda existem monstros. Talvez não sejam tão numerosos quanto no passado; talvez não fiquem escondidos atrás de cada árvore da floresta… mas existem. Por que, então, as pessoas inventam outros? E, ainda por cima, acreditam neles? Você tem uma explicação para isso, afamado bruxo Geralt de Rívia? Ou será que nunca se interessou por essa peculiaridade?

– Não só me interessei, célebre poeta, como tenho uma explicação.

– Estou curioso.

– Aos homens agrada inventar monstros e monstruosidades. Com isso, sentem-se menos monstruosos. Quando se embriagam, são capazes de trapacear, roubar, bater na esposa, deixar morrer de fome a velha vovozinha, matar a machadadas uma raposa pega numa armadilha ou ferir com flechas o último unicórnio do mundo. Nessas horas, gostam de pensar que Moahir, que adentra suas choupanas de madrugada, é muito mais monstruosa do que eles. Aí, ficam com o coração mais leve e acham mais fácil tocar a vida adiante.

– Guardarei na memória o que você falou – falou Jaskier após um momento de silêncio. – Vou encontrar rimas adequadas e compor uma balada inspirado nessa teoria.

– Pois faça isso, mas não espere por grandes aplausos.”

Trecho de “Os Confins do Mundo“, conto presente no livro “O Último Desejo“, do Andrzej Sapkowski.

A Saga do Bruxo Geralt de Rívia em The Witcher, de Andrzej Sapkwoski

Nos últimos anos, The Witcher vem se tornando uma das mais aclamadas franquias no mundo dos video games. Os três jogos foram inspirados pela obra do polonês Andrzej Sapkowski, e é desses livros que vamos falar na presente publicação.

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Andrzej Sapkowski!

A saga do bruxo Geralt de Rívia é composta por dois livros de contos e cinco romances, sendo eles respectivamente: O Último Desejo, A Espada do Destino, O Sangue dos Elfos, Tempo do Desprezo, Batismo de Fogo, A Torre da Andorinha e A Senhora do Lago, lançados pela WMF Martins Fontes aqui no Brasil.

Nas páginas da Fantastyka

Em 1985, na Polônia, a revista Fantastyka abriu um concurso visando selecionar contos de ficção fantástica para publicação. Andrzej Sapkowski, que na época era formado em economia e trabalhava como viajante comercial, decidiu escrever um conto para a competição.

Já nessa época o autor falava e lia cerca de nove línguas diferentes e viajava muito: assim, pôde entrar em contato com muita literatura e, durante as longas viagens, devorava seus livros. Sapkowski possuía uma grande bagagem quando começou a escrever ficção, aos 37 anos de idade, e isso talvez tenha sido um dos fatores decisivos para seu sucesso quase imediato.

Ele comenta, em sua entrevista no 10º Bookworm Literary Festival, que não sabe ao certo o que o havia motivado a escrever uma história fantástica, e aponta que talvez o principal motivo tenha sido puramente a competição em si.

Apesar de ter alcançado apenas o terceiro lugar no concurso, o conto Wiedźmin (O Bruxo) apresentou considerável sucesso entre o público. Na mesma entrevista Sapkowski destaca: “Alcançar o primeiro lugar é uma coisa, o impacto que você causa nos leitores é outra. E o impacto de Wiedźmin foi muito grande”.

Então, a revista Fantastyka começou a receber cartas e mais cartas de seus leitores, pedindo constantemente por mais histórias sobre certo bruxo. Sapkowski recebeu propostas dos editores e logo decidiu tornar-se um escritor full-time, criando novas histórias ambientadas no universo de The Witcher com Geralt de Rívia.

Na década de 90, Sapkowski já era o mais aclamado autor do fantástico na Polônia. Das páginas da Fantastyka, as histórias saltaram para publicações em livros que compilavam os contos de The Witcher. A primeira foi Wiedźmin, de 1990, contendo os cinco primeiros contos de Geralt.

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As atuais edições polonesas de The Witcher!

Depois, os tomos A Espada do Destino, em 92; e O Último Desejo, em 93. Depois vieram os romances: O Sangue dos Elfos (1994), Tempo do Desprezo (1995), Batismo de Fogo (1996), A Torre da Andorinha (1997) e, por fim, A Senhora do Lago (1999).

A saga do bruxo

A saga conta a história de Geralt de Rívia, um bruxo geneticamente modificado, treinado no castelo de Kaer Morhen, no norte, projetado especialmente para combater criaturas e monstros. Essa profissão de bruxo, que se torna cada vez mais rara, surgiu pouco depois do evento lendário a Conjunção das Esferas, que trouxe essas aberrações – vampiros, lobisomens, carniçais, dragões, estriges, entre outros – ao mundo conhecido.

Este mundo, por sua vez, é habitado por homens, anões, ananicos (lembram os hobbits) e elfos. O mundo de The Witcher é um local de constantes mudanças: inicialmente haviam anões e gnomos naquelas terras, até a chegada dos elfos. Com a dominação élfica, os anões e gnomos são empurrados para as montanhas.

Depois vêm os seres humanos, travando guerra contra todas as criaturas não-humanas e tomando posse de seus domínios em planícies e bosques; assim, os elfos são exilados em montanhas ou florestas inóspitas. Há forte racismo entre as raças e isso é um tema às vezes discutido nos contos.

O primeiro livro, como já mencionado, é O Último Desejo. O livro é composto por seis contos e sete interlúdios chamados A Voz da Razão. Esses interlúdios, a narrativa sobre os dias em que Geralt passou no Templo de Melitele, são o fio condutor da história. Tendo sido ferido por uma estrige no conto O Bruxo, Geralt vai ao Templo para curar-se e lá relembra algumas histórias de sua vida, que são os contos do livro.

A Espada do Destino, o segundo livro, se passa cronologicamente depois, e está ligado a alguns acontecimentos do primeiro. No mundo de The Witcher, há um antigo costume chamado Lei da Surpresa. Essa lei é o preço que um homem que salva alguém pode pedir a quem foi salvo, é uma recompensa.

E essa recompensa pode ser qualquer coisa: um cavalo, uma espada, um pedaço de terra, e até um membro da família. Sujeita a essa lei, Ciri se torna uma criança marcada pelo destino, devido às circunstâncias narradas no conto Uma Questão de Preço, do primeiro livro.

Em a Espada do Destino, nos últimos dois contos – A Espada do Destino e Algo Mais, temos a resolução da questão de Ciri, conectada ao bruxo pelo destino através dessa Lei da Surpresa. E essa resolução é apenas o início de toda a história envolvendo Ciri, Geralt, Yennefer e o destino do mundo, que se desdobra nos romances seguintes.

Até mais interessante que as tramas das histórias, são as relações entre os personagens que Sapkowski faz com primor. Todos os personagens são palpáveis, realistas e de personalidades muito bem construídas; isso só melhora com os diálogos ao longo da narrativa, que o autor faz com maestria, humor e extrema inteligência.

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As edições brasileiras!

Geralt de Rívia é posto em conflitos com Yennefer de Vengerberg, uma feiticeira de personalidade forte que havia conhecido o bruxo anos antes dos acontecimentos do primeiro livro. Se Geralt tem um grande amor em sua vida, esse alguém é Yennefer. A complicada relação de ambos é explorada em diversos contos como O Último Desejo, O Limite do Possível e Um Fragmento de Gelo. O outro fio condutor da história é Ciri, princesa de Cintra que, pelo Destino, está conectada a Geralt.

Entrando na mente do Lobo Branco

Além das relações interpessoais, a relação do bruxo consigo mesmo é um dos pontos mais relevantes da saga. O conflito com seu eu é trabalhado de forma magistral. Na maioria esmagadora das vezes, em romances fantásticos, o protagonista é alguém que está à parte do lugar comum, alguém que não se encaixa completamente em seu mundo. Tomemos como exemplo dois personagens emblemáticos: Elric de Melniboné, de Michael Moorcock, o último rei de uma raça inumana que, aos poucos, definha e desaparece, dando lugar aos reinos humanos do mundo; Kane, de Karl Edward Wagner, um espadachim feiticeiro e amoral, condenado à imortalidade, odiado por onde passa devido a seu egoísmo e maldade.

Com Geralt de Rívia não é diferente. Ele é um bruxo. Um ser modificado geneticamente, um não-humano moldado, uma máquina de matar monstros. Acredito que Sapkowski sacou bem uma das premissas centrais da obra do Moorcock – não é à toa que o polonês emprestou o termo Lobo Branco para designar seu personagem.

Em Elric, a raça dos melniboneanos definha e Yyrkoon, primo do protagonista, é deliberadamente contra Elric, pois este é diferente de todos os melniboneanos. Essa raça sempre foi moldada pela maldade e pela falta de sentimentos; Elric, entretanto, é o único de seu povo a apresentar sentimentos, a demonstrar piedade.

Partindo daí, Sapkowski inverte as coisas. Geralt, por sua vez, está imerso num mundo de humanos e criaturas onde, apesar das diferenças, todas possuem sentimentos. Podem amar, odiar, gostar, detestar, desprezar. Ele não pode. Afinal, é um bruxo. Mas, como sabemos no decorrer da leitura, atormentado por essa condição ele luta contra sua impotência, pois o que ele mais deseja é sentir, e isso fica claro em suas relações com Yennefer e Ciri.

Influências literárias

Em uma humorada entrevista na Eurocon 2016, Andrzej Sapkowski falou um pouco sobre o início do mercado de literatura fantástica na Polônia no século XX. O autor pontua que, durante os anos 50, muitas histórias de ficção científica foram traduzidas ou escritas naquela região sob o domínio da União Soviética. Entretanto, a literatura de fantasia ainda era algo distante. Não havia nada.

Somente no ano de 1963 houve a primeira publicação fantástica na Polônia: a obra de J.R.R. Tolkien, que foi de grande influência para Sapkowski. Depois vieram as histórias de Conan, de Robert E. Howard; os contos de Fafhrd and the Gray Mouser, de Fritz Leiber, seguidos pelo ciclo Terramar, de Ursula K. Le Guin. Segundo Andrzej Sapkowski, ler esses autores foi algo como “um amor a primeira vista”.

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Sapkowski e seu exótico prêmio

Apesar dessa menção, Sapkowski nunca dispôs de muito tempo para listar todas suas influências e leituras nas entrevistas. Por isso, em seu livro intitulado Manuscript Discovered in a Dragon’s Cave, um compêndio de opiniões pessoais sobre literatura fantástica, o autor apresenta uma extensa lista de obras e escritores como recomendação. Algumas obras da lista encontra-se no final desse artigo.

Além de anões e elfos

Mitologia eslava. Eis aqui outro ponto interessante da obra: comumente, na fantasia, nos deparamos com obras pautadas sobre a mitologia germânica e/ou escandinava. Sapkowski bebe destas fontes, mas não para aí. As criaturas caçadas por Geralt de Rívia vêm das mais diversas mitologias, não se limitando a uma gama essencialmente escandinava ou germânica de influências.

É verdade que muitos seres mitológicos compartilham origens diversas por toda Europa, África e Ásia, que foram amplamente misturadas pelo imaginário ao longo da Idade Média; o que nos interessa é que Sapkowski faz questão de apresentar os seres em suas “versões” eslavas.

Tomemos como exemplo a Cocatriz: mito que tem suas raízes fincadas na Grécia Antiga, derivando do ideal das Quimeras ou Basiliscos. A Cocatriz apresentada por Sapkowski nos remete muito mais ao ideal eslavo do bicho. Mais especificamente, ela é claramente inspirada na figura da Cikava, uma criatura mítica na mitologia sérvia, imaginada como um animal alado com bico afiado e corpo coberto por penas (muito mais próxima das aves do que dos répteis, ao contrário dos basiliscos, que são comumente associados às cocatrizes).

Desconstruindo arquétipos da fantasia

Mais um ponto crucial da obra é a originalidade nos conflitos das narrativas. E a inteligência que exala da execução deles. Vejamos o conto O Limite do Possível, talvez o melhor exemplo. Mais uma vez, como de costume, temos Sapkowski esbanjando poder narrativo. Este conto, como outros do autor, usa de um elemento clássico da literatura fantástica ou do folclore europeu – este, no caso, trata da caçada a um dragão.

Porém, Sapkowski sabe como renovar elementos clássicos. Abordado por um autor medíocre, esse tropo seria desenvolvido como uma caçada ao dragão típica: um bando de guerreiros cheios de lero lero heroico, batalhando uma luta épica contra um dragão essencialmente mau.

Com o Sapkowski é muito diferente. No conto ele trabalha com um grupo de personagens que se dirigem até a cidade onde o dragão atacou, marchando até as montanhas para derrotar a fera. E aí entra a versatilidade e inovação do autor, quando ele consegue trabalhar com diversos pontos de vista entre os personagens da empreitada: Geralt, que nem mesmo se interessa por caçadas a dragões, está com a caravana por simples tédio, talvez apenas para ficar perto de Yennefer.

Já Dorregaray, um dos feiticeiros que acompanha o comboio, está lá para tentar impedir os caçadores, em defesa de suas ideias de equilíbrio das forças da natureza, de que seria antinatural matar uma criatura que vive em equilíbrio com seu meio… é um típico “ambientalista”, que compartilha da filosofia dos druidas.

Eyck de Denesle é um cavaleiro andante que acredita que deve defender os homens dos dragões, justificando-se por motivos divinos, e carrega a certeza de que estes monstros são a solidificação do mal e que devem ser combatidos… ele é, basicamente, o oposto de Dorregaray, e funciona até como sátira ao estereótipo consolidado da figura do dragonslayer. Temos também os Rachadores e os anões de Yarpen Zigrin, que são apenas caçadores de dragões natos, e querem encher seus bolsos com o tesouro da fera.

Isto posto, temos brilhantes diálogos com confrontos de ideias, revelações, intrigas, argumentos, reviravoltas insanas e tudo o mais. Sapkowski dá ao conto uma narrativa, personagens e diálogos de um vigor e inteligência absurdos, proporcionando milhares de diferentes facetas para uma história fantástica.

Por isso, deve ser considerado um dos melhores autores de ficção fantástica da atualidade.

Sobre a tradução

Fazendo jus à qualidade da prosa de Sapkowski, a tradução de Tomasz Barcinski foi um dos maiores motivos para elogios às edições brasileiras. O tradutor, natural da Polônia e também dominador da língua portuguesa, sugeriu a publicação dos livros à editora que, por sua vez, aceitou. A Martins Fontes já possuía diversos livros de Tolkien – como Os Filhos de Húrin e O Silmarillion – em seu catálogo de publicações, logo, a obra de Sapkowski, um notável admirador do professor, viria bem a calhar.

Falecido em 2014, Tomasz Barcinski trabalhou nos quatro primeiros livros de The Witcher. Além da obra de Sapkowski, Barcinski trouxe para o Brasil outros grandes autores de literatura polonesa como Wladislaw Szpilman (O Pianista). As traduções da saga do bruxo Geralt de Rívia seguiram em qualidade com o trabalho de Olga Baginska-Shinzato, doutora no Instituto Luso Brasileiro de Cultura e Línguas na Polônia.

Manuscript Discovered in a Dragon’s Cave

Eis o melhor título possível para um compêndio sobre literatura fantástica. Andrzej Sapkowski apresenta nessa obra um panorama geral sobre a fantasia, suas figuras, motivos e conceitos, livre de quaisquer objetividades ou pretensões enciclopédicas; Sapkowski aqui é subjetivo e essencialmente pessoal em seus comentários e opiniões.

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Lyonesse é uma das excelentes sugestões de Sapkowski!

Além disso, Manuscript Discovered in a Dragon’s Cave traz uma grande lista onde o autor elenca os mais importantes livros e escritores de ficção fantástica, que devem ser lidos por quem aprecia ou escreve o gênero. Selecionei aqui algumas das mais essenciais obras presentes na lista do polonês:

  • O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien
  • Conan, o Cimério, de Robert E. Howard
  • Lyonesse, de Jack Vance
  • Fafhrd and the Gray Mouser, de Fritz Leiber
  • A Espada Quebrada, de Poul Anderson
  • O Único e Eterno Rei, de T.H. White
  • Elric de Melniboné, de Michael Moorcock
  • Ciclo Terramar, de Ursula K. Le Guin
  • The Amber Chronicles, de Roger Zelazny
  • The Book of the New Sun, de Gene Wolfe
  • As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley
  • As Crônicas da Companhia Negra, de Glen Cook
  • A Roda do Tempo, de Robert Jordan
  • As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin
  • Trilogia da Primeira Lei, de Joe Abercrombie

Nós comentamos algumas dessas obras nas nossas sugestões de literatura fantástica!

 

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